O ataque do Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, à Gronelândia e à coesão da União Europeia e da própria NATO (a Organização do Tratado do Atlântico Norte) agrava a incerteza e faz aumentar o nível de alerta económico na Europa face aos EUA daqui em diante, defendem vários analistas.Depois de dias e semanas a rondar o tema Gronelândia, desde propostas avulsas para “comprar” a ilha dinamarquesa por mil milhões de dólares, até ameaças de invasão militar e, mais recentemente, de tomada do território pela força, combinadas com novos aumentos de tarifas comerciais sobre oito países, na quarta-feira, ao final do dia, Trump viria a recuar, dizendo que podia, mas não iria usar a força neste caso. Também se comprometeu a “suspender” o agravamento de tarifas.Recorde-se que no passado fim de semana, o líder norte-americano ameaçou que aplicaria tarifas adicionais (face às que já existem) de 10% já em fevereiro e de mais 25% em junho sobre oito países europeus, entre os quais seis Estados-membros da União Europeia (UE).Segundo a Administração Trump são eles: Dinamarca, Suécia, França, Alemanha, Países Baixos e Finlândia (todos da UE), mais Noruega e Reino Unido.Depois de três dias de caos e turbilhão diplomático em Davos, na Suíça, durante o Fórum Económico Mundial, Trump lá acabou por anunciar o aparente recuo. Mas vem com um truque que, só por si, mina a confiança no futuro próximo.Terá sido Mark Rutte, o secretário-geral da NATO, o interlocutor de várias potências europeias e da Aliança Atlântica no sentido de aplacar alguns dos desejos anunciados pelo Presidente dos EUA.Essas discussões, no Fórum de Davos com Trump, tiveram como “objetivo garantir coletivamente a segurança de sete países do Ártico face à Rússia e à China”, revelou Rutte, esta quinta-feira.À mesa deste esboço de acordo que, diz Trump, lhe garantirá “acesso total” à Gronelândia sem ser pela força, estarão Estados Unidos, Canadá, Dinamarca, Islândia, Suécia, Finlândia e Noruega.Segundo a porta-voz da NATO, Allison Hart, “o secretário-geral não propôs qualquer compromisso sobre a soberania” da Dinamarca em relação ao território.De acordo com a Lusa, antes disto, a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, constatou que o seu país “podemos negociar todas as questões políticas, como segurança, investimentos, economia, mas não a nossa soberania”.Mas o mal está feito: derruba a confiançaNo entanto, o mal está feito, outra vez. Com este solavanco na ordem mundial, Trump faz aumentar, de novo, a incerteza e levanta muitas dúvidas sobre o curso das economias e dos mercados daqui em diante.Os mercados bolsistas afundaram entre segunda e quarta-feira, esta quinta recuperaram bem, mas nada está adquirido.Para Niclas Poitiers, um dos economistas principais do centro de estudos Bruegel, sediado em Bruxelas e conselheiro próximo da Comissão Europeia e do Conselho Europeu, “as ameaças tarifárias foram uma componente essencial da campanha de pressão sem precedentes utilizada pelo Presidente Trump na tentativa de aquisição da Gronelândia” e “este é mais um exemplo da centralidade das tarifas na política externa dos Estados Unidos” no momento atual.Para o analista, “independentemente do acordo recentemente anunciado sobre a Gronelândia, existem múltiplas linhas de fratura - a regulamentação digital, por exemplo - que podem levar ao colapso do acordo de Turnberry [na Escócia] entre a UE e os EUA, assinado em agosto de 2025”.“A forma como os governos europeus lidaram com as exigências dos EUA relativamente à Gronelândia parece ter sido um feito diplomático, equilibrando uma comunicação pública mais amena com sinais claros de determinação em retaliar fortemente, se necessário”, acrescenta o perito do think tank.Na opinião de Poitiers, “estes fatores impediram a imposição efetiva de tarifas e facilitaram a desescalada, pelo menos por agora”.Mas, para o mesmo analista, “o facto de estas exigências terem surgido, contudo, resulta também da rápida concessão da UE às exigências dos EUA no verão de 2025”.“Esta decisão poderia ter sido justificada para manter o apoio à Ucrânia e ajudar as empresas europeias a adaptarem-se às tarifas elevadas e voláteis dos EUA, mas foi amplamente interpretada como um sinal de fraqueza europeia”.Assim, tendo em conta que, por enquanto, “a relação transatlântica é, indiscutivelmente, a mais importante da economia global”, o facto de o debate continuar preso à questão da guerra tarifária é mau, prejudica a confiança.“As tarifas prejudicam a economia ao aumentarem diretamente os custos e ao criarem condições comerciais incertas que podem atrasar ou impedir os investimentos. Por conseguinte, é do interesse económico da UE estabilizar os níveis das tarifas e evitar a repetição da crise da Gronelândia.""A lição para a UE é que isto exige uma postura mais firme e uma maior prontidão para a retaliação do que a demonstrada no passado. A Casa Branca estará menos inclinada a repetir tais ações se acreditar que a coação económica encontrará uma resistência consistente”, afirma Niclas Poitiers.Para as economias de Europa e Portugal fica "difícil"Já durante esta nova fase dos ataques de Trump e com novas tarifas no horizonte, Paula Carvalho e Oriol Aspachs, respetivamente economista-chefe do BPI em Portugal e diretor de estudos para a economia espanhola no Caixabank, “a reconfiguração rápida e imprevisível da ordem geopolítica global não oferece tréguas e obriga a uma reavaliação constante da situação de cada economia”.No entender dos dois analistas, “a questão que continua a colocar-se é qual é o ponto de partida, quais são os pontos fortes e os pontos de apoio, e quais são as vulnerabilidades ou os aspetos que precisam de ser envolvidos para reforçar a resiliência”.“No frágil e incerto contexto internacional, o reforço deste último aspecto parece mais necessário do que nunca. A avaliação global da economia portuguesa é relativamente positiva, especialmente no que diz respeito às tendências recentes, mas ainda existem desafios significativos a ultrapassar para sustentar esta tendência a médio prazo”, acrescentamMas o mais certo de afirmar é que “nem tudo são rosas” porque “o contexto internacional é desfavorável”. “Os principais parceiros comerciais de Portugal apresentam um crescimento moderado, e a incerteza gerada pela reconfiguração da ordem geopolítica, com suas implicações em diversas áreas, também está a dificultar a atividade”, avisam Carvalho e Aspachs..Trump promete “grande retaliação” se a Europa vender ações e obrigações dos EUA .Trump recua nas tarifas a países europeus. Dinamarca recusa negociar com EUA sobre a Gronelândia