Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE).
Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE).Foto: FILIP SINGER / EPA

BCE. Primeira subida de juros em três anos tem de acontecer já porque inflação furou barreira dos 3%

Desde meados de 2023, o primeiro ano completo da guerra da Ucrânia, que os preços não subiam assim. BCE reúne-se a 11 de junho e vai apertar custo do crédito para mais de 2%.
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A subida de taxas de juro na Zona Euro já na próxima semana por parte do Banco Central Europeu (BCE) é agora inevitável, diz a maioria dos analistas, porque a inflação subiu de forma vincada no mês passado, superando a fasquia dos 3% em termos homólogos, confirmou o Eurostat esta terça-feira. Esta escalada dos preços dura desde janeiro e o valor de maio é o maior em quase três anos.

Desde maio de 2023, que o BCE só desceu juros, sendo que a taxa diretora estava estacionada em 2% (desde junho do ano passado), o valor mais baixo desde finais de 2022, o primeiro ano da guerra da Ucrânia.

Segundo o gabinete europeu de estatísticas, o agravamento dos preços atingiu 3,2% em maio (estimativa rápida), um valor considerado totalmente incompatível com a meta de 2% a médio prazo desejada e perseguida pelo Banco Central Europeu (BCE).

As taxas de juro de mercado, como as Euribor, que são as referências para os contratos de crédito e para os depósitos a prazo, já estavam a antecipar isto pois começaram a subir há uns meses, com o advento da nova guerra dos EUA contra o Irão e o encerramento das rotas comerciais (energia, fertilizantes, outras mercadorias) do Golfo Pérsico.

Assim, a autoridade monetária sediada em Frankfurt, na Alemanha, vai subir a taxa de juro principal da Zona Euro dos atuais 2% para 2,25% na reunião de 11 de junho, na semana que vem, indicam os observadores destes mercados.

Ainda se aventou que o BCE pudesse esperar um pouco mais para ver o que acontecia aos preços da Zona Euro, se a inflação se estava a enraizar noutras partes do mercado, além da energia e dos alimentos.

Mas não. O problema é que o valor de 3,2%, avançado agora pelo Eurostat, torna inevitável um aumento de juros, diz-se.

A inflação europeia, assim como a dos restantes países do euro, está a subir de forma imparável desde o início deste ano (em janeiro, antes da guerra, os preços estavam controlados e a subida média estava em 1,9%) e a subida de 3,2% agora registada, é o valor mais agressivo desde setembro de 2023, segundo a série do Eurostat consultada pelo DN/Dinheiro Vivo.

Carsten Brzeski, economista-chefe para a área de macroeconomia global no grupo financeiro holandês ING, observa que esta inflação de 3,2%, registada em maio (contra 3% em abril), "é o nível mais elevado desde setembro de 2023", ainda que o quadro geral da evolução de preços esperada para 2026 continue "em linha com o cenário base do BCE divulgado em março".

No entanto, o economista observa que "a inflação subjacente subiu para 2,5% em comparação com o mesmo período do ano anterior, contra 2,2% em abril". Assim, "uma semana antes da próxima reunião do BCE, este é o aumento da inflação que motivará o banco central a decidir sobre uma subida preventiva das taxas de juro", prevê o economista-chefe.

"Tendo em conta a experiência do ano de 2022, é provável que o BCE opte por um aumento preventivo das taxas de juro. Não que este aumento de taxas vá afetar significativamente as expectativas de inflação, mas seria uma medida simbólica, sublinhando a determinação do BCE em agir", explica o analista do ING.

Em 2022, com a guerra a decorrer na Ucrânia, desde fevereiro desse ano, e apesar do choque petrolífero e inflacionista de grandes dimensões que decorria, o BCE só agiu (aumentou juros) no final de julho.

Deste vez, vai querer atuar mais cedo. Daí os investidores e os mercados monetários estarem a descontar totalmente um primeiro aperto nos juros já a 11 de junho.

Duas ou mesmo três subidas de juros até final deste ano

Na semana passada, ainda antes dos novos sinais inflacionistas do Eurostat, "dois importantes administradores do BCE, Isabel Schnabel e Philip Lane, apontaram para uma próxima subida das taxas em junho", recorda o departamento de estudos económicos do Banco BPI.

"Numa entrevista à Reuters, Schnabel disse explicitamente que vê necessidade de uma subida na próxima reunião, enquanto Lane deu a entender que a subida seria necessária, ao antecipar um aumento das projeções do BCE para a inflação e ao sugerir que a Zona Euro está a afastar-se do cenário de impacto benigno do conflito no Médio Oriente. Globalmente, os mercados continuam muito confiantes de que o BCE aumentará as taxas em junho (taxa de depósito em 2,25%, com mais de 90% de probabilidade) e em setembro (taxa a 2,5%, também com 90% de probabilidade)", explica a equipa do BPI.

A taxa de depósito ou "depo", no jargão do mercado, é a taxa diretora principal do BCE.

Além disso, já "prossegue o debate sobre a possibilidade de uma terceira subida no final do ano (taxa a 2,75%, com uma probabilidade de 40%)", indica o mesmo departamento de estudos.

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