Europeus foram mais longe do que exigia a lei nos confinamentos

FMI faz as contas e conclui que doença foi muito mais destruidora na Europa do que nos EUA. No âmbito de outro estudo, OCDE avisa que Portugal pode estar cheio de empresas zombie e que "há margem para melhorar os processos de falência". E há margem para subir alguns impostos quando vier a retoma.

A população europeia foi bastante além (na prática) do que era exigido por lei em termos de confinamentos, isto quando se compara com a realidade dos Estados Unidos. Isso teve, obviamente, um efeito bastante mais destrutivo na economia europeia do que na norte-americana, refere o Fundo Monetário Internacional (FMI), num estudo ontem divulgado.

Recorde-se que nas mais recentes previsões do FMI (outlook feito no início deste mês), a zona euro levou um corte na projeção de retoma para este ano de oito décimas percentuais, um dos maiores. Agora, a área da moeda única deve crescer 4,4%.

Já os Estados Unidos foram promovidos de forma significativa, sendo de novo vistos como o grande motor da economia mundial. O FMI subiu a previsão para os EUA uns impressionantes 3,3 pontos percentuais e agora aquela que é referida como sendo a maior economia do mundo pode vir a crescer 6,4%. Acima do ritmo global, aliás (6%).

Ontem, um trabalho elaborado por três economistas do departamento europeu do FMI observa que "a covid-19 não poupou nenhum país, mas as perdas económicas associadas à pandemia foram, em média, significativamente maiores na Europa do que nos Estados Unidos, especialmente na primavera de 2020".

"O que explica essas diferenças: as políticas macroeconómicas ou o vírus?", questiona o departamento dirigido por Alfred Kammer.

Segundo a instituição sediada em Washington "parece improvável que as diferenças nas políticas macroeconómicas expliquem o desvio negativo na atividade em relação aos Estados Unidos até ao momento".

Para os economistas do antigo credor de Portugal, parece sim, "que os confinamentos voluntários 'de facto' [na prática] mais rígidos na Europa, e que foram além do que pode ser atribuído às medidas de confinamento 'de jure' [definidas por lei] e que estas explicam a maior parte da quebra relativa de atividade".

Esta sobrerreação das pessoas na Europa ao confinamento formal e legal tem uma razão de ser. Segundo o FMI, isto reflete amplamente o facto de a pandemia ter sido (e de continuar a ser) "mais grave" na Europa do que nos EUA. O rácio de hospitalizações e de mortos por um determinado número de novos casos "foram maiores" a nível europeu, aponta o FMI.

Este fenómeno -- relacionado com o medo do vírus e a situação de quase calamidade que atingiu vários serviços nacionais de saúde -- "reduziu enormemente a mobilidade e a atividade económico em relação ao que aconteceu nos Estados Unidos"

Além disso, há outro fator que ajuda a explicar o pior desempenho da Europa. "Provavelmente, reflete uma maior adaptabilidade da economia dos EUA para operar num contexto de mobilidade reduzida (por exemplo, por via de uma maior margem para usar o teletrabalho)", sublinha o FMI.

E um último recado do FMI. "Embora a resposta orçamental na Europa tenha sido menor do que a dos EUA, ela foi eficaz a manter o rendimento disponível das famílias e a liquidez das empresas e, portanto, é improvável que tenha desempenhado um papel significativo na quebra de atividade detetada" na comparação com a realidade americana.

Alarme das moratórias dispara no FMI

É um aviso que tem vindo a subir de tom nas últimas semanas. Recentemente, numa entrevista ao Dinheiro Vivo, Ricardo Mourinho Félix, do Banco Europeu de Investimento (BEI), pediu cautela com o fim das moratórias e esta quarta-feira o FMI juntou-se ao coro. O diretor do departamento europeu do FMI avisou que "temos, claramente, de olhar para a questão do fim das moratórias com cuidado".

Alfred Kammer, o dirigente do FMI que supervisiona Portugal e restantes economias europeias, frisa que "é importante que os bancos avaliem a situação real das empresas" e que isso muda consoante os países e o ponto onde estavam quando chegou a pandemia e o ponto onde estão hoje na tentativa de saída da crise.

Os mais endividados (empresas e bancos), como Portugal, e aqueles onde havia mais empresas que já eram inviáveis ou até zombies, terão de avaliar bem o que pretendem fazer.

"No futuro, os países têm de ver que as empresas podem ser viáveis após acabar a pandemia" e depois os bancos devem avaliar bem os planos de negócios dessas empresas (clientes) para perceberam o valor das "provisões necessárias para potenciais perdas", juntou o diretor do FMI e colega de Vítor Gaspar na apresentação do outlook para a Europa.

OCDE. Mais impostos verdes e imobiliários, falências mais fáceis

Ontem também, a OCDE tocou nesse ponto nevrálgico. Muitas empresas em Portugal podem simplesmente ser inviáveis, zombies, e facilitar o crédito e burocratizar os processos de insolvência podem estar a manter negócios artificialmente à tona.

No estudo anual sobre as reformas estruturais, a OCDE diz, no caso concreto de Portugal, que outro grande problema por resolver está na dívida e no prolongamento da vida de empresas supostamente inviáveis, mas que não conseguem falir.

"Apesar da desalavancagem considerável desde a crise financeira, a pandemia chegou num cenário de alto endividamento empresarial, que limita fortemente o investimento e a criação de empregos", alerta a OCDE.

Para a equipa de peritos desta organização, "há margem para melhorar os processos de falência, nomeadamente através da redução do tempo de remissão ou desobrigação das dívidas e isenções de mais ativos do devedor em processos de falência de entidades altamente endividadas".

No mesmo estudo, a OCDE defende que, quando acabar a crise, Portugal deve agravar impostos ambientais e imobiliários, deve apostar num sistema fiscal "mais eficaz" de modo a ter mais dinheiro para investir em "educação, saúde e infraestruturas".

"O uso de isenções de impostos sobre o consumo e de taxas reduzidas diminui a base de incidência dos impostos" pelo que "deve ser minimizado", acrescenta a organização.

Luís Reis Ribeiro é jornalista do DInheiro Vivo

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