"Governo quer mesmo é receita, não é travar o consumo"

Entrevista a António Menezes Rodrigues, presidente da ASFAC - Associação de Instituições de Crédito Especializado.

O crédito ao consumo não é um papão. Quem o diz é António Menezes Rodrigues, presidente da ASFAC - Associação de Instituições de Crédito Especializado, que tem 28 associados. O responsável sublinha que o discurso do governo é contraditório nesta matéria, e que, apesar de estarem a crescer, os níveis do crédito ao consumo estão longe dos verificados antes da crise financeira de 2007-2008. Em entrevista ao DN/Dinheiro Vivo, revela que a ASFAC vai preparar uma solução de cibersegurança, uma das suas maiores preocupações. Sobre a nova concorrência das fintech, é taxativo: tem de haver regulamentação.

que recear o crédito ao consumo?

Há que desfazer ideias preconcebidas, sobretudo de uma franja, que arranja azares da vida de alguns para criar uma bola de neve à volta do tema, completamente desproporcionada, sem qualquer fundo de veracidade. Falamos de crédito ao consumo e falamos de sobre-endividamento. Quando se faz uma compra a prestações, através de crédito, se a pessoa não tiver acesso ao crédito, não tem automóvel, porque nunca tem ali os 20 mil euros para o pagar. Se for colocada numa situação em que paga uma prestação mensal, com uma taxa de esforço perfeitamente aceitável e possível, vai conseguir. Até pode ser visto como uma forma de poupança forçada. Porque, se não tomar a decisão de comprar a prestações, não vai poupar esse valor.

Mas o aumento do crédito ao consumo não é um papão?

As nossas empresas passaram a crise e não houve insolvências, como houve em alguns bancos. Nenhuma entrou em colapso. O cuidado posto na concessão de crédito não configura um papão. Pelo contrário. Desempenhamos bem a nossa função. Estamos bem de saúde. Ainda não recuperámos para níveis anteriores à crise. Agora, o nosso governo anuncia a bondade das suas políticas. O produto interno bruto está a crescer. Isso instila nas pessoas confiança para passarem para padrões de vida que tinham anteriormente, ou que querem ter.

O crédito automóvel é o que mais sobe.

Sim. No período da crise, a venda de viaturas baixou drasticamente. É um produto muito sensível à conjuntura. As pessoas procuram o crédito para fazer compras: automóvel, coisas para o lar, serviços. Não é nenhuma novidade. Nada de preocupações. As nossas empresas promovem o crédito responsável. Não só é do seu interesse como são obrigadas a isso. Avaliam a qualidade do cliente para a obtenção de crédito, avaliam a sua taxa de esforço possível e concedem ou não o crédito. As recusas de crédito são muito elevadas.

Para 2018, prevê que continue o crescimento do crédito ao consumo?

Neste ano, por força do setor automóvel, vai crescer uns 5% a 6%. O setor automóvel é que está a crescer com bastante mais força. Neste ano, vamos crescer no crédito automóvel entre 15% e 18%. No próximo ano vai desacelerar mas admitimos que haja um crescimento da ordem dos 10%. Mas acredito que em 2018 o crédito ao consumo desacelere. O crédito a particulares, incluindo à habitação, crescerá moderadamente. Mas as coisas mudam. Há muita gente que vai querer comprar carro elétrico, que vai melhorar o emprego. Melhora o emprego, melhora o consumo, melhora o crédito. Isso é fatal como o destino. Tanto quanto percebemos do Orçamento do Estado para 2018, um dos fatores macroeconómicos que fazem o quadro orçamental para o crescimento é a procura interna. E a procura interna tem fortes pilares no consumo. E o consumo acontece com crédito ao consumo. Por outro lado, há uma preocupação de o crédito não ser canalizado para o imobiliário e consumo, diz o governo. Logo, o governo parece querer limitar o consumo. Mas isso é contraditório com o modelo macroeconómico que foi desenhado para as políticas públicas. O governo, de vez em quando, diz essas coisas. Mas o governo quer mesmo é receita, não é travar o consumo. E quando diz que o crédito deve ser direcionado para o investimento, isso é completamente dese- jável, mas mais uma vez há uma contradição.

Como está o processo da Autoridade da Concorrência contra a ASFAC por alegada cartelização? As questões estão todas sanadas?

Sim, resolvemos o problema. Connosco está tudo bem. Não temos qualquer tipo de cartelizações. O problema está todo resolvido. Já fizemos as publicações a que estamos obrigados. Estamos tranquilos. É um dossiê encerrado. Os bancos é que continuam com isso. E o nosso problema surgiu por causa dos bancos. E nós já resolvemos o problema e eles ainda o estão a discutir.

A nova concorrência das fintech é uma ameaça para as empresas de crédito?

Não é nenhuma novidade. Novidade são as criptomoedas, as bitcoins e companhia. As fintech são empresas que têm um aparelho tecnológico que lhes permite ter atividade sem presença física na rua. A novidade que implica as fintech é que uma empresa de direito finlandês pode operar em Portugal com a maior das tranquilidades. Todas as empresas e bancos vão evoluir para soluções tecnológicas. Mas as Google que há por aí podem fazer enorme concorrência. Agora, isso vai ter de ser regulamentado. A ASFAC está atenta para colaborar e influenciar os regulamentos. Se quiserem vir para aqui têm de se integrar. Não pode ser como a Uber e os táxis. Aqui tem de ser tudo igual.

Têm tido problemas com fraudes?

É negligenciável. Mas estamos muito preocupados com o tema da cibersegurança e vamos criar uma solução para as nossas associadas.

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