Procura faz disparar preço das máscaras FFP2

Um pacote de 50 máscaras que custava, em média, 28 euros em janeiro, ronda, aos, os 40 euros, indica o KuantoKusta. Indústria têxtil está preocupada

Há uma corrida dos portugueses às máscaras de tipo FFP2, as chamadas "bico de pato". A procura, na última quinzena de janeiro, deste tipo de produtos aumentou na ordem dos 1300%, comparativamente à quinzena anterior e o preço médio aumentou mais de 40%. Dados do KuantoKusta, o maior comparador de produtos a nível nacional, que acredita que foram as recentes notícias sobre a obrigatoriedade do uso de máscaras cirúrgicas e de tipo FFP2 no espaço público, em países como Alemanha e Áustria, que levaram a esta situação. O facto de vários governantes, como António Costa e Marta Temido, serem vistos, nas últimas semanas, com máscaras FFP2 em vez das comunitárias têxteis que usavam, preocupa a indústria: "Claro que fico preocupado, é um mau aviso à navegação", diz Braz Costa, diretor-geral do Citeve.

Segundo o KuantoKusta, tem-se assistido a um aumento da procura de todo o tipo de materiais de proteção, mas a plataforma garante que "é clara a preferência" dos portugueses por máscaras de tipo FFP2. Correspondem a 87% das pesquisas , sendo os restantes quase 13% referentes à procura por máscaras cirurgicas. E, com isto, um pack de 50 unidades de máscaras FFP2, que custava em média 28 euros no dia 19 de janeiro, explica Sara Sá, estava, esta semana, a custar cerca de 40 euros, um agravamento de 42%.

Além de ser um comparador de preços, o KuantoKusta é, também, um marketplace onde os artigos podem ser comprados. Com o disparar da procura, a empresa reforçou o número de lojas que comercializam este tipo de máscara. "Apesar de algumas lojas terem sofrido quebras de stock estamos a conseguir dar resposta", garante Sara Sá. "No entanto, temos a indicação que o mercado teve dificuldades a garantir uma oferta na mesma medida da procura", acrescenta.

Diz o KuantoKusta que "esta corrida às máscaras" se assemelha bastante à procura sentida em março, logo após a confirmação dos primeiros casos de covid-19 em Portugal. "A grande diferença é que o mercado não estava de todo preparado o que levou a uma quebra de stock generalizada e a uma elevada especulação de preços: um pack de 50 máscaras cirúrgicas chegou a custar seis vezes mais do que o seu preço habitual", explica Sara Sá, sublinhando que, na altura, as máscaras do tipo cirúrgico eram mais procuradas (90% das buscas). O que não admira, atendendo que não havia outras. A norma do Infarmed que definiu os critérios e requisitos a cumprir (em termos de conceção, desempenho e usabilidade) pelas máscaras de tecido, as chamadas máscaras comunitárias, data de 14 de abril. E as primeiras máscaras deste tipo, reutilizáveis, foram certificadas a 22 de abril, chegando ao mercado poucos dias depois.

Máscaras têxteis
Neste momento, a procura por máscaras comunitárias cresceu na ordem dos 800%, na segunda quinzena de janeiro, face à quinzena anterior, indica o KuantoKusta, mas, no universo global das pesquisas por máscaras, as de tecido "representam menos de 1%" da procura. As de nível 2, que têm filtração superior a 90% e, por isso, equiparadas às máscaras cirúrgicas e FFP2, são "sem dúvida as mais procuradas", com 87% das buscas por produtos reutilizáveis, refere, ainda, Sara Sá.

O Citeve, um dos três laboratórios com selo covid-19 a atestar as certificações das máscaras comunitárias, e, sem dúvida, o que mais produtos certificou - mais de 3000 -, não notou, qualquer aumento de pedidos de certificação nas últimas semanas, mas registou uma "dinâmica maior" das empresas interessadas em desenvolver máscaras de nível 2. "Temos muitos pedidos de esclarecimento por parte da empresas que têm máscaras de nível 3 (com capacidade de filtração acima dos 70%) certificadas e que querem ajuda para elevar o patamar e desenvolverem produtos de nível 2", diz Braz Costa. Recorde-se que a Associação Têxtil e Vestuário de Portugal já estimou que uma eventual proibição das máscaras comunitárias, face às novas variantes do SARS-CoV-2, põe em causa 15 a 20 mil postos de trabalho na indústria.

Esta semana, soube-se que, inquirido pela Comissão Europeia, o Centro Europeu de Controlo de Doenças "não apoia o uso de máscaras de proteção FFP2" pelo grande público. No mesmo dia, o primeiro-ministro e a ministra da Saúde apareceram ambos com este tipo de artigo, numa visita a um centro de saúde, em Lisboa. O gabinete de António Costa explicou ao DN/DVque este máscara "lhe foi fornecida para ser usada exclusivamente naquele contexto de uma visita a uma instituição de prestação de cuidados de saúde". Da parte do gabinete de Marta Temido não foi possível obter nenhum comentário, sobre uma eventual mudança nas recomendações sobre o tipo de máscaras a usar pela população em geral, sendo que a ministra tem aparecido com as FFP2, mesmo fora de contexto hospitalar.

Ilídia Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

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