Portugal com a mais baixa representação em 14 anos na feira de calçado de Milão

São 69 expositores portugueses na maior feira mundial do setor, que decorre neste ano sem visitantes da China por causa do coronavírus. A quebra nas exportações e a maior aposta no marketing digital ajuda a explicá-lo.

Arranca neste domingo mais uma edição da Micam, a maior feira de calçado do mundo, onde são esperados 1400 expositores, de 30 países. A grande incógnita é como irá a ameaça do coronavírus afetar o certame. Sendo certo que a Micam não conta, habitualmente, com expositores asiáticos, este é, no entanto, um espaço de encontro com compradores de todas as geografias.

A própria organização da feira admite que neste ano não deverá haver visitantes chineses no certame, embora o atribua à proximidade de datas com as comemorações do Ano Novo Chinês. Mas o cancelamento de voos de e para a China por parte da maioria das companhias aéreas por causa do coronavírus não será, obviamente, alheio a este facto. A preocupação dos expositores com o tema levou mesmo a Micam a emitir um comunicado, no início do mês, a dar conta de que o certame iria realizar-se como previsto e que, para assegurar a segurança de visitantes e expositores, iriam ser tomadas "as medidas adicionais preventivas recomendadas pelas autoridades de saúde".

Contactada pelo DN/Dinheiro Vivo, a organização da feira explicou que só emitiu este comunicado por causa do "excessivo alarmismo criado pelos media" em relação ao coronavírus. As precauções adicionais referidas contemplam a distribuição de desinfetantes no recinto da feira. Quanto ao número de visitantes asiáticos, a Micam desvaloriza a sua ausência, adiantando que habitualmente rondam os 500 num universo de mais de 54 mil pessoas.

Do lado dos empresários, o clima é de tranquilidade. E há até quem brinque com o tema. À chegada ao aeroporto de Malpensa, em Milão, todos foram surpreendidos por um controlo de saúde, com a monitorização da temperatura corporal. "Olha se eu não tivesse vindo a arrefecer a testa com gelo", ouviu-se, em jeito de brincadeira. E há até quem admita que a desgraça de uns pode ser o benefício de outros. "Com o coronavírus, o mercado americano terá mais resistência em ir à China fazer as coleções porque se recusará a viajar para lá. Isto pode abrir-nos algumas portas", diz um empresário ouvido pelo Dinheiro Vivo. Outros pensarão o mesmo, mas não se atrevem a verbalizá-lo, talvez pensando na recente polémica em que a ministra da Agricultura se viu recentemente envolvida precisamente por dizer o mesmo.

A associação do calçado, a APICCAPS, fala que a questão gera preocupação. "É um tema que acrescenta incerteza ao nosso negócio e todas as incertezas são prejudiciais. Se isso vai levar a uma redução ou a um aumento das exportações, veremos. E cá estamos para lidar com isso", diz o diretor-geral. João Maia admite que a indústria portuguesa está, por natureza, mais bem preparada do que alguns dos seus concorrentes para responder "de uma forma flexível às solicitações do mercado", mas reconhece que ninguém consegue, para já, antecipar o que se irá passar.

Menos expositores portugueses

Portugal faz-se representar nesta 89.ª edição da Micam com 69 expositores, a que se somam mais dois de malas e carteiras, na Mipel, o certame de artigos de pele, que decorre em simultâneo. Esta é a participação nacional mais baixa em Milão, nos últimos 14 anos, equivalente à edição de março de 2006, altura em que Portugal se fez representar por 69 expositores também. Há um ano eram 89, há dois eram 101. Números da própria Micam, e que incluem as empresas que participam a título individual, sem qualquer apoio da APICCAPS.

O recorde é de 106 expositores, obtido em setembro de 2016 e em fevereiro do ano seguinte, bem longe dos 13 participantes registados no início da década. O facto de 2017 ter sido o último ano de crescimento das exportações de calçado terá, com certeza, algo que ver com o assunto. Em 2018 as exportações deslizaram 2,96%, mas em 2019 a quebra já foi de 5,7%. No conjunto dos dois anos, o setor exportou menos 165 milhões de euros no total.

A associação tem vindo a lembrar que a economia é feita de ciclos e que "ninguém cresce eternamente", e desdramatiza a redução no número de presenças na Micam. "Não se trata de uma desmobilização [das empresas], mas de uma mudança na tipologia de investimento em matéria de promoção comercial externa", diz o diretor de comunicação da APICCAPS.

Paulo Gonçalves sublinha que, a par do plano de promoção estruturado para este ano e que prevê a participação de 180 empresas em certames profissionais em todo o mundo, a associação tem vindo a "diversificar a aposta" em matéria de valorização da oferta. "Em 2019 duplicamos os investimentos nos domínios do marketing digital e da produção de conteúdos, que ascendem já a dois milhões no total. E, embora estejamos apenas em fevereiro, os valores que temos previstos para esta nova tipologia de investimentos estão já esgotados", garante.

Em causa estão 2,5 milhões de euros que a APICCAPS admite poder vir a reforçar. "Temos já mais de 70 empresas com investimentos previstos (ou em execução) nestes domínios. E, no total, entre a participação em certames no exterior e na valorização da oferta, investiremos cerca de dez milhões de euros em promoção externa neste ano", reforça Paulo Gonçalves ao DN/Dinheiro Vivo. E não falta interesse dos industriais, assegura. "No habitual inquérito que efetuamos, no final do ano, às empresas, 92% manifestaram interesse em participar em ações promocionais do setor em 2020", diz.

Há muitas empresas que, com menos dinheiro disponível, estão a procurar outras formas de chegar diretamente aos seus clientes. "A Micam é uma feira que fica muito, muito cara. É mais fácil pegar nesse dinheiro e pôr os meus agentes a visitar cliente a cliente, nos diversos países, e fazer uma abordagem muito mais direcionada", admitiu o representante de uma das marcas habituais em Milão e que neste ano não se faz representar.

Quem também decidiu não marcar presença na feira foi o ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, que, ao contrário do que estava previsto, será substituído amanhã pelo secretário de Estado adjunto e da Economia, João Neves.

A jornalista viajou a Milão a convite da Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos (APICCAPS)

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