Fábricas em Portugal param por falta de chips para carros

Autoeuropa suspende produção porque semicondutores não chegam para a procura. Bosch de Braga também está a ser afetada.

O trabalho e a escola em formato remoto, por causa do coronavírus, fizeram disparar a compra de computadores e de outros equipamentos que funcionam à base de semicondutores (chips). A forte procura, no entanto, prejudicou a indústria automóvel mundial: no início deste ano, várias fábricas tiveram de reduzir ou mesmo suspender temporariamente a produção.

Portugal também já está a sofrer com a falta de chips: a Autoeuropa vai suspender a produção durante a próxima semana e há mais empresas nacionais a sofrer perturbações.

"A distribuição condicionada de semicondutores na indústria automóvel, que não tinha até ao momento provocado qualquer interrupção na atividade da fábrica, obriga agora a cancelar todos os turnos de produção entre os dias 22 e 28 de março", anunciou ontem a fábrica do grupo Volkswagen (VW).

Até agora, a fábrica de Palmela estava a escapar à falta de componentes neste grupo, por causa do modelo T-Roc, muito procurado no mercado europeu.

O grupo automóvel alemão, contudo, tem sofrido com a falta de chips há várias semanas. Em fevereiro, um responsável da VW culpava os fornecedores por falta de planeamento no fornecimento de componentes, segundo a Reuters. Em Espanha, por exemplo, a fábrica de Navarra terá a produção suspensa por três dias na próxima semana por escassez de semicondutores.

A nível mundial, a aliança Stellantis também tem sido afetada pela mesma situação. A organização que junta os grupos Peugeot Citroën e Fiat Chrysler teve de suspender a produção em fábricas em Espanha e na Alemanha. Na fábrica da Stellantis em Portugal, para já, não há perturbações. "Não temos tido necessidade de realizar ajustes na produção", adianta ao Dinheiro Vivo fonte oficial da Stellantis Mangualde.

Em sentido contrário seguem os dias da Fuso Tramagal. A fábrica de produção de míni camiões tem "registado constrangimentos no fornecimento de componentes", embora tenha conseguido, para já, manter o nível de produção.

Os semicondutores são um elemento cada vez mais presente nos automóveis, através dos equipamentos de segurança e de entretenimento a bordo. Na unidade da Bosch em Braga, que desenvolve soluções para várias marcas automóveis, "tem havido alguns problemas a nível de fornecimento mas continuamos a laborar e, para já, não há perspetivas de paragem", nota fonte oficial.

A escassez de chips chegou a este ponto por causa dos primeiros impactos do coronavírus: no segundo trimestre de 2020, as marcas diminuíram as encomendas de semicondutores, que foram transferidas para outras indústrias. As fabricantes, contudo, foram apanhadas de surpresa na segunda metade do ano.

"Nos meses seguintes, a procura por chips para automóveis subiu muito mais do que tínhamos previsto", admitiu em fevereiro Falan Yinug, responsável da associação da indústria de semicondutores, citado pela CNBC.

Mesmo na indústria tecnológica, a Samsung alertou ontem para graves problemas de fornecimento de componentes para este trimestre.

Como a produção de um chip é "um dos processos industriais mais complexos" e pode gerar tempos de espera de "até 26 semanas", apenas na segunda metade deste ano será retomado o normal fornecimento desta peça minúscula mas que está a gerar grandes problemas.

Diogo Ferreira Nunes é jornalista do Dinheiro Vivo

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