Energia verde será prioridade do novo CEO da Galp

Decisão da líder e maior acionista da empresa põe Andrew Brown aos comandos da estratégia de descarbonização. Aposta no lítio reforçada com fatia da petrolífera na Savannah.

Mudam-se os tempos - e as apostas -, mudam-se os protagonistas. E se a prioridade à descarbonização da economia implica um novo rumo para a Galp - que passa pelo encerramento da refinaria de Matosinhos e da Central Termoelétrica de Sines (leia em pormenor nas páginas. 12-14), foi vontade da maior acionista e presidente do conselho de administração da petrolífera atalhar o segundo mandato de Carlos Gomes da Silva e trazer nova liderança à empresa. A mudança, ontem anunciada aos mercados, acontece já a 19 de fevereiro, quando Andrew Brown, antigo executivo da Shell com 35 anos de trabalho na energia, assumir o leme da Galp.

Em mãos, o novo CEO terá a alteração profunda dos negócios da petrolífera, que entretanto se tornou a maior produtora de energia solar da Península Ibérica e cuja aposta no lítio se torna evidente e ganha força com a aquisição, também ontem conhecida, de 10% na companhia a quem foi entregue a exploração de lítio em Portugal. Para assegurar a fatia da subsidiária da empresa britânica Savannah em Portugal, que explora a Mina de Covas do Barroso, Boticas, a Galp avançou, segundo o acordo assinado, com um investimento de 6,4 milhões de dólares (5,3 milhões de euros), estando em avaliação um acordo de fornecimento garantido para que a petrolífera fique com até metade do lítio (até 100 mil toneladas por ano) extraído em Portugal pela Savannah.

"Acreditamos que a baixa pegada ecológica de concentrado de lítio da Mina do Barroso possa ser um marco fundamental na transição energética da Europa para a mobilidade elétrica e estamos entusiasmados que a Galp se junte a nós nesta jornada", destacou o CEO da Savannah Resources, David Archer, em comunicado.

Será já com Andrew Brown que se desenvolverá o novo negócio. O executivo que fez carreira na Shell, onde foi ponta-de-lança da gestão durante uma década, é formado em Engenharia no Cambridge e desempenhava agora funções de vice-presidente da SBM e de consultoria em várias companhias, incluindo a McKinsey. Foi Brown o responsável por conseguir levar a cabo o projeto pioneiro Pearl Gas to Liquid, um negócio de 18 mil milhões de dólares (15 mil milhões de euros), tendo ainda estado sediado no Qatar, ao leme dos negócios da Shell, entre outras posições assumidas na empresa britânica.

Fontes contactadas pelo Dinheiro Vivo assumem que havia algum desconforto entre Paula Amorim e o Carlos Gomes da Silva. Também o JN avançou que a empresária não estaria satisfeita com a velocidade a que o CEO estava a levar a cabo a alteração da estratégia e a reconfiguração da Galp. Em causa pode ainda estar, sabe o Dinheiro Vivo, a vontade de Paula Amorim (que representa 33,34% da petrolífera) de ter como CEO da companhia um profissional com grande experiência na área, mas sobretudo independente de ligações a centros de poder nacionais.

"Carlos Gomes da Silva renunciou hoje aos cargos de vice-presidente do Conselho de Administração e presidente da Comissão Executiva da Galp e aos demais cargos na administração de sociedades ou entidades participadas pela Galp", lê-se no comunicado, sublinhando que a renúncia foi "consensualizada entre o CEO e a presidente do Conselho de Administração da Galp, Paula Amorim, "assegurando as condições para uma transição estruturada e com plena normalidade de funcionamento dos órgãos de governo da Galp".

Carlos Gomes da Silva estava há mais de uma década ligado à gestão da petrolífera portuguesa, tendo assumido o lugar de CEO em 2015, um percurso que a empresa releva no comunicado ao mercado, destacando "os importantes serviços prestados ao longo de cerca de 14 anos na gestão executiva".

Galp entra no lítio

O acordo entre a Galp e a Savannah pode ainda trazer uma solução para as infraestruturas da petrolífera desativadas na sequência da transição energética da empresa e dos objetivos de descarbonização da economia. Tornado público três semanas depois de a Galp anunciar o encerramento da refinaria de Matosinhos neste ano, a empresa diz que "não existe nenhum projeto de refinação de lítio" para aquela localização. Admite porém que está em curso um "estudo da cadeia de valor de baterias, porque a armazenagem de energia está no ADN da Galp".No início de maio, um estudo da Universidade do Minho indicava que a exploração de lítio na Mina do Barroso poderia criar cerca de 800 postos de trabalho, dos quais 200 seriam diretos.

Apesar dos efeitos da pandemia e do baixo preço do petróleo - que roubaram 40% do valor da empresa no ano passado -, será ainda o petróleo a garantir a sustentabilidade dos novos investimentos e planos da Galp, com destaque para as participações na exploração de campos no Brasil, que representam ainda a fatia de leão das receitas da companhia portuguesa. Serão essas reservas a financiar o desenvolvimento dos negócios do gás em Moçambique - passo intermédio na transição para energia mais limpa -, bem como as novas apostas da petrolífera, incluindo a exploração de lítio em Portugal.

A Galp fechou ontem a valorizar mais de 3%, para 9,51 euros/ação - antes do anúncio da mudança na liderança mas já depois de conhecido o investimento no lítio.

Com Diogo Ferreira Nunes

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