Proibição das máscaras irá pôr em risco 15 a 20 mil empregos

Indústria têxtil teme que outros países sigam a decisão alemã e austríaca de proibir o uso de máscaras comunitárias nos espaços públicos. França não proíbe as máscaras têxteis, mas desaconselha o uso das que filtram menos de 90%. Não há provas científicas que sustentem a mudança, lembram as empresas portuguesas.

São 15 a 20 mil os empregos da indústria têxtil e do vestuário que podem estar em risco, se a decisão dos governos alemão e austríaco de proibirem o uso de máscaras têxteis em espaços públicos se mantiver e for até alargada a outros países. A estimativa é do presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), Mário Jorge Machado, que fala numa "luta, difícil mas necessária, contra a desinformação e o preconceito". César Araújo, presidente da Associação do Vestuário (Anivec), fala em "populismos" e pede que o governo aproveite a presidência da União Europeia para questionar a Organização Mundial de Saúde; já a ministra da Saúde assume que não há da parte do Centro Europeu de Controlo de Doenças qualquer recomendação adicional sobre esta matéria.

O receio de que a proliferação das novas variantes do vírus SARS-CoV- 2 obrigue à revisão das medidas de prevenção da covid-19 levaram o governo a questionar a Direção-Geral de Saúde. Aos jornalistas, e após uma reunião com a taskforce coordenadora do plano de vacinação contra a covid-19, Marta Temido explicou: "Ontem [domingo] mesmo dirigimos uma questão à Direção-Geral da Saúde sobre essas medidas de saúde pública e em que medida podem elas precisar de ser adaptadas. Não há ainda recomendações adicionais, concretamente sobre a questão das máscaras ao nível do Centro Europeu de Controlo de Doenças e temos sempre alinhado as nossas posições com as recomendações internacionais. Estamos muito atentos e logo que haja alguma informação que coloque alguma necessidade de adaptação, fá-lo-emos".

Medidas "avulsas e sem parecer científico"

Uma posição que não chega para tranquilizar a indústria, que, há longos meses, tem nas máscaras a sua principal boia de salvação e teme perdê-la "sem qualquer parecer científico" a suportar este tipo de decisões. "Não faltam máscaras reutilizáveis em Portugal devidamente certificadas, de acordo com a norma EN 14683, ou seja, com as mesmas especificações técnicas dos dispositivos médicos, como as máscaras FFP2, garantindo uma capacidade de filtração acima dos 90%, por isso, não conseguimos entender estas medidas tomadas avulso e sem conhecimento científico", diz César Araújo.

Já Mário Jorge Machado lamenta que se queira promover os produtos descartáveis. "As máscaras sociais salvaram a economia. Foi graças a elas que pudemos pôr fim ao primeiro confinamento. E a grande maioria da população comprou as de nível 3, as que têm a capacidade de filtração mais baixa, acima dos 70%, mas que funcionaram perfeitamente. Os números dos contágios ao longo destes meses todos provam-no. Se agora as novas estirpes exigem uma proteção mais elevada, acima dos 90%, que isso não sirva para promover as máscaras cirúrgicas ou os respiradores, em detrimento das máscaras comunitárias de nível 2. Que garantem o mesmo nível de proteção da saúde, mas são ainda melhores porque são sustentáveis e reutilizáveis", diz o presidente da ATP.

Certificação sem marca visível na máscara

Mário Jorge Machado elogia a posição do governo francês, que optou por recomendar o uso das máscaras têxteis de filtragem mais elevada, proibindo só aquelas que são de fabrico caseiro. O erro parece estar no facto de, ao contrário das máscaras FFP2, que têm inscrita, de forma bem visível, a norma CE a que obedecem, as máscaras sociais não terem prova de certificação à vista. O selo 'Máscaras Covid-19 Aprovado' é impresso na brochura individual que acompanha cada máscara, com o respetivo número de aprovação, mas não está inscrito na própria peça. Braz Costa garante que o Citeve fez essa proposta ao grupo de trabalho que teve a seu cargo a definição das regras de certificação, mas que tal acabou por não vingar. "Se é preciso por-se uma etiqueta ou um carimbo que prove que se trata de produtos certificados e que cumprem os regulamentos, nós pomos, só têm de dizer que o querem", diz, por seu turno, César Araújo.

Sobre a decisão do governo alemão, de exigir o uso de máscaras cirúrgicas ou FFP2 em espaços públicos, Braz Costa, diretor-geral do Citeve admite que "compreende" a atitude. "A Alemanha não tem sector têxtil para defender. Não querendo máscaras comunitárias feitas em casa, sem qualquer controlo, proíbe-as todas. E como tem que importar e tem, é-lhe mais fácil importar máscaras com sistema de certificação CE", explica. Para este responsável, em Portugal, do ponto de vista do consumidor, não há razões de preocupação. "Não estamos a correr nenhum perigo de saúde pública, acredito que a ASAE está a fazer o seu trabalho, analisando tudo o que está a ser vendido", defende.

Investir em maior capacidade de filtração

À indústria, Braz Costa recomenda "que se prepare para a eventualidade dos níveis de proteção aumentarem, fazendo máscaras com capacidade de filtração acima dos 95%". Numa segunda fase, defende que as empresas "deem os passos necessários para obterem a marcação CE das suas máscaras, como equipamentos de proteção individual, de acordo com a norma EN 149, a mesma a que obedecem os equipamentos médicos.

Com uma máscara de nível 2 devidamente certificada e com uma eficiência de filtração de 96,6% após 35 lavagens, Filipe Prata assume-se preocupado com as proibições noutros países. Não porque exporte muito - 95% das suas vendas são em mercado nacional -, mas porque teme que a decisão venha a ser seguida pelo governo português. E há 10 meses que as máscaras asseguram o pagamento dos salários das mais de 60 pessoas que a Lagofra, a empresa fabril que detém a marca Daily Day, emprega. "Não despedimos ninguém e conseguimos manter o negócio com as máscaras. O que mais me preocupa é que haja aqui alguma falta de discernimento. Não se põe todo um sector a trabalhar para depois se deitar tudo ao lixo sem qualquer informação de que o paradigma técnico, da norma subjacente ao fabrico das máscaras, tenha mudado", diz Filipe Prata. O empresário reclama um "esclarecimento público" das autoridades políticas e de saúde de que as máscaras têxteis "são seguras". "As pessoas precisam de perceber que, lá por ser um material têxtil, uma máscara comunitária não é um artigo caseiro, é um produto industrial, assente em aprovações laboratoriais. Se isso não foi entendido, há muitos milhares de pessoas que podem acabar no fundo de desemprego", frisa.

Em sentido inverso está a posição de Luís Guimarães, da Polopique, para quem as máscaras FFP2 "são muito mais eficientes" do que as comunitárias. A empresa de Caldas de Vizela investiu fortemente em equipamentos industriais, automatizados, para produzir máscaras de tipo FFP2. E só as colocou à venda quando as conseguiu certificar como equipamentos de proteção individual. Apesar de toda a pressão que sofreu, inclusivamente da sua equipa comercial, para produzir e vender máscaras comunitárias. "Pessoalmente, tenho grandes dúvidas sobre a certificação das máscaras têxteis no passado. Nós decidimos que ou fazíamos isto à séria, ou não fazíamos, e, por isso estudamos o assunto a fundo e investimos nos equipamentos necessários". E dos "muitos milhões de máscaras" que fabricou e exportou, a esmagadora maioria foi, precisamente, para o mercado alemão.

Ilídia Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

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