Juros podem triplicar este ano e BCE admite recessão de quase 2% em 2023

Taxa de juro diretora do BCE, em 0% desde 2016, vai subir para 0,25% em julho e em setembro pode chegar a 0,75%. Se a guerra não acaba, zona euro entra em recessão e quebra 1,7% em 2023, com desemprego a furar os 8%.

A economia da zona euro parece estar à beira de uma nova recessão em 2023 (quebra de 1,7%), admitiu ontem o Banco Central Europeu (BCE), que fez contas ao cenário de uma guerra prolongada da Rússia contra a Ucrânia.

Num quadro menos mau, em que a guerra não dura tanto, a área da moeda única aguenta-se, mas a retoma perde força: cresce 2,8% este ano e 2,1% no próximo. Em março, logo no início do conflito, era 3,7% e 2,8%, respetivamente.

Seja como for, as taxas de juro do banco central (e todas as outras por arrasto) sobem sempre em qualquer dos cenários, mas quanto maiores forem as pressões inflacionistas, mais o BCE terá de acelerar o agravamento do custo do dinheiro e durante este ano, revelou a autoridade monetária.

A última leitura da inflação (do Eurostat) deu uma subida de preços recorde na zona euro superior a 8%. O objetivo do BCE é manter a inflação à volta dos 2%.

Com a inflação cada vez mais alta (em dezembro de 2021, a previsão do BCE era 3,2% em 2022, em março, subiu para 5,1% e ontem reviu a fasquia para 6,8%), Christine Lagarde anunciou que é preciso acelerar o ritmo de descontinuação dos programas de compra de ativos (maior parte deles dívida pública).

E deixou claro que as taxas de juro vão mesmo subir de forma notória este ano, já em julho, disse a chefe do BCE.

Depois de ter terminado o programa especial de compras desenhado para combater os efeitos da pandemia (PEPP), ontem Lagarde revelou que o enorme programa de compras que configura o chamado quantitative leasing (expansão monetária) também tem de acabar a 1 de julho próximo. Há três meses ainda havia a esperança de que pudesse durar até ao terceiro trimestre.

Assim, em julho, as taxas diretoras sobem todas em 0,25 pontos percentuais. Lagarde também sinalizou que se a inflação não der tréguas, essas taxas podem até subir mais do que 0,25 pontos em setembro. O patamar seguinte costumava ser 0,5 pontos percentuais.

"O Conselho do BCE tenciona aumentar as taxas de juro diretoras em 25 pontos base na sua reunião de política monetária de julho", disse a banqueira central.

Se for um aumento de meio ponto percentual, significa que as taxas de juro centrais da zona euro podem chegar a 0,75% daqui a seis meses, três vezes mais do que os 0,25% previstos para a taxa diretora de refinanciamento em julho.

Atualmente, esta taxa está em 0%. Há mais de seis anos (desde março de 2016) que assim é. Agora, a era dos juros mínimos acabou mesmo.

"Numa análise prospetiva, o conselho do BCE espera aumentar as taxas de juro diretoras novamente em setembro. A calibração deste aumento das taxas dependerá das perspetivas atualizadas para a inflação a médio prazo. Se as perspetivas para a inflação persistirem ou se deteriorarem, será apropriado um incremento maior em setembro", avisou a líder do BCE.

Danos colaterais na economia a curto prazo

Mas, claro, estas medidas para travar a inflação vêm com danos para a atividade no curto prazo, com riscos claros para a economia real europeia, famílias, empresas e governos.

Primeiro, Lagarde explicou que o efeito deste início da subida dos juros não se vai repercutir já na inflação. Vai demorar, só "no longo prazo" é que aparecerá o desejado arrefecimento dos preços.

O impacto mais imediato acontece antes nos endividados, sobretudo nos países onde essa exposição à dívida bancária e soberana é maior. É o caso de Portugal, Grécia, Itália. Os do costume.

"Com a subida das taxas de juro de referência, os custos de financiamento dos bancos aumentam, o que se traduz em taxas ativas mais elevadas, em particular nos empréstimos a particulares", observou Lagarde.

As empresas, sobretudo as mais pequenas e dependentes do crédito bancário, também se devem preparar, claro.

Pior estabilidade financeira, mais pressão orçamental

E os Estados deve ficar de prevenção. "O enquadramento para a estabilidade financeira deteriorou-se desde a nossa última análise, efetuada em dezembro de 2021, especialmente no curto prazo."

"O menor crescimento e as crescentes pressões sobre os custos, bem como o aumento das taxas isentas de risco e das taxas de rendibilidade das obrigações soberanas podem levar a uma nova deterioração das condições de financiamento", acrescentou a presidente do BCE.

Juros mais altos são mais despesa pública e mais dificuldades para controlar ou baixar os défices públicos, por exemplo. É um desafio para Portugal e para muitos outros na zona euro, sobretudo quando o Pacto de Estabilidade voltar a ser integralmente observado, em 2024.

Tudo considerado, a zona euro ainda pode crescer 2,1% este ano, mantendo este ritmo no próximo.

Se a guerra alastrar no tempo, a zona euro entra, como referido, em recessão no ano que vem. O desemprego, que se prevê (diz o BCE) de 6,8% da população ativa em 2022 e 2023, reaparece de forma agressiva: num cenário de guerra longa, a zona euro pode arcar com um desemprego de 7,1% este ano e 8,3% no próximo.

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