A China fixou para 2026 uma meta de crescimento entre 4,5% e 5%, a mais baixa desde 1991, dentro do esperado pelos analistas, embora especialistas apontem deceção com os estímulos económicos e medidas para reforçar o consumo.“As políticas, de modo geral, manter-se-ão inalteradas este ano. Veremos alguma flexibilização monetária adicional, mas pouco em termos de apoio orçamental. E, apesar de [as autoridades] afirmarem querer reequilibrar a economia em direção ao consumo, as medidas concretas nesse sentido continuam tímidas”, assegura Julian Evans-Pritchard, da consultora britânica Capital Economics, num relatório.O analista deteta “pouca urgência” no seio do Governo chinês para reanimar a procura interna, pelo que prevê que a segunda maior economia do mundo “continuará a enfrentar dificuldades devido ao excesso de capacidade [industrial] e à fraqueza da inflação durante algum tempo”.Ao inaugurar a sessão anual da Assembleia Popular Nacional (APN, legislativo), o principal evento político do ano na China, o primeiro-ministro, Li Qiang, renovou também uma meta de 4% para o défice, um teto de 2% para a inflação e um limite de 5,5% para o desemprego nas zonas urbanas, todos sem alterações face a 2025.Os objetivos hoje divulgados desenham “uma economia que entra numa fase de expansão mais lenta. (...) A sustentabilidade está a impor-se à velocidade como principal prioridade para o crescimento”, afirma Sarah Tan, da agência de ‘rating’ Moody’s Analytics, que acrescenta que uma meta menos ambiciosa também retira a Pequim pressão para adotar políticas agressivas de estímulo e lhe concede “maior flexibilidade”.Segundo dados oficiais, a segunda maior economia do mundo cumpriu o objetivo ao crescer 5% em 2025, embora especialistas continuem a apontar problemas como a fraca procura interna, os riscos de deflação, as tensões geopolíticas, uma crise imobiliária que ainda não atingiu o fundo ou a falta de confiança entre consumidores e setor privado.“As autoridades esperam que a inflação recupere ligeiramente este ano, mas não contam com um impulso deflacionista significativo. É improvável que façam tudo o que estiver ao seu alcance para a devolver aos 2%, depois do 0% registado no ano passado”, explica Evans-Pritchard.Na sua opinião, o limiar de sucesso que Pequim estabeleceu – devolver os preços a “níveis positivos” – é “bastante baixo”, mesmo tendo em conta que a recente crise no Médio Oriente poderá traduzir-se num aumento da inflação devido à subida dos custos energéticos.O relatório de ação governamental apresentado hoje por Li “não aponta para muitas medidas de estímulo capazes de impulsionar a procura interna”, realça.Tan aponta para iniciativas destinadas a incentivar o consumo das famílias no âmbito do plano quinquenal 2026-2030, que será aprovado na APN, nomeadamente o aumento das pensões e dos cuidados a idosos, bem como apoio ao emprego para licenciados e trabalhadores que migram de províncias menos desenvolvidas.O governante anunciou ainda reduções das taxas de juro e dos requisitos de reservas bancárias (RRR, percentagem de fundos que um banco não pode emprestar) no âmbito da política monetária este ano, embora a Capital Economics considere que o Banco Popular da China (BPC, banco central) se move “lentamente”, com as taxas apenas 10 pontos base abaixo do nível de há um ano.Evans-Pritchard antecipa cortes adicionais de 20 pontos base ao longo de 2026.O economista destaca também divergências entre o apoio orçamental ao consumo e ao investimento: no primeiro caso fala em “deceção” pela “falta de um impulso mais significativo”, reiterando que Pequim aposta em reforçar a oferta em vez da procura; já no segundo considera que as políticas favoráveis serão “substanciais”.“Parece que a maioria dos 4,4 biliões de yuan (cerca de 548 mil milhões de euros) previstos para emissões de obrigações especiais – destinadas a administrações locais e regionais – este ano continuará a ser utilizada em projetos de investimento”, acrescenta Evans-Pritchard.“Isto provavelmente não impedirá que o peso do investimento no PIB continue a diminuir este ano, dado o apetite cada vez menor das empresas privadas. Mas sugere que as autoridades ainda resistem às forças estruturais que pesam sobre o investimento”, conclui. .China sinaliza estímulos moderados e promete impulsionar a procura interna