Pedro Queiroz Pereira deixa império de mil milhões

Empresário tinha uma das maiores fortunas da bolsa portuguesa. No ano passado tomou medidas para salvaguardar património das três filhas.
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Pedro Queiroz Pereira fez fortuna no negócio dos cimentos e foi um dos impulsionadores do setor da pasta de papel. Construiu uma fortuna que vale mais de mil milhões de euros. Era o quinto homem mais rico de Portugal, segundo a Forbes.

Morreu este sábado, aos 69 anos, por volta da meia-noite, no interior do seu iate de luxo, que estava atracado no porto de Ibiza. Terá caído nas escadas da embarcação. As autoridades espanholas abriram uma investigação à morte do magnata português, apesar das primeiras averiguações dos agentes apontarem para que se tenha tratado de um acidente fatal, relatou este domingo o Diario de Ibiza. O empresário terá sofrido um "ataque cardíaco fulminante", segundo o Expresso.

A investigação deverá atrasar a trasladação do corpo do empresário para Portugal.

O Presidente da República lamentou “o prematuro desaparecimento desse grande industrial português”.

Eduardo Catroga, ex-ministro das Finanças que conduziu o concurso de privatização da cimenteira Secil, lembrou o empresário "muito dedicado à economia portuguesa". Carlos Tavares, antigo ministro da Economia que avançou com a privatização da Portucel, atual Navigator, recordou "a forma combativa, independente e leal" com que o industrial "conduziu o seu papel de empresário".

O presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, Bruno Bobone, destacou que a morte de Queiroz Pereira é "uma grande perda para o país".

O seu ex-rival na privatização da Portucel, Paulo Fernandes, líder e um dos acionistas principais da Cofina e da Altri, apontou que Queiroz Pereira "soube sempre criar valor".

Queiroz Pereira fez crescer um grupo que exporta para dezenas de países e emprega mais de seis mil pessoas.

A Navigator, ex-Portucel, é a uma das maiores empresas europeias do setor da pasta e papel e também uma das maiores exportadoras nacionais. A empresa é a sexta maior cotada portuguesa, com um valor bolsista de 3,6 mil milhões de euros. A Semapa, que detém a Secil, também integra o principal índice acionista lisboeta, o PSI20. Tem uma capitalização bolsista de 1,6 mil milhões de euros.

No ano passado, Pedro Queiroz Pereira tinha já preparado a sucessão no seu grupo empresarial, tal como tinham também feito Américo Amorim e Belmiro Azevedo. Segundo o Jornal Económico, criou um fundo privado fechado subscrito apenas pelas três filhas (Filipa, Mafalda e Lua) para garantir que o grupo não será desmembrado e continuará nas mãos da família.

Mas optou por escolher gestores profissionais e de fora da família para fazer crescer as empresas. A liderança executiva da Semapa é assumida por João Castello Branco desde 2015. Na Navigator (a antiga Portucel) a presidência executiva foi confiada a Diogo da Silveira.

Líder de um gigante industrial

A Semapa é o porta-aviões dos negócios da família Queiroz Pereira, que detém mais de 70% dessa cotada que está no principal índice da bolsa portuguesa. Aos valores da passada sexta-feira, a participação está avaliada em mais de mil milhões de euros, uma das posições mais valiosas no mercado acionista nacional.

Naquela holding estão concentrados os três negócios que explicam a fortuna de Queiroz Pereira. A Semapa detém 69,4% da Navigator (a antiga Portucel), praticamente 100% da cimenteira Secil e do Grupo ETSA, que opera no segmento ambiental

Em 2017, a Semapa apresentou vendas de mais de 2.160 milhões de euros e lucrou 124 milhões. É uma das grandes exportadoras portuguesas, com as vendas no exterior a superarem 1.600 milhões de euros. “Investiu e reinvestiu como poucos e multiplicou por muito o que herdou de outro grande industrial português que fora seu pai e, antes deste, seu avô”, escreveu o advogado Jorge Bleck num texto publicado no Expresso.

E na mensagem aos acionistas, Pedro Queiroz Pereira prometia continuar a investir forte em Portugal: “2017 voltou a ser um ano forte em termos de investimento (…).Estes investimentos irão prolongar-se em 2018 e envolvem um montante total de cerca de 205 milhões de euros, dos quais 70 milhões já foram despendidos em 2017”. Os principais destinos desses investimentos são a fábrica de tissue em Cacia e a ampliação do Complexo Industrial da Figueira da Foz.

Nesse documento fez ainda menção ao que considerava ser os “impactos significativos no custo da madeira suportado pela empresa” devido à nova legislação que pretende travar a expansão do eucalipto. O grupo chegou mesmo a ameaçar comprar mais madeira a Espanha e menos a Portugal.

"Vontade de produzir"

Quem conhecia Pedro Queiroz Pereira apontava que o empresário tinha como investir para o longo prazo. “Tem um prazer incrível em produzir” coisas palpáveis, dizia um antigo consultor do grupo Secil num perfil sobre o empresário.

Também Jorge Bleck considera que “só uma coisa o entusiasmava profissionalmente: desenvolver o país que amava. Tivesse ele nascido num país mais acolhedor à iniciativa privada e teria ido ainda mais longe do que aqui foi”.

Para fazer crescer o seu projeto industrial, Pedro Queiroz Pereira entrou em grandes guerras empresarias. Em 2000 lançou uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) sobre a Cimpor. Acabaria por sair derrotado, apesar de ter considerado na altura que se não tivesse entrado nessa corrida a cimenteira acabaria nas mãos de estrangeiros. Uma década depois esse receio acabaria por se concretizar, com a Cimpor a passar para as mãos dos brasileiros da CSN e a perder dimensão.

Falhado o reforço na indústria de cimentos onde já detinha a Secil, Queiroz Pereira apostou forte no setor da pasta de papel. Conseguiu construir uma posição de referência na antiga Portucel, que se tornou a joia da coroa do grupo. Gerou mais de 75% das receitas da Semapa.

Guerra pelo império

Além da tarefa de multiplicar a dimensão industrial do seu grupo, Pedro Queiroz Pereira esteve ainda envolvido em disputas pelo controlo das suas próprias empresas. Após décadas de aliança com o Grupo Espírito Santo, veio o conflito que saltou para a praça pública em 2013.

Pedro Queiroz Pereira desempenhou um papel-chave no processo da queda do Grupo Espírito Santo (GES) e de Ricardo Salgado.

O gestor não gostou quando Salgado tentou tomar o controlo da ‘sua’ Semapa e criou uma equipa para investigar as contas do GES. Os grupos tinham participações cruzadas. A irmã de Pedro Queiroz Pereira, Maude, terá recebido cinco milhões de euros do GES para vender as suas posições na Semapa. Queiroz Pereira denunciou a situação do GES ao Banco de Portugal em outubro de 2013.

Numa comissão de inquérito sobre o caso do Grupo Espírito Santo em 2014, Pedro Queiroz Pereira admitiu que existia tensão com Ricardo Salgado. Acusava o banqueiro de se ter aliado a uma das suas irmãs para lhe retirar o controlo do grupo industrial.

Ficaram célebres algumas frases proferidas por Queiroz Pereira naquela comissão de inquérito como: “o Dr. Ricardo Salgado tem um problema: não lida maravilhosamente com a verdade”. Ou ainda: "as irmãs de Ricardo Salgado ficam à noite em casa a fazer bolos para vender em restaurantes e ele nunca se preocupou em defendê-las".

A 3 de agosto de 2014 o BES foi alvo de uma medida de resolução. A guerra terminou assim com o grupo do banqueiro destruído e com Pedro Queiroz Pereira a chegar com as irmãs para ficar com o controlo absoluto da Semapa.

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