Natal mais caro e com menos oferta. Preço das matérias-primas não recua tão cedo

É um dos efeitos da pandemia: paragem na extração das matérias-primas levou a diminuição de stocks e subida dos preços. Escalada poderá prolongar-se mais uns meses. Bens de consumo devem acompanhar subida.

A subida dos preços dos combustíveis nas últimas semanas tem gerado uma grande dor de cabeça para muitas famílias e empresas. Resultado, em parte, da subida da cotação do petróleo nos mercados internacionais, é apenas a ponta de um novelo muito maior. É que nem só o ouro negro tem estado a escalar. A cotação dos metais industriais tem seguido em alta, impulsionada pelos receios de que a crise energética penalize a produção quando há pouco stock; o preço do açúcar tem estado acima dos níveis pré-pandémicos e o algodão registou máximos de mais de dez anos. Só para dar alguns exemplos. A indústria paga mais para ter matéria-prima para produzir e o consumidor está perante um cenário potencial de menos oferta e de preços dos bens mais caros. A escassez de algumas matérias-primas pode perdurar até meados do próximo ano, admitem os analistas. E haverá algumas que podem continuar com preços altos por mais tempo, devido aos planos de recuperação que a maioria das economias desenvolvidas tem em curso. Mas vamos por partes.

A subida dos preços de muitas matérias-primas começou por altura da primavera de 2020, quando a Europa e os EUA confinaram para tentar travar os efeitos da pandemia de covid-19. "A paralisação das fábricas e de algumas indústrias extrativas determinou a redução da produção e dos stocks de matérias-primas a nível mundial. Todavia, nessa altura, a China havia já controlado a pandemia e a sua economia regressava gradualmente à normalidade, o que impulsionou o consumo de matérias-primas", diz Paulo Rosa, economista sénior do Banco Carregosa.

A pouca oferta que existia então não era suficiente para responder à procura da segunda maior economia do mundo e, por isso, os preços subiram. "A paralisação de grande parte da economia na primavera do ano passado resultou na diminuição da produção e dos stocks de matérias-primas. Algumas indústrias extrativas diminuíram a sua produção, como a petrolífera, para responderem às fortes quedas dos preços das matérias-primas nas primeiras semanas e meses do confinamento global na primavera do ano passado. Todavia, a recuperação económica não tem sido acompanhada pelo regresso da produção aos níveis pré-covid. Em suma, assistimos a um desequilíbrio entre a procura e a oferta de matérias-primas", sintetiza o economista.

O cobre, um dos principais metais industriais e que reflete "satisfatoriamente a evolução da economia", começou a recuperar no início de abril de 2020 e em julho já cotava nos níveis pré-pandémicos. A descoberta das vacinas em novembro último e a retoma económica à escala global que começou nesta primavera empurraram esse metal "para valores históricos acima do máximo anterior de 2011". Mas não são casos únicos.

O açúcar duplicou de preço nos últimos 12 meses e está 30% acima dos níveis pré-covid. O algodão valorizou mais de 100% no último ano e está nos níveis de julho de 2011. "As dificuldades nas cadeias de abastecimento e a subida dos custos de transportes, contentores marítimos e do preço dos combustíveis tem, em parte, penalizado as encomendas e atrasado a entrega das matérias-primas essenciais à produção nas fábricas e, consequentemente, impulsionado os preços".

Preços mais altos

Em pleno outono e a caminho do inverno, os preços da energia vão continuar a ser uma dor de cabeça para as famílias e empresas. Henrique Tomé, analista XTB, admite que "os preços das matérias-primas energéticas poderão estar expostas a períodos de maior volatilidade durante as próximas semanas e meses", devido à aproximação dos dias frios que tendem "a provocar um aumento dos preços das matérias-primas, como o petróleo e o gás natural, mais procurados nestas alturas".

Mas não só. "O inverno que se avizinha e se espera rigoroso, espelhado num consequente aumento do consumo de energia, e a aproximação do Natal, um período de significativo consumo, possivelmente irão intensificar a escassez de alguns produtos e bens. O aumento da procura tenderá a impulsionar os preços", acrescenta Paulo Rosa.

A potencial subida dos preços dos produtos deverá assim manter-se, sendo transversal a quase todas as áreas. A Unilever, que tem marcas como Dove, Cif e Skip, aumentou os preços em mais de 4% no último trimestre, a maior subida desde 2012, e assumiu que a subida dos preços vai manter-se no próximo ano, de acordo com a agência de informação Bloomberg. Sinal idêntico foi já dado por empresas como a Nestlé, Procter & Gamble Co. e Danone, segundo a mesma fonte. Algo que se deve ao facto de as matérias-primas, energia, transporte e embalamento estarem mais caros.

"Se as margens dos produtores começarem a ser reduzidas de forma significativa, os produtores poderão ser obrigados a ajustar os preços dos produtos finais e o consumidor terá de pagar esses custos acrescidos motivado pelo aumento das matérias-primas", admite Henrique Tomé.

Efeito prolongado

Fernando Alexandre, professor da Universidade do Minho e coordenador do estudo "Do made in ao created in: um novo paradigma para a economia portuguesa", apresentado nesta semana, admite que o que se está a passar com as matérias-primas tem uma parte que é "transitória", e reflete a travagem na extração no início da pandemia e a reabertura das economias. A somar a isso é necessário ter em conta o facto de as cadeias de distribuição terem sido alvo de uma disrupção. "Foram perturbadas com a pandemia e agora estão a encontrar dificuldades para se otimizarem", diz. Estas questões, aponta, devem estar resolvidas dentro de alguns meses.

Mas há, contudo, questões que podem ser mais duradouras. "Há um outro efeito mais permanente que vislumbro, o dos enormes planos de investimento e recuperação" das economias, levados a cabo tanto na Europa como nas restantes grandes economias, "para fazer face às transições climáticas", o que vai levar a uma enorme procura por alguns tipos de matérias-primas. A madeira vai ser importante para as construções mais eficientes, além da aposta nas energias renováveis que "consomem muito mais metais, do que consumiam as fontes de energia anteriores. A ferrovia consome imensos metais".

O professor universitário defende que não tem um modelo, apenas está a observar as tendências económicas. "Este boom de investimento, num contexto de alteração estrutural, em que temos um grande aumento de procura de metais leva a uma alteração muito grande e em grande volume - porque os países estão todos a fazer isto. Na procura de determinadas matérias-primas isso vai impactar no preço e isso, acho que vai ser duradouro, e vai passar para os preços. Vai ser para as empresas, mas elas vão ter de passar para o preço final, para o consumidor, e é o que vai acontecer também no caso dos outros países", remata.

Ana Laranjeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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