Fábricas de carros obrigadas a adiar regresso à produção

Autoeuropa e Stellantis Mangualde já deveriam ter aberto as portas desde a última segunda-feira, mas só vão retomar a atividade em setembro. Trabalhadores vão entrar em lay-off e alguns terão perda de ordenado.

Um semicondutor é uma peça cada vez mais invisível mas mais necessária num automóvel. Se começar a faltar, é motivo suficiente para perturbar ou mesmo fazer parar a linha de montagem. Portugal, como o resto da Europa, está a sofrer com este fenómeno. As maiores fábricas nacionais já deveriam estar a funcionar desde o dia 23 de agosto, mas só deverão voltar a abrir portas no próximo mês. As restantes unidades já recomeçaram a montagem, mas também estão a ter alguns problemas.

No caso da Autoeuropa e da Stellantis (ex-PSA) Mangualde, a demora no regresso à produção poderá ter impacto no salário dos trabalhadores. Será acionado o mecanismo de lay-off, com o Estado a pagar dois terços do salário. No ano passado, as duas unidades foram responsáveis por mais de 96% da fabricação de automóveis em Portugal.

Comecemos pelo grupo Volkswagen. Na maior fábrica portuguesa, já se sabia que a suspensão da produção seria prolongada: quatro semanas em vez das habituais três para estabilizar a linha de montagem e aproveitar para reasfaltar a estrada de acesso. A semana extra de paragem ainda foi contabilizada como dias de não produção.

Mas a unidade de Palmela já comunicou que a laboração só será retomada dia 6 de setembro, adiantou ao Dinheiro Vivo a comissão de trabalhadores. Esgotados os dias de não produção, volta a entrar em cena o cenário de lay-off: os mais de 5200 funcionários vão para casa sem perder parte do salário porque o grupo alemão vai completar os restantes 33,3% que não são pagos pelo Estado.

Quando a linha de montagem da Autoeuropa voltar a funcionar, também será necessário acabar os milhares de T-Roc e Volkswagen Sharan que ficaram sem semicondutores nas semanas anteriores à interrupção. Algumas dessas unidades estão parqueadas em locais de grandes dimensões nos distritos de Lisboa e de Setúbal. No limite, há até 17 mil unidades que poderão ser produzidas sem terem todas as peças e permanecerem estacionadas.

Mais no centro, em Mangualde, a unidade da aliança Stellantis enfrenta problema semelhante. Desde segunda-feira, dia 23, que deveriam estar a ser fabricados os modelos comerciais ligeiros da Citroën, Peugeot e Opel. Mas ainda não está previsto o regresso: apenas com três dias de antecedência os mais de 900 operários saberão quando terão de vestir a indumentária para voltarem à produção. Amanhã não será de certeza e também é pouco provável que o regresso seja feito no dia seguinte.

Esgotado o tempo de férias, segundo fonte oficial da unidade, os trabalhadores podem beneficiar da flexibilidade do banco de 280 horas sem perda no vencimento; esgotado o mecanismo, os funcionários passam para o lay-off, mas com alguma perda no ordenado: a Stellantis só complementa até 80% do salário.

Também as fábricas mais dedicadas a nichos de mercado sofrem com a falta de semicondutores.

No Tramagal, a unidade da Mitsubishi Fuso - controlada pela Daimler - até retomou a produção de mini-camiões no início desta semana e sem quaisquer problemas. O pior ainda está para chegar: "Prevemos perturbações sérias na atividade durante setembro", antecipa fonte oficial da fábrica. Poderá estar em causa a suspensão total ou parcial da produção do modelo Canter durante o próximo mês.

Em Ovar, a unidade da Salvador Caetano está a produzir normalmente a série especial do Toyota Land Cruiser para a África do Sul. Mas a falta de semicondutores "não permitiu corresponder a uma pretensão de aumento de encomendas" para aquele mercado, e ainda tem dificultado o fornecimento de conjuntos de peças para o modelo todo-o-terreno da marca japonesa.

Os dados mais recentes da associação ACAP indicam que até junho foram fabricadas 152 267 unidades, mais 29,8% do que em igual período do ano passado, afetado por dois meses de confinamento na primeira vaga do coronavírus. Resta saber se os contínuos impactos da falta de chips acabem por provocar os mesmos efeitos da pandemia e impeçam Portugal de retomar a rota do crescimento na produção automóvel.

Problemas lá fora

Também no estrangeiro são sentidos os impactos da falta de semicondutores. Por exemplo, na Alemanha, o grupo Volkswagen teve de prolongar a paragem em três fábricas e reduzir a montagem a um turno noutras unidades. A Stellantis teve de suspender a produção em fábricas em Espanha e França pelo mesmo motivo, com exceção de um setor, que se dedicada à produção dos modelos mais rentáveis para a aliança liderada por Carlos Tavares.

A dona da Mercedes prolongou a redução do horário da linha de montagem em fábricas na Alemanha e na Hungria. Os suecos da Volvo suspenderam a laboração em Gotemburgo para a próxima semana, o mesmo fazendo a norte-americana Ford numa unidade na Alemanha.

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