Fábricas portuguesas são as segundas mais poluentes da Europa

Rácio de intensidade das emissões atmosféricas da indústria portuguesa é oito vezes superior ao espanhol e 40 vezes mais do que o alemão. Pior performance só a Letónia.

Portugal tem a segunda pior performance da União Europeia no que às emissões da indústria diz respeito. O rácio português - medido pelas emissões de partículas finas dividido pelo valor acrescentado bruto da indústria - é de 0,82, oito vezes acima do rácio espanhol, que é de 0,10, e 40 vezes acima do alemão, que é de 0,02.

A média da União Europeia (UE) é de 0,07, menos quatro centésimas do que em 2008. Portugal também melhorou, passou de 0,99 para 0,82 no mesmo período. Pior só a Letónia, cujo rácio é de 0,84 e se agravou comparativamente a 2008, quando era de 0,65. Os dados são da Pordata, cuja diretora fala numa indústria "muito poluente" e que tem, ainda, "um longo caminho a percorrer". Luísa Loura lembra, ainda, que o facto de termos uma economia que cresce pouco ajuda a agravar este rácio. "Emitimos demasiadas partículas para o que conseguimos valorizar a nossa indústria. Neste jogo Portugal está mal porque não consegue acrescentar riqueza na economia que compense o que está a emitir", frisa.

Estes são apenas alguns exemplos dos muitos dados sobre energia que a Pordata, a base estatística da Fundação Francisco Manuel dos Santos, compila e que, a propósito do Dia da Europa, que hoje se assinala, procurou dar destaque, atendendo a que o tema tem marcado a agenda política e económica da UE.

"Desde a eclosão da guerra na Ucrânia que a discussão em redor da produção, consumo, eficiência e transição energética se tem intensificado, à medida que a União Europeia tenta reduzir a sua dependência energética em relação à Rússia", lembra a Pordata, que acredita que o tema vai continuar a marcar a geopolítica europeia nos próximos anos.
Que energia é produzida na Europa, quais os países mais dependentes de importações, quem paga mais pela tarifa de eletricidade e de gás ou como está a evoluir a transição energética na UE são algumas das questões a que a base estatística da Fundação Francisco Manuel dos Santos procura dar resposta.

A produção de energia na UE em 2020 atingiu as 573,822 milhões de toneladas. França (21%), Alemanha (17%), Polónia (10%), Itália (7%) e Espanha e Suécia, ambos com 6%, foram os países que mais contribuíram.

Sobre a energia produzida na Europa, mais de dois terços são assegurados por seis países, com França (21%), Alemanha (17%) e Polónia (10%) à cabeça. Portugal contribui com pouco mais de 1%, que Luísa Loura admite ser pouco. Em contrapartida, lembra, a produção portuguesa está quase toda (98%) concentrada nas energias renováveis, que "são aquelas que darão maior sustentabilidade ao planeta". Só Malta, com 100% de renováveis, e a Letónia, com 99%, ultrapassam Portugal neste indicador.

Em termos de importações, Malta, Chipre e Luxemburgo eram, em 2020, os países mais dependentes, com mais de 90% da energia importada. Com 11%, a Estónia era o país menos dependente do exterior. Portugal ocupa a 11ª posição, com 65% de energia importada, acima da média da UE (58%), mas tem vindo a reduzir essa dependência. Em 2000 Portugal importava 85% da energia consumida. Espanha (57%), Rússia (15%) e EUA (10%) são os países a que comprámos mais petróleo, em 2020. Já o gás natural veio da Nigéria (54%), EUA (19%), Rússia (10%) e Argélia (9%). Com a guerra na Ucrânia, todo este panorama deverá alterar-se, com os vários países a procurarem fontes alternativas de abastecimento à Rússia.

Quanto ao custo da energia na UE, e depois de anulada a diferença do custo de vida dos vários países, conclui a Pordata que as famílias portuguesas pagavam, em 2021, o 6º preço mais elevado da eletricidade entre os 27 e o segundo mais caro no gás natural. No total da UE, só os suecos pagam mais de fatura do gás. Já a indústria nacional tinha o 14ª custo mais elevado de eletricidade na Europa e o 18º no gás natural. No gás natural, os industriais finlandeses, polacos e croatas são os que mais pagam, na eletricidade são os polacos, romenos e búlgaros.

Portugal importou 65% da sua energia em 2020, sendo o 11º país da UE mais dependente das importações. Mas já foi mais: em 2000 importava 85% das suas necessidades energéticas.

Para analisar a eficiência energética na UE há que olhar para o consumo por cada milhão de euros de riqueza criada. E os dados mostram que Portugal "aumentou a sua eficiência", desde 1995, seguindo a mesma tendência europeia, embora, sublinha a Pordata, o aumento tenha sido mais expressivo no todo da UE. Assim, a intensidade energética nacional era de 76 toneladas equivalentes de petróleo (tep) por milhão de euros do PIB, contra os 66 a nível europeu.

"Por cada euro que se produz temos de usar muita energia comparativamente a outros países, mas isso terá a ver com alguma incapacidade em fazermos crescer a nossa economia", defende Luísa Loura. Quanto menor a intensidade energética, maior é a eficiência no seu uso. Em 1995, Portugal tinha uma intensidade energética de 145,6 tep, acima dos 140,8 médios da UE.

Sobre a transição energética, as renováveis produziram, em 2020, 41% da energia primária na UE e contribuíram para 22% do consumo. Portugal, como referido, foi o terceiro país que mais renováveis usou no total da energia produzida, tendo sido o quinto com mais renováveis no total do consumo final, com 34%, ultrapassando, assim, a meta proposta de 31% para 2020.

Para a diretora da Pordata, há, no entanto, ainda muito a fazer para que a indústria nacional se torne menos poluente, bem como ao nível dos transportes. "Uma das áreas em que a eficiência energética nacional é pior é na área dos transportes, o que tem muito a ver com o uso excessivo do transporte individual no país", diz, defendendo que "terá que haver medidas muito fortes para que as pessoas deixem o carro em casa, mas é preciso, também, que os transportes melhorem muito para que o seu uso não seja um sacrifício".

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