Procura na emissão de dívida dava para financiar o ano inteiro

Após saída de lixo, houve um regresso em força à dívida portuguesa na primeira emissão de 2018. Estado financiou-se em 4000 milhões

Foi uma corrida à dívida portuguesa na primeira operação de financiamento do ano. A procura na emissão, assegurada por um conjunto de bancos, bateu recordes e permitiu a Portugal financiar-se em 4000 milhões de euros com um juro de 2,137% por títulos com um prazo superior a dez anos. No total, os investidores estavam dispostos a aplicar 18,85 mil milhões de euros nesta operação. Um montante que é superior aos 15 mil milhões de euros que Portugal quer ir buscar aos mercados, através de obrigações do Tesouro, no total do ano. Foi a operação mais concorrida dos últimos anos.

"Tão positivo como a taxa foi a forte procura", considerou Filipe Silva. O diretor da gestão de ativos do Banco Carregosa referiu que "Portugal é dos países com um risco não muito elevado que paga melhor a quem nos empresta dinheiro. Daí a procura ter sido muito superior à oferta". Já a Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) considerou, num comunicado, que "a transação é uma prova da melhoria da posição de Portugal nos mercados soberanos do euro".

A melhoria dos ratings da Standard & Poor"s e da Fitch, nos passados meses de setembro e dezembro, para níveis acima de lixo permitiram ao Tesouro atrair investidores mais conservadores, como bancos, fundos de pensões e seguradoras. Mais de metade da emissão foi absorvida por estas entidades, que tendem a deter a dívida por prazos mais longos, o que permite uma maior estabilidade no mercado, segundo dados da operação divulgados pelo IGCP.

Na emissão sindicada feita no início de 2016, os investidores mais conservadores e estáveis tiveram um peso de apenas de 35,4%. Já os fundos de cobertura de risco, que têm estratégias mais agressivas e de curto prazo e podem desestabilizar o mercado de dívida com as suas movimentações perderam importância no financiamento do Estado. Na operação de ontem ficaram com 5% da emissão; há um ano ficaram com 9% do montante colocado.

Juros encolhem para metade num ano

A última operação de financiamento a dez anos que o Tesouro tinha realizado foi em novembro, através de um leilão. A taxa tinha ficado em 1,939% para colocar 1,25 mil milhões de euros. Mas Filipe Silva realça que "a comparação com a anterior emissão a 10 anos serve de referência, mas não totalmente, porque a dívida emitida hoje [ontem] vence-se daqui a dez anos e dez meses. Dez meses fazem alguma diferença, o que também está refletido na taxa".

No início de 2017, Portugal também tinha recorrido a uma emissão sindicada a dez anos para arrancar o plano de financiamento. Na altura, pagou um juro de 4,227% para obter 3000 milhões. A taxa foi quase o dobro da alcançada ontem. Essa melhoria nos custos de financiamento começou a ser notada a partir de março do ano passado, com os dados do crescimento, do défice e a expectativa de que o rating iria subir a darem confiança ao mercado.

Após a emissão de obrigações do Tesouro, o Estado regressa ao mercado na quarta-feira para emitir dívida de curto prazo. Pretende garantir entre 1,5 mil milhões e 1,75 mil milhões em bilhetes do Tesouro.