Regressar ao futuro nas Experiências da Mobilidade

Ver a evolução dos veículos elétricos desde os anos 1970 e antever o ano de 2020, em que a chave do carro será substituída por uma app , é uma viagem no tempo para fazer até hoje à tarde na Central Tejo. Conduzir um Fórmula 1 e fazer um test drive ecológico também

Sabia que em 1972 a Volkswagen desenvolveu uma versão elétrica da famosa pão de forma, a Elektro Bus, que chegou mesmo a tempo da crise petrolífera e tinha uma autonomia de 50 km? E tem ideia de que, já em 2020, a marca vai evoluir para a geração ID, que substitui a chave por uma app para abrir e conduzir o carro? É uma espécie de "regresso ao futuro" que o stand da VW, na Central Tejo , oferece aos visitantes, através de uma exposição fotográfica, nas Experiências da Mobilidade.

Mesmo ao lado, no espaço EDP, José Lemos, vendedor e residente em Massamá, senta-se no interior encenado de um carro elétrico, ao lado da mulher, e, com uns óculos de realidade virtual, simula a experiência de condução limpa e silenciosa pelas ruas de Lisboa. "É agradável e suave", diz. Embora José Lemos sinta "curiosidade", adquirir um elétrico ainda não faz parte dos seus planos. "Utilizo o comboio porque serve as minhas necessidades, bicicleta só por lazer, aos fins de semana."

Há quem prefira o real e faça um test drive, à beira-Tejo, com os três modelos elétricos da Volkswagen UP, e-Golf e o híbrido Golf GTE. O que a maioria não sabe é que "estes veículos têm uma rapidez de arranque superior aos carros normais," explica Hugo Pedro, da VW. A velocidade não é, no entanto, o intuito de quem compra elétricos, mas sim a eficiência, ressalva.

"Pelo contrário, a mobilidade elétrica até pode contribuir para uma condução mais segura, porque quanto mais se acelera, mais se consome a bateria."

Essa não é, para já, uma preocupação do jovem de 21 anos José Miguel, que acelera para lá dos 200 km/h sentado ao volante de um carro de corrida na pista virtual do Autódromo do Estoril, no espaço do Autódromo Virtual de Lisboa. "É fantástico, muito melhor do que os jogos virtuais, porque se assemelha mesmo às condições reais", reage o estudante de Desporto da Faculdade do Porto, ainda sob o efeito da adrenalina, ao fim de quase dez minutos de aceleração. Os responsáveis do Autódromo Virtual de Lisboa corroboram o realismo da experiência, acrescentando que os seus simuladores "são procurados por pilotos amadores e profissionais para treino".

De surpresa em surpresa, o visitante desta iniciativa, no âmbito da Lisbon Mobi Summit, é confrontado com um teste aos conhecimentos sobre mobilidade elétrica por via de um jogo virtual, da OK Teleseguros, em que a célebre Marta nos diz se acertámos ou errámos. Ficamos a saber, por exemplo, que há veículos elétricos cujas baterias chegam a ter capacidade para 400 mil quilómetros e que, mesmo depois dessa rodagem, podem ser reutilizadas para outros fins. Ou que os custos de manutenção de um veículo elétrico se ficam pelos 50 a 70 euros. E, mais espantoso, que a velocidade do zero aos 100 pode ser atingida em apenas dois segundos. O mais certo é errar no teste. Mas o pior que lhe pode acontecer é ganhar uma entrada para a exposição Electronic Superhighway (1966 -2016), mesmo ao lado, tão interessante quanto oportuna.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.