"Não podemos voltar a fechar", dizem empresários da hotelaria, espetáculos e comércio

No arranque da segunda fase de desconfinamento, empresários apontam o dedo aos apoios e pedem que o oxigénio que tem sido dado às empresas não seja retirado assim que comecem os sinais da retoma.

O dia 5 de abril de 2021 marca o regresso de muitos portugueses às esplanadas. Depois de quase dois meses de confinamento quase geral, muitas atividades económicas abrem timidamente as portas. Miguel Garcia, Álvaro Covões e Miguel Pina Martins são gestores em três dos setores mais afetados pela pandemia e confinamentos: hotelaria, espetáculos e comércio. Os empresários alertaram, durante debate promovido pela Global Media Group (donos do DN, JN, TSF e Dinheiro Vivo), que o País não pode voltar a confinar, sob pena da economia não aguentar. Além disso, pedem que os apoios não terminem assim que a retoma der os primeiros passos.

"Faz exatamente 13 meses que estamos em pandemia. É a segunda Páscoa confinada que atravessamos. Estamos no caminho certo para conseguir começar a verdadeira recuperação a partir do verão", começou por defender Miguel Garcia, diretor Regional de Operações da Minor Hotels para os Urban Hotels Portugal. "Depende de muitos fatores termos recuperação, e consistente, depois do verão, para que a retoma comece e para que não voltemos a fechar. Grande parte desses ingredientes passa pela vacinação e com dar muita forma à imagem Portugal e recuperá-la a 100% depois do que passámos em janeiro e fevereiro, que foi muita mau", acrescentou.

Álvaro Covões é há muito um dos rostos dos espetáculos e festivais de música em Portugal. Líder da empresa Everything is New, criadora do NOS Alive, e dirigente da Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos, o gestor partilha da ideia de que "não podemos voltar atrás". E o que o mundo do espetáculo atravessa "tempos indescritíveis".

"A importância dos eventos teste vai para além da cultura. O nosso objetivo é trazer para o nosso setor uma possibilidade de podermos trabalhar de uma forma mais alargada do que as regras atuais permitem. O que se pretende com os eventos pilotos é conseguir estudos médicos para dar certeza as autoridades de saúde que, se as pessoas entrarem num evento testadas negativas - tal como na aviação -, se será possível ter mais gente e mais proximidade para garantir trabalho para uma atividade económica que está muito afetada", disse.

Notando que estes eventos-teste podem ser um instrumento usado por outros setores, como o turismo, Álvaro Covões sublinha também que o preço dos testes rápidos tem vindo a descer, o que facilita que, cada vez mais, mais pessoas sejam testadas. "É importante todos nos mentalizarmos que é fundamental usar a máscara. Não podemos voltar a confinar porque isto é uma desgraça. Para os espetáculos, é pior o abre e fecha".

Apoios

Desde o início da pandemia foram lançados apoios às empresas e ao emprego. Dois desses apoios foram o lay-off simplificado e as moratórias. Miguel Pina Martins, empresário e líder da Associação de Marcas de Retalho e Restauração (AMRR), defendeu que "as lojas são locais seguros". Mas como não são peritos nas questões sanitárias, diz, terem de compreender e aceitar as regras estabelecidas, mas "aquilo que é mais difícil de compreender é a falta de medidas de apoio para este fecho. O que costumo dizer é que estamos a ser expropriados", mas sem direito a indemnização.

O líder da AMRR explica que a associação tem vindo a pedir várias medidas de apoio "muitas delas sem custos para o contribuinte. A questão das moratórias das rendas e do crédito. As empresas do comércio e restauração já estão a pagar juros apesar de estarem fechados". "Nós tivemos, nos últimos 12 meses, praticamente seis meses fechados. E quando estivemos abertos, estivemos com limitações grandes. Os apoios que consideramos de forma muito importante, não se estão a repetir, como é o caso das moratórias", acrescentou.

As moratórias públicas, lançadas pelo governo, terminam em setembro para as famílias e empresas. Miguel Pina Martins, durante a sua intervenção, sustentou ainda que "a moratória que estamos a pedir, enquanto comércio, é até setembro. E essas estão aprovadas que é a questão do juro até setembro. Neste momento foi aprovado na generalidade na Assembleia da República uma proposta para prolongar todas até setembro. O que pedimos é que o que estão encerrados possam ter acesso a essa moratória".

Ainda sobre estes diferimentos de pagamentos que duram até setembro, Álvaro Covões salientou que "Portugal não vai ter a extensão das moratórias porque foi talvez dos países da Europa que menos apoio deu às empresas. O Conselho Europeu não consegue perceber porque é que nós pedimos a extensão das moratórias porque existia, e estava à disposição dos governos, ter mais défice e endividar e apoiar as empresas".

Por outro lado, Miguel Pina Martins considerou ainda que o programa Apoiar e o Apoiar Rendas são "positivos" mas têm uma "série de entraves que acabam por limitar as empresas que podem concorrer".

Retoma económica

Os cafés e restaurantes com serviços de esplanada podem reabrir a partir desta segunda-feira embora com limitações. É um primeiro passo, mas a recuperação da economia ainda não está aí. Os hotéis, tanto no primeiro confinamento como neste, não foram obrigados a fechar. A falta de procura ditou o fecho de portas e muitos assim continuam.

O grupo Minor tem 16 hotéis em Portugal, estando apenas três abertos neste momento. "Hoje vamos abrir outro no Algarve. Vamos abrir depois outro em breve. Diria que temos uma grande oportunidade de imagem que é a Moto GP e a F1 em meados de abril e maio, que vão ser duas alavancas muito importantes do ponto de vista de imagem para o nosso país e que temos de capitalizar ao máximo para que o verão venha, e com força e segurança, para que daí para a frente seja só recuperação e não haja de novo confinamento e retrocessos", defende Miguel Garcia. O gestor acredita que é possível uma retoma até setembro e não tem dúvidas que os "apoios são fundamentais para esta recuperação. Os hotéis não foram obrigados a fechar mas fomos estrangulados para fechar. Dependemos dois terços do nosso negócio vem de fora".

Com passos tímidos no caminho da retoma e consequente recuperação económica, os empresários consideram também que, aos primeiros sinais, o oxigénio que os apoios públicos têm dado não pode ser desligado. Questionado se, para o comércio, é mais importante ter apoios nesta altura, em que ainda estão fechados ou com possibilidade de venda mas com restrições elevadas, ou na reabertura, Miguel Pina Martins não esconde que os apoios têm de continuar.

"Agora é chave porque precisávamos de sobreviver. Precisamos de pagar às pessoas e não há tesouraria. Era importante que o lay-off simplificado que no ano passado durou um pouco mais que o fecho [dos estabelecimentos] porque as pessoas estavam com restrições de horários e o lay-off simplificado permite gerir muito mais facilmente as questões das restrições horários e apelamos que dure para além do dia 18 de abril, no caso das lojas que passam a abrir nessa altura".

Aveiro e Braga com esplanadas animadas

Com a Primavera nos seus primeiros dias, e com temperaturas amenas, muitos portugueses ansiavam por poder sair de casa. Esta segunda-feira almoçar ou jantar numa esplanada é possível e muitos não terão perdido tempo. Sofia Pinho e Melo é sócia-gerente de uma esplanada no Cais da Fonte Nova, ao lado da ria de Aveiro. Contou, em direto, que este último ano foi "um turbilhão de emoções". A empresária inaugurou o seu negócio cerca de um mês antes da chegada da pandemia, com cinco funcionários, "as pessoas que achávamos que precisávamos". Mas a pandemia trocou-lhe as voltas e "os contratos terminaram e não conseguimos renovar todos por causa da pandemia". Tratando-se este espaço de uma concessão municipal, Sofia Pinho e Melo não tem dúvidas que apoio municipal, que se refletiu na renda, "foi fundamental para conseguirmos sobreviver".

Com a esplanada cheia, a empresária confessou que tinha "algumas expectativas" e que contava com muitas reservas quer para almoços, quer para jantar. Em Braga, o sol também convidou a passeios e Mário Pereira, gerente de um restaurante com esplanada, confessou que a manhã "estava a correr bem". O empresário conta com uma equipa de 15 pessoas e deixou um pedido: "que nos deixem trabalhar. Espero que tudo corra bem e não" haja necessidade de voltar atrás e aplicar mais restrições.

Ana Laranjeiro é jornalista do DInheiro Vivo

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