Nova vaga não traz ruturas, mas aumenta horas extra nas empresas

O aumento de infeções e do absentismo laboral afeta os pequenos negócios. Mas falhas são pontuais em grandes empresas e setores essenciais do país, que não dão conta de ruturas. A falta de pessoal, dizem, já lá estava e piorou. Está a ser colmatada com mais trabalho suplementar. Sindicatos falam em sobrecarga.

Voos cancelados, faltas nas prateleiras de supermercados e pequenos negócios com maiores dificuldades em manter porta aberta são os sinais que, nas últimas semanas, apontam para a subida do absentismo laboral devido ao aumento de casos de covid-19, medidas de isolamento e fecho de escolas. Mas, nos principais setores movidos a trabalho presencial, muitos essenciais, não há notícia de ruturas na atividade.

As horas extra, em muito casos, têm sido solução. E não é de hoje, segundo os sindicatos, que apontam falhas persistentes de pessoal anteriores à pandemia, e que pressionam atividades como transportes, comércio, grande distribuição ou serviços sociais. "Quem lá está tem de se desdobrar para conseguir dar vazão", diz Filipa Costa, presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Serviços e Escritórios de Portugal (CESP).

Com a subida consistente de infeções, Portugal registava ontem mais de 254 mil casos ativos e mais de 214 mil contactos em vigilância. E há simulações da última reunião de avaliação da pandemia no Infarmed a apontar para que até 12% da população fique em isolamento nas próximas semanas.

Esta percentagem poderá ser bastante diminuída com as novas regras da Direção-Geral de Saúde (DGS) para as quarentenas, que aliviarão também empresas de atividade presencial. Nos locais de trabalho, já só será considerado contacto de risco quem coabite com outro trabalhador infetado, e o isolamento para casos menos graves desce para sete dias. As escolas também reabrem segunda-feira, libertando pais que ficaram em casa com menores.

Transportes afetados

A aviação é um dos setores onde o absentismo de pessoal devido à covid-19 tem sido mais visível, originando na TAP o cancelamento de dezenas de voos nos últimos dias. O sindicato que representa tripulantes, o SNPVAC, veio na última semana apelar à reposição de horários a 100% na empresa para superar baixas nas equipas. Ao Dinheiro Vivo, a transportadora responde apenas que tem vindo "a ajustar a sua operação para fazer face a um pico de absentismo das tripulações, cuja disponibilidade está a ser afetada pela nova variante do coronavírus".

No transporte público, CP e Carris estão entre as empresas que têm sofrido faltas de pessoal, mas asseguram que não estão postas em causa as operações.

"As ausências de trabalhadores, nas diversa situações associadas à covid-19, são ligeiramente inferiores a 8% dos trabalhadores, não tendo, até à data, sido traduzidas em redução do serviço público", refere a Carris, que diz estar a recorrer a horas extra para manter serviço. "Neste momento, alguns ajustes foram feitos com recurso ao trabalho suplementar", indica.

Apesar destes números, e já depois da resposta ao Dinheiro Vivo, a empresa anunciou que pretende reduzir a oferta de serviços devido aos casos positivos de covid-19 entre colaboradores e ao prolongamento da medida de teletrabalho obrigatório até 14 de janeiro.

A CP também avança números. No início desta última semana, a 3 de janeiro, tinha 36 trabalhadores infetados e outros 42 em isolamento num universo de cerca de dois mil que asseguram a operação e realização de comboios (no total, emprega mais de 3750).

O impacto, até aqui, terá sido reduzido. Nas duas últimas semanas de dezembro, a empresa "suprimiu 21 comboios e encerrou três bilheteiras durante um dia e duas bilheteiras durante dois dias não consecutivos". O número de serviços suprimidos compara com 1350 comboios diários em serviço na CP em dias úteis (830 aos fins de semana e feriados).

Por outro lado, a CP diz estar a apostar na testagem para quebrar cadeias de contágio em ambiente laboral. "Neste âmbito, foram já efetuados entre os dias 27 de dezembro de 2021 e o dia 3 de janeiro de 2022, cerca de 600 testes rápidos (antigénio)", refere.

A Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações (FECTRANS) dá conta também de um impacto reduzido nos serviços de transportes. "Admitimos que, aqui ou acolá, possa haver algum aumento devido a alguma situação de contágios que retirem trabalhadores do ativo. Mas não nos parece que estejam a acontecer vagas muito grandes", diz José Manuel Oliveira, coordenador.

De resto, o dirigente sindical afirma que o expediente do trabalho suplementar é o que sustém muita da atividade nos transportes. "Neste setor, mesmo numa situação normal, se não recorrer a horas extra não funciona. Há já falta de trabalhadores mesmo sem pandemia, é quase uma situação estrutural".

Impacto nas prateleiras

Mas haverá, ainda assim, "situações complicadas" a ocorrer no transporte de mercadorias. "As falhas de motoristas estão a levar por vezes a dificuldades de manter os compromissos", diz João Vieira Lopes, presidente da Confederação de Comércio e Serviços (CCP).

O dirigente da CCP aponta agora dificuldades, sobretudo, ao pequeno comércio, que depende de poucos para manter porta aberta. Mas o grande comércio não passa incólume. "Se formos neste momento aos supermercados, o abastecimento da prateleira por vezes tem falhas porque não há pessoas suficientes para ir buscar os produtos ao armazém".

Segundo Vieira Lopes, o absentismo sente-se mais agora porque se conjuga com dificuldades anteriores em reter e atrair pessoal em várias atividades. E também porque, nomeadamente, há um ano, muitas atividades enfrentavam horários reduzidos e encerramentos que "camuflaram" o efeito da ida de trabalhadores para casa.

As maiores subidas homólogas no absentismo desde a chegada da pandemia ocorreram no segundo trimestre de 2020 (com mais de um milhão de trabalhadores em casa, segundo o INE) e no primeiro trimestre de 2021 (635 mil), períodos de estado de emergência e de acesso massivo ou facilitado ao lay-off simplificado. As reduções e suspensões de horários justificaram em grande medida o aumento de ausentes.

Sobretudo, no comércio, mas também no setor social, "há muitos trabalhadores que estão a ser chamados para fazer mais horas para colmatar", refere Filipa Costa, do CESP. "Já há muito desgaste físico e psicológico", defende. E o problema não é de hoje. "A falta de pessoal já existia. Por essa razão é que empresas como Pingo Doce, Continente, FNAC fizeram a implementação do banco de horas. Claro que com a pandemia ficou mais visível".

Na grande distribuição e supermercados, não há dificuldades à vista, dizem Sonae MC e o Pingo Doce. "As ausências dos colaboradores que se encontram em isolamento não estão a comprometer as operações", refere a cadeia do grupo Jerónimo Martins, que está a reforçar a testagem de trabalhadores - mais de sete mil testes por mês - e a disponibilizar-lhes máscaras com maior capacidade de filtragem.

Na Sonae, a resposta tem passado por "adequar - e sempre que necessário a reforçar - a composição e dimensionamento das equipas que suportam as nossas operações de loja e logística".

Indústria recolhe dados

Noutras áreas de serviços essenciais, a EDP, que mantém 70% do pessoal em teletrabalho, assegura que "não se verificam, atualmente, quebras de produtividade com impacto nos serviços essenciais". E, nas águas, o grupo Indaqua diz também que não há falhas, embora haja casos pontuais de trabalhadores ausentes. "No conjunto de todas as operações, que envolvem 550 trabalhadores, não é significativo, à data, o número de colaboradores em isolamento devido à pandemia", informa.

Já a indústria não poderá dizer o mesmo à partida, segundo a Associação Empresarial de Portugal (AEP). O presidente, Luís Miguel Ribeiro, considera que "o impacto que a atual vaga de pandemia está a ter na gestão dos recursos humanos é grande". Mas, para já, a AEP ainda não tem dados. Está a recolhê-los até ao final deste mês junto dos associados. Em todo o caso, a mudança de regras por parte da DGS já será uma ajuda. "Encaramos de forma positiva as recentes alterações das normas sobre isolamento e rastreio de contactos, que certamente se irão traduzir numa redução desse absentismo", refere.

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