Bancos multiplicaram lucros 37 vezes. Ganharam mais 480 milhões de euros

Caixa Geral de Depósitos e BPI passaram de prejuízos a lucros nos primeiros três meses do ano. Santander Totta e BCP melhoraram os números. Bancos tiveram menos custos com malparado e mais receitas com comissões

A Caixa Geral de Depósitos (CGD) passou de prejuízos a lucros. O banco público anunciou ontem um lucro de 68 milhões de euros nos primeiros três meses do ano, depois de prejuízo de 39 milhões um ano antes. É o último sinal de que os bancos estão a dar a volta à crise. O BPI também passou de perdas a ganhos e o Santander Totta e o BCP aumentaram os lucros.

No total, e excluindo o Novo Banco, que ainda não apresentou contas, as quatro maiores entidades financeiras tiveram um lucro acumulado de 494,1 milhões de euros. É um ganho 37 vezes maior do que os 13,4 milhões alcançados no mesmo período do ano anterior. A explicar esta melhoria estão os menores custos com imparidades e provisões. Caíram mais de metade, para 157 milhões de euros.

Uma parte significativa desta melhoria, que corresponde a 332 milhões de euros, foi protagonizada pelo BPI. O banco dominado pelos catalães do CaixaBank perdeu 122 milhões no primeiro trimestre do ano passado, devido a efeitos extraordinários em Angola; nos primeiros três meses deste ano lucrou 210 milhões de euros. O resultado também foi ajudado por efeitos não recorrentes. O banco ganhou 60 milhões com a venda da posição que tinha na Super Bock.

Em anos anteriores, a crise em Portugal pesava nas contas dos bancos que reportavam números negativos na atividade doméstica. Mas isso aparenta estar a mudar, muito à conta do menor esforço de provisionamento para tapar perdas com crédito e com a recuperação da economia.

No primeiro trimestre, CGD, BCP, Santander Totta e BPI somaram 322,6 milhões de euros na atividade doméstica, contra apenas 88 milhões nos primeiros três meses do ano passado.

O banco público deixou de perder dinheiro na atividade portuguesa, passando de prejuízos de 88 milhões para um lucro de 29,6 milhões (43% do total). No BCP, a operação doméstica passou a gerar cerca de metade do lucro, o que compara com o peso de apenas 18% no primeiro trimestre do ano anterior.

Mais 30 milhões em comissões

Além do menor custo com o malparado, do maior contributo da operação em Portugal e da subida da margem financeira, os bancos também faturaram mais com comissões. Cobraram, em Portugal e nas operações internacionais, mais 33 milhões de euros aos clientes do que no mesmo período do ano anterior. A subida foi quase exclusivamente conseguida na atividade doméstica, que gerou 370 milhões de euros em comissões.

A Caixa foi a que mais aumentou a faturação, com as receitas com comissões em Portugal a aumentarem mais de 14%, totalizando 94,3 milhões, refletindo o aumento dos preçários que o banco público tem feito.

Ainda assim, Paulo Macedo, o presidente do banco, reiterou que a Caixa tem comissões mais baixas que o mercado. No BPI e no Santander os ganhos com comissões também subiram mais de 10%. No BCP, na atividade doméstica, aumentaram mais de 4%.

Do lado da margem financeira (diferença entre os juros cobrados nos empréstimos e o custo de financiamento), os bancos ganharam, em termos consolidados, mais 76 milhões de euros (7,7%), totalizando mais de mil milhões.

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