Uma geração pode ser insuficiente para haver mais mulheres nas tecnológicas

Em Portugal, quase metade das mulheres já sentiram discriminação no recrutamento. Na Europa, apenas 5% destas empresas são lideradas pelo género feminino.

Combater a falta de diversidade de género tornou-se uma das prioridades no mundo tecnológico na Europa nos últimos anos. Só que nada está a ser feito em Portugal: praticamente metade (49%) das mulheres que trabalham nesta área já sentiram discriminação quando tentavam subir na carreira e 46% já viveram este problema enquanto estavam a ser recrutadas, refere um estudo divulgado pela associação PWIT - Portuguese Women in Tech. No resto da Europa, o cenário não é muito melhor.

Sara Oliveira é uma exceção. "Apesar de nunca ter sentido, pessoalmente, qualquer forma de desigualdade, acho que este problema existe, sobretudo, em relação a algumas oportunidades. Este problema tem vindo a ser mitigado mas não sei se apenas uma geração vai ser suficiente para o resolver", lamenta a diretora de produto da DefinedCrowd, uma das raras tecnológicas fundada na Europa por uma mulher.

"As mulheres continuam a não criar empresas, a não ocupar lugares de topo nas empresas tecnológicas e a não angariar capital de risco. Estas conclusões merecem reflexão e exigem medidas concretas e urgentes. Não podemos continuar a aceitar que praticamente 50% da população não esteja envolvida na criação de empresas de base tecnológica", alerta Inês Santos Silva, cofundadora da PWIT.

As mulheres ocupam sobretudo funções de gestão, ciência de dados ou consultoria. Só que apenas 0,8% das inquiridas são investidoras em tecnologia. Apenas 1% das mulheres são fundadoras ou cofundadoras de empresas tecnológicas.

Isto acontece porque "vivemos numa sociedade muito patriarcal, em que a mulher, muito poucas vezes, é vista no papel de líder, e sente que não tem todas as ferramentas para começar algo novo. Além disso, quando se cria uma startup, é difícil escolher entre uma carreira e ter filhos. No mundo masculino, é mais fácil tomar uma decisão dessas", justifica Sara Oliveira.

Mesmo que o sexo feminino já represente 57% dos universitários dos cursos de ciências, tecnologias, engenharia e matemática, nas áreas mais tecnológicas, como Ciências da Computação, Engenharia da Computação ou Sistemas de Informação, as mulheres ainda são uma minoria dentro da sala de aula.

Nas empresas, 55% das funcionárias estão em departamentos com apenas duas ou menos mulheres por cada dez homens. Muitas sentem que têm de ser mais dedicadas do que os seus colegas homens por serem constantemente subestimadas nas suas funções, assinala o estudo elaborado em parceria com as consultoras Deloitte e Polar Insight.

E soluções?

Resolver um problema destes implica soluções que levam tempo a ter resultados. O fomento da formação de mulheres na área tecnológica e a promoção do reconhecimento do género feminino na tecnologia em Portugal são duas das soluções apontadas.

Encontrar exemplos também pode equilibrar a balança entre homens e mulheres. "Sempre foi muito interessante ter pessoas que me inspirassem a nível pessoal e profissional. Isso será uma das alavancas para começar a ver crianças e jovens a aceder a mais perfis de liderança", aponta a responsável de produto da DefinedCrowd. No curto prazo, mas com "menor impacto", a "criação de incentivos quer para as mulheres gerarem os seus próprios negócios quer para atrair investidores" também pode ajudar a lidar com este problema em Portugal, sustenta Inês Santos Silva.

E na Europa?

Em Portugal, o cenário não é tão grave como no resto da Europa, onde apenas 5% destas companhias são lideradas por mulheres e 92 em cada 100 dólares de investimento foram parar a empresas só com homens, revela um estudo divulgado nesta quinta-feira pela sociedade de capital de risco Atomico.

Isto acontece mesmo quando mais de três quartos dos inquiridos concordam que devem existir mais iniciativas para promover a igualdade e diversidade nas empresas tecnológicas. No último ano, no entanto, 52% das mulheres não sentiram qualquer mudança neste tipo de iniciativas.

"Estamos a solucionar o facto de as mulheres, pessoas de cor, pessoas com antecedentes socioeconómicos mais baixos e de várias origens educacionais serem excluídas do setor tecnológico. É uma enorme missão e utilizaremos todos os esforços do ecossistema para corrigi-lo", sinaliza Tom Wehmeier, sócio da Atomico e um dos autores deste estudo.

jornalista do Dinheiro Vivo

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