Durão Barroso: "Acabou-se o consenso político e económico. É um tempo de transição"

O ex-presidente da Comissão Europeia acredita que é preciso melhorar a cooperação das forças de segurança para combater o terrorismo.

Davos acontece numa altura em que o mundo atravessa grandes convulsões - económicas mas também políticas, humanitárias. Esta conferência será especial?

Todos os anos são especiais, mas neste Davos começa com um ambiente algo sombrio. Os mercados estão com muitas dúvidas, há um clima de inquietação, a volatilidade é crescente e há preocupação com a desaceleração do crescimento. Juntando a isto uma Rússia mais afirmativa, os problemas geopolíticos na Ucrânia, a transição de poder nos Estados Unidos - estamos a viver o phasing out da presidência de Obama - há fatores preocupantes.

O mundo está diferente.

Sim, já não é a Europa que está no centro das atenções, no centro de todos os males por causa da crise. Percebeu-se que há problemas estruturais e neste ano Davos talvez seja especial porque há dúvidas quanto ao sucesso da globalização. Há quem acredite que a globalização está descontrolada, mas se for bem gerida é capaz de resolver os problemas. Hoje vivemos as réplicas do terramoto que foi a crise. Acabou-se o consenso. Mesmo nos países mais desenvolvidos, esbateu-se o consenso político e económico que havia. Vivemos tempos de transição.

O movimento de refugiados para a Europa e a ameaça do terrorismo têm um papel central nessa mudança? É por isso que foram incluídos nos temas em debate no World Economic Forum?

É natural essa inclusão, porque são questões que preocupam o mundo - não só a Europa mas as economias mais avançadas. Em 2014 identifiquei a emigração como prioridade, como um dos principais desafios para o mundo - tinha visitado um campo de refugiados na Síria e assistido em Lampedusa a uma cerimónia que muito me impressionou: o enterro de 300 pessoas que tinham morrido na travessia. Estava sensibilizado para o assunto. Agora está no topo da agenda. Este crescimento da emigração mundial coloca desafios às sociedades e tem consequências políticas, como o aumento do populismo e do extremismo. Veja-se o caso dos Estados Unidos: com as declarações xenófobas que tem feito, Donald Trump lidera as sondagens. Não se percebe como isto acontece. Mas a emigração também levanta problemas económicos e é normal que Davos inclua estas questões na agenda. E é essencial termos o cuidado de distinguir refugiados de terroristas.

Os recentes atentados mudaram tudo. A Europa vai ter de aprender a viver com medo?

O problema é geral: a ameaça do terrorismo não afeta só a Europa, afeta todos - veja-se o ataque recente em São Bernardino, em que um casal que não tinha ligações ao Daesh se deixou radicalizar, autoproclamou-se executor desse movimento e matou indiscriminadamente, incluindo idosos e pessoas com deficiência. Mas de certa forma é algo novo, sim, porque antes era dirigido contra políticos, contra monarcas, enquanto estes atos de terrorismo islâmico são contra inocentes e em larga escala, com meios muito mais avançados do ponto de vista técnico. E com o autossacrifício, o que coloca problemas de controlo muito maiores.

O que podemos fazer contra isso?

A solução de fundo passa por resolver o problema na origem, num Médio Oriente alargado (Síria, Iraque, Líbia...), mas vai demorar. Entretanto, temos de aumentar a segurança. É essencial melhorar a cooperação entre polícias e forças de segurança dos países e reforçar as fronteiras externas. Não é introduzir novas fronteiras europeias, não é assim que se evita o problema. É com uma cooperação mais íntima das forças de segurança. E é preciso exigir aos países [onde o Estado Islâmico tem ganho espaço] que também cooperem, sem ambiguidade. A maioria dos muçulmanos não é nem tem relação com o terrorismo, mas se não ajudarem a resolver o problema eles próprios contribuem para essa identificação injusta. Uma ação exclusiva do Ocidente só daria força ao argumento da vitimização contra o Ocidente que os terroristas demonizam.

Exclusivos