Há 20 anos que não havia tantos empregados, mas jovens ficam para trás

Emprego já recuperou da pandemia, indicam estimativas provisórias do INE. Mas entre os mais jovens, interrompeu-se em junho um ciclo de três meses consecutivos de melhoria, com a perda de oito mil postos de trabalho.

Apesar da manutenção de um nível de restrições elevado às atividades em grande parte do país, o nível de emprego terá recuperado com força da pandemia nos meses de maio e junho para ficar no último mês no ponto mais alto desde 1998, ano de arranque da série estatística do INE, de acordo estimativas provisórias divulgadas ontem.

A população com trabalho deverá ter ficado rente aos 4,8 milhões de indivíduos, após cinco meses consecutivos de melhoria no emprego, a partir de fevereiro. Maio foi desde então o mês mais forte da recuperação, assegurando mais 61 mil postos de trabalho ocupados, em termos líquidos. Já em junho, o mercado de trabalho gerou mais 17 mil empregos.

De acordo com os dados do INE, que serão revistos no próximo mês, 4 793,6 mil pessoas terão estado empregadas em junho, num ganho de 206,8 mil postos de trabalho face ao mesmo mês do ano passado. Comparando com fevereiro de 2020, mês anterior à entrada da pandemia em Portugal, o ganho é de 47,8 mil postos de trabalho.

Mas o cenário de emprego máximo previsto nestas últimas estimativas não se aplica a quem está à entrada do mercado de trabalho. Entre os mais jovens, interrompeu-se em junho um ciclo de três meses consecutivos de melhorias, com uma perda mensal de oito mil postos de trabalho, para um total de 249,5 mil empregos ocupados por quem tem entre 16 a 24 anos.

Comparando com um ano antes, o emprego jovem soma apenas mais 8,9 mil postos de trabalho. E feita a comparação com o mês anterior à chegada da pandemia, o mercado de trabalho jovem segue ainda com défice de 45,6 mil postos de trabalho.

Desemprego jovem sobe

As maiores dificuldades encontradas pelos mais jovens encontram-se agora mais refletidas nos dados do desemprego, depois de vários meses em que as restrições sanitárias limitaram os números de desempregados com muitos indivíduos sem trabalho a serem classificados como inativos ao se encontrarem desencorajados ou imediatamente indisponíveis para a procura de trabalho. O desemprego incluía em junho 95,8 mil jovens, mais 7,3 mil que no mês anterior, e agora mais 28 mil que no mês anterior à chegada da pandemia.

Em comparação, o número de desempregados com mais de 25 anos, que foi em junho 260,3 mil, está já ligeiramente abaixo daquele que se registava em fevereiro de 2020. São menos 5,9 mil adultos no desemprego do que antes do início da crise sanitária.

Tem sido essencialmente para as faixas adultas que o mercado de trabalho se tem mostrado mais dinâmico no contexto da crise trazida pela pandemia. Com exceção dos meses iniciais da pandemia em Portugal, e de dezembro e janeiro últimos, marcados pelo regresso aos confinamentos mais severos, o emprego acima dos 25 anos tem vindo sempre a crescer em termos líquidos, segundo mostram os dados mensais do INE.

Assim, os ganhos globais de 47,8 mil empregos relativamente a fevereiro do ano passado são na verdade o saldo de um ganho de 93,5 mil postos de trabalho ocupados por adultos, com uma penalização de 45,6 mil empregos jovens que se encontram ainda perdidos.

Globalmente, a taxa de emprego terá ficado em junho nos 62,4%. Mas se atinge os 68% entre a população adulta, está nos 25,1% entre os mais jovens.

Já a taxa de desemprego global, fica agora nos 6,9%. É de 5,4% entre os adultos, e de 27,7% entre a população jovem.

Menos desencorajados

A melhoria global nas estimativas de emprego e desemprego ocorre a par com a continuação da reposição da população ativa e redução do universo de subutilização do trabalho.

No último mês, a taxa de subutilização do trabalho tornou a cair, ficando em 12,7%, traduzindo um universo de 676 mil indivíduos em idade de trabalhar, mas sem emprego ou apenas com trabalho a tempo parcial de forma involuntária. Neste grupo, chegaram a estar mais de 829 mil pessoas em julho do ano passado, altura em que a taxa de subutilização do trabalho chegou mesmo aos 15,7% da população ativa.

O principal contributo para a redução nos números do trabalho subutilizado tem sido o recuo nos desencorajados, ou seja, os desempregados que desistiram de procurar trabalho. Eram mais de 280 mil há um ano, ficando no último mês em 150,3 mil, após nova descida. Na maior parte, os que saíram deste grupo terão encontrado trabalho, dada a evolução dos números do desemprego.

Em contrapartida, registou-se no último mês um aumento ligeiro no número de inativos à procura de emprego mas não imediatamente disponíveis (por estarem doentes ou em quarentena, por exemplo), que passaram aos 31 mil (mais 5,8 mil).

Também subiu em junho o número de trabalhadores com emprego a tempo parcial mas que gostariam de trabalhar mais horas, que passou a 138,5 mil. Foram mais 2,3 mil trabalhadores com horário incompleto do que no mês anterior.

Maria Caetano é jornalista do Dinheiro Vivo

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