Schauble fez subir juros da dívida. Madrid, Paris e Dublin caíram

Taxas aumentaram em todos os prazos, depois de Wolfgang Schäuble ter admitido novo resgate. Analistas desvalorizam

Pressão política. É desta forma que analistas e economistas veem as declarações do ministro das Finanças alemão sobre Portugal poder arriscar um segundo resgate. Wolfgang Schäuble suavizou depois o discurso, mas os juros da dívida pública portuguesa acabaram por subir em todos os prazos. A subida não foi dramática, mas aconteceu num dia em que as taxas da dívida espanhola baixaram e os juros de França e da Irlanda até bateram mínimos.

Quem acompanha os mercados acredita que o efeito não será duradouro. "É retórica e pressão política", afirmou Filipe Garcia, analista da IMF, em declarações ao DN/Dinheiro Vivo, acentuando ver as palavras de Wolfgang Schäuble como mais um aviso de que "Portugal arriscará novo resgate se prosseguir no mesmo caminho do passado". A subida (de 3,040% para 3,083%) nos títulos de dívida a dez anos, observada entre a manhã e o final da tarde , não é relevante, na sua opinião. "É normal que os mercados reajam, mas não acredito que se mantenha", precisou, acentuando o efeito bem mais forte sentido na passada sexta-feira, quando se soube o resultado do referendo no Reino Unido, quando as taxas chegaram a 3,5%, o valor mais alto desde março de 2014.

Steven Santos, do banco BIG, também classifica a reação dos mercados como "muito contida", acreditando que as declarações de Schäuble serão encaradas mais como "um marcar de posição" e uma forma de fazer "pressão política".

E refere, tal como Filipe Garcia, que há fatores que estão a pressionar mais os juros dos periféricos, nomeadamente o brexit ou o plano para limpar os ativos maus dos bancos italianos. Fala-se da necessidade de uma ajuda do Estado no valor de 40 mil milhões de euros.

O economista Ricardo Paes Mamede coloca as declarações do ministro das Finanças alemão no plano da "pressão política sobre o governo português", acrescentando que são palavras para "consumo interno", para "alguns setores da sociedade alemã que exigem pressão sobre os países deficitários". Contudo, admite que "se houver um grande descalabro nas contas públicas" é possível que haja "uma grande reação dos investidores financeiros". Uma leitura que é acompanhada pelo economista João Duque.

Aplaudido foi o facto de o governo ter admitido ontem que a economia pode crescer menos do que o esperado (as projeções apontam para 1,8% neste ano) e que poderá rever as suas projeções, em outubro, quando apresentar o Orçamento para 2017. A procura externa tem sido afetada por "choques muito importantes", nomeadamente pelas situações vividas por economias de países mais relevantes para as exportações portuguesa - Angola, Brasil e China -, o que penaliza o andamento da economia, explicou Mário Centeno.

"Mais vale tarde do que nunca", dizem empresários, economistas e analistas ouvidos pelo DN/Dinheiro Vivo. Mas, apesar de o ministro ter referido também o brexit como um dos motivos que poderão fazer abrandar ainda mais as exportações, garantem que o referendo britânico pouco veio alterar a situação, sendo apenas um pretexto para justificar a mudança no discurso.

"A necessidade de rever as projeções não é por causa do brexit mas porque já eram muito altas", afirmou o empresário João Costa, presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal. Mais do que o abrandamento das exportações, João Costa acentua que o grande foco de preocupação está na ausência de investimento, e afirma começar a sentir alguns sinais de "esmorecimento" por parte dos empresários.

João Miranda, presidente da Frulact, revela-se preocupado com o abrandamento das exportações (que caíram 1,94% no primeiro trimestre deste ano), mas sobretudo com a falta de estratégia.

Admitir a revisão das projeções "é uma atitude inteligente", tendo em conta todos os sinais de abrandamento, diz o empresário. Mas lamenta que muitas das reversões decididas foram-no à luz de uma previsão de crescimento que afinal não vai concretizar-se. Menos crescimento poderá significar mais défice, porque das três uma, refere Filipe Garcia: só há menos défice se a economia cresce mais, se as despesas são menores ou se aumentam os impostos.

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