"Moratórias terão impacto menor do que previsto. A CGD já teve 2500 pedidos para reestruturar crédito de famílias"

CEO da Caixa Geral de Depósitos diz-se "mais otimista do que há um ano". Ao DN, assegura que a sustentabilidade é uma arma para dar a volta à crise.

A sustentabilidade é uma arma para voltar rápido à normalidade?
A sustentabilidade é uma das armas para o regresso à normalidade, mas não pode ser só um regresso ao que tínhamos em 2019. Temos de ter maior exigência em termos de sustentabilidade, não pode ser só uma questão de retórica, tem de ser com casos muito concretos. No mês passado, a CGD já emitiu dívida sustentável , ou seja, quem adquiriu a dívida fê-lo a preços mais baixos também porque tinha um determinado portfólio a que estava adstrito, com determinado compromisso para esses fundos. A Caixa tem um rating para as empresas, para além do tradicional financeiro que todos os bancos têm. É um rating ambiental, de governance e social que vai complementar o financeiro, não de forma a penalizar as empresas, mas para dizer às empresas como estão classificadas e como podem evoluir. A sustentabilidade faz parte de alguma nova normalidade, que tem de ter pilares mais claros. O desafio é passar da conversa ao concreto.

A banca está preparada com auditores para contrariar o greenwashing no acesso ao crédito?
Toda a sustentabilidade, em termos de report, é indispensável para podermos distinguir as coisas e progressos concretos. O report e os auditores são fundamentais. A Caixa tem feito o seu report anual e sempre auditado. Agora, o nosso desafio é também com as grandes empresas, muitas têm uma pegada ambiental pesada, mas é também como conseguimos fazer isto com toda a sociedade, no fundo com as 95% de PME que temos, muitos empresários em nome individual e famílias. O desafio é para as grandes empresas, mas também para as outras entidades que ainda não reportam qualquer tipo de estratégia ou progresso em termos ambientais.

É importante falar também nas moratórias. Está tão otimista quanto o Banco de Portugal? A banca não teme que o fim das moratórias se torne num problema maior?
Estamos mais otimistas do que há um ano. As projeções económicas são claramente mais positivas. Temos vindo a acompanhar, a Caixa já recebeu mais de 2500 pedidos de reestruturação de créditos de famílias, o que fizemos. Acho que vamos ter ainda mais alguns e serão aceites, como tem acontecido até agora. Na parte das empresas, as medidas só foram conhecidas há dez dias, e há empresas que ainda estão a analisar se vão fazer pedidos de carência, se são inclusive abrangidas pela nova garantia. Parece-nos que a nova garantia irá abranger bastante menos empresas do que se supunha. Mas infelizmente creio que haverá famílias e empresas que terão problemas. Agora o que acho também é que em termos de agregados não haverá um problema quer para o capital dos bancos - dizia-se que seria preciso ajuda e não vemos qualquer necessidade - quer para as empresas. Face aos crescimentos que a generalidade dos indicadores aponta - quer do lado do governo quer do Banco de Portugal, do FMI ou da UE -, há dados mais positivos do que antes e o impacto do final das moratórias será, de certeza, menor. Vai depender também de se manter este nível de emprego.

Quais os setores empresariais que estão no radar da CGD?
Os setores mais atingidos, para os quais foram criadas medidas, os designados setores covid, elencados pelo governo para efeitos de apoios: turismo, alojamento local, agências de viagens, centros comerciais e algumas indústrias pontuais, como por exemplo uma parte do têxtil, não o têxtil-lar mas o vestuário. Há empresas que tiveram grandes quebras de faturação, mas outras conseguiram não só um crescimento da faturação em 2020 relativamente a 2019, como em 2021 face a 2020. Há uma saída desta crise de forma bastante mais assimétrica e, por isso, é preciso ter um balanceamento para corrigir ou tentar apoiar esta assimetria que a crise agravou.

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