E agora aos pais que não choram quando deixam os filhos na creche

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Caros pais que não choram quando abandonam os vossos filhos nas creches ao cuidado de desconhecidos, vocês são humanos? Dois anos. Estamos a falar de crianças de dois ou três anos. Crianças que ainda mal sabem pegar nos talheres, que limpam mal o rabo sujo de cocó, muitas delas ainda usam fraldas e nenhuma sabe dizer frigorífico. Crianças que ainda ontem saíram da cama de grades, meu Deus, e vão ser agora despejadas numa creche sem saberem porquê, sem terem feito mal nenhum para merecerem tamanho castigo.

Porque sim, elas vão sentir-se castigadas e é desse sentimento que vem todo o choro nestes primeiros dias. Castigadas e abandonadas. Acham justo? E vocês nem uma lágrima, nem um bocadinho de remorso, nem olham para trás. Faz parte da vida e do crescimento, dizem no caminho para carro sem disfarçar um sorriso descarado enquanto o vosso filho grita por socorro a espernear nos braços de uma qualquer educadora que ainda não lhe decorou o nome. Mas vocês já nem o ouvem, aconchegados por uma sensação de liberdade, de alívio e de dever cumprido. "Pronto, deste já me despachei deste."

Nada enganador, nada mais frio. Isso, caros pais que não choram, é egoísmo, é individualismo, é comodismo, é - atrevo-me a dizer - maldade. Sim, vocês que nem uma lágrima vertem enquanto os vossos filhos ficam horas seguidas rodeados por crianças aos gritos, cheiros estranhos, rotinas diferentes, adultos desconhecidos, têm o coração feito de quê? Não têm pesadelos sobre o que se passará ali? Quem os protegerá das crianças que mordem, quem dará atenção à cor do cocó, quem o irá agarrar quando ele tropeçar num degrau? Pensem: será que eles precisam desse choque tão cedo? As educadoras, por muito boas que sejam, não vão ter o tempo para os vossos filhos que eles merecem e precisam, não vão conseguir dedicar-se a eles como vocês, pais, se dedicam. Elas não sabem.

Elas não sabem que a cenourinha é às rodelas e não à tiras, não sabem que a menina dorme melhor com a cabeça nos pés e a janela nas costas, não sabem que a orelha esquerda do coelhinho de peluche não pode ser lavada ou ela estranha o cheiro, não sabem que ele só faz a sesta à segunda porque ao domingo deita-se tarde, não sabem que ele gosta de colo quando se levanta da sesta, não sabem que ele não gosta que se zanguem e não sabem que ele gosta da roupa entalada nas calças. Não sabem tanta coisa. E principalmente não sabem que o nosso filho é único, é o mais sensível, o mais esperto, o mais bonito, o mais criativo e não é apenas mais um dos ranhosos que andam naquela creche.

Mas vocês vão trabalhar como se nada fosse, sem vergonha nenhuma, sem lágrimas, sem lenços, sem telefonemas para a creche a todas as horas e sem ataques de ansiedade.

Caros pais que não choram, vocês pagam para deixar os vossos filhos num sítio com outras crianças para eles brincarem, fazerem desenhos, aprenderem coisas, desenvolverem competências e todas essas coisas chatas para poderem ir trabalhar. E nem uma lágrima. É para isto que têm filhos? Uma vergonha é o que vos digo.

Jurista

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