Juros baixos e poupanças recorde levam a corrida aos PPR

Desde o início da pandemia, o número de investidores que subscreveu a fundos PPR aumentou 38% para 450 mil. Mas essa tendência poderá ser posta à prova num contexto de guerra e de quedas nos mercados financeiros.

Há cada vez mais portugueses a investir em fundos de Poupança Reforma (PPR). Desde o início da pandemia até ao final de março deste ano - os dados mais recentes do regulador (CMVM) -, o número de investidores neste tipo de produto aumentou 38% para 450 mil. São mais 124 mil. A explicar a corrida aos fundos PPR estiveram as taxas de juro próximas de zero e os níveis de poupança mais elevados.

"Houve uma procura crescente de fundos de investimento como forma de conseguir um rendimento superior", diz António Ribeiro ao Dinheiro Vivo, especialista em assuntos financeiros da Deco Proteste, relembrando que "foram anos com taxas próximas de zero, ou mesmo zero em alguns bancos". Isso incentivou os aforradores a tomarem maiores riscos. Contrariamente aos PPR sob a forma de seguro, os fundos PPR, na sua maioria, não garantem capital. Mas apresentam rentabilidades mais elevadas em alturas em que os mercados financeiros passam por períodos positivos.

De acordo com o último estudo que a Deco Proteste realizou, relativo a junho, houve uma tendência de crescimento de fundos PPR e, pelo contrário, uma contração dos seguros PPR no seio desse mercado. "Atualmente, os seguros PPR representam cerca de 79% do mercado dos PPR, quando antes eram cerca de 86%", adiantou António Ribeiro. Antes da pandemia, o número de subscritores de seguros PPR situava-se em 1,7 milhões, apontam os valores mais recentes da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF). Ainda não há dados relativos ao ano passado, mas este total já demonstrava uma tendência de queda face aos 1,8 milhões de 2019.

No total, o valor sob gestão dos fundos PPR disparou 66% entre março de 2020 e o mesmo mês de 2022, totalizando 4 mil milhões de euros, reflexo da valorização dos ativos e da entrada de investidores. Um valor que, entretanto, já tem vindo a reduzir-se nos últimos meses, tendo-se situado em 3,6 mil milhões no final de junho. Isto, devido às desvalorizações generalizadas dos principais ativos financeiros, como ações e obrigações. Aliás, depois das valorizações dos últimos anos, as quedas nas bolsas levaram a que a rendibilidade média dos fundos PPR fosse negativa (-6,44%) nos últimos 12 meses, segundo os dados mais recentes da Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios (APFIPP).

O crescimento do mercado de fundos PPR mostra que tem havido uma procura crescente por produtos com mais riscos, apesar de os portugueses sempre terem sido muito conservadores. Esta aversão ao risco é a razão pela qual "o mercado dos seguros PPR sempre teve um peso maior, apesar de renderem menos e terem mais comissões", acrescentou o especialista da associação que nos últimos anos tem feito vários alertas às famílias, no sentido de "combater a inércia e incentivar a transferência para um PPR mais rentável e mais adequado ao perfil de cada investidor", já que "a diminuição das pensões de reforma será praticamente uma certeza nas próximas décadas", apontou.

Quadro incerto

Apesar do crescimento significativo dos novos investidores e do valor sob gestão, as desvalorizações sofridas por ativos como ações e obrigações nos últimos meses trazem alguma incerteza sobre se os fundos PPR continuarão a seduzir novos investidores. António Ribeiro explica que "a subida das taxas de juro para travar a inflação e ainda o contexto de guerra e os seus efeitos a médio prazo geram muita incerteza". Por esses motivos, considera que "é difícil prever como vai reagir o aforrador e investidor neste contexto. Vai depender muito dos sinais a curto e médio prazo".

Com o aumento das taxas de juro, é expectável que os produtos de capital garantido tenham uma maior procura, já que os juros oferecidos poderão ser mais elevados. Mas, como sublinha António Ribeiro, "não é muito diferente do que aconteceu nos últimos dois anos, pelo menos, em que o contexto de incerteza da pandemia levou a uma procura de produtos que garantiam o capital, apesar de renderem praticamente nada", como foi notório no caso dos depósitos, cujo montante continua a bater recordes sucessivos a cada mês e já ia em 180 mil milhões de euros, segundo dados do Banco de Portugal referentes a junho. No entanto, no contexto atual, o especialista da Deco Proteste considera que "os Certificados de Aforro vão tornar-lhe uma das melhores aplicações de poupança, com bom rendimento e a garantia do Estado".

O cenário de inflação historicamente alta torna muito mais difícil garantir rendibilidades reais positivas. Por isso, António Ribeiro considera que o investimento em fundos continua a ser a única forma de conseguir contornar esse problema a médio e longo prazo, já que, defende, os produtos de capital garantido nunca vão conseguir superar os atuais níveis de inflação, com taxas acima de 9%. Nesse sentido, acredita que a curto e médio prazo ambas as categorias de produtos (com garantia de capital e sem garantia) continuem a crescer. "Mas tudo vai depender do que acontecer nos próximos meses, pois continua a ser uma incerteza o efeito da guerra e o tempo que irá durar este período de inflação elevada", comentou.

Sara Ribeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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