Chineses querem comprar vinhas no Douro, hotéis e campos de golfe

Todos os meses, 20 empresas europeias são compradas por chineses. Alemanha está preocupada e pede travões a Bruxelas

Todos os meses, 20 empresas europeias são compradas por investidores chineses. Só em Portugal, entre 2011 a 2014, o investimento de Pequim ascendeu a 6,5 mil milhões de euros, catapultado pelas vendas da EDP, REN e Fidelidade. Vinhas no Douro, resorts com campo de golfe e prédios para renovar ainda chamam os grandes homens de negócios chineses a Portugal, atraídos também pelos vistos gold - uma porta de entrada na Europa. Mas os maiores negócios fazem-se agora na Alemanha. Neste ano, 25 empresas alemãs já passaram para mãos chinesas, negócios avaliados em oito mil milhões de euros - no total da Europa, até 15 de junho, eram 122. Angela Merkel está preocupada e pede travões à Europa.

Bruxelas, porém, não tem mecanismos que permitam travar o investimento chinês. A Comissão Europeia, questionada pelo DN/Dinheiro Vivo, lembra que "alguns Estados membros adotaram os seus próprios sistemas de filtragem, baseados na segurança e no interesse público". Mas avisa que são "exceções à livre circulação de capitais e, por isso, devem ser interpretadas de forma muito limitada".
Em vendas e fusões, os chineses investiram, no ano passado, 35 mil milhões de euros na Europa.

Fernanda Ilhéu, professora do ISEG e coordenadora do centro de apoio ao investimento ChinaLogus, não tem dúvidas: A "rentabilidade financeira e posicionamento estratégico" de alguns ativos, tal como "os baixos preços" apresentados, são os grandes fatores de atração de um investimento que assume várias vertentes: emigrantes com lojas, restaurantes e negócios de importação e exportação; "grandes empresas estatais como a China Three Gorges, dona da EDP, com uma visão estratégica e posicionamento global e investimento"; e grandes empresas privadas, como a Fosun, dona dos antigos seguros da Caixa (Fidelidade e Multicare), que são "encorajadas pelo governo chinês na estratégia de globalização".

Em Portugal juntam-se ainda famílias de classe média e alta que procuram as Autorizações de Residência para atividade de investimento, os conhecidos vistos gold.

"Na maior parte dos casos, o objetivo primordial dos investidores é o mesmo: o acesso dos filhos a uma educação internacional; a possibilidade de viver em cidades com baixo nível de poluição e com menos stress, sobretudo para os investidores oriundos das grandes cidades como Xangai, Pequim e Cantão [Guangzhou]", diz Sandra Fernandes, especialista em direito imobiliário na DCS Advogados.
Até maio foram atribuídos 2651 vistos a chineses, 77% do total de cartões dourados entregues desde outubro de 2012. Sérgio Alves, diretor-geral da Câmara de Comércio Luso-Chinesa, acha pouco.

"Decretámos um quadro interessante para o investidor privado, mas não fomos promovê-lo. Foram todos gerados por pequenas iniciativas de empresas chinesas que não impulsionaram o mercado. Não deveria ter trazido os grandes construtores chineses? E ter criado de facto um volume de investimento? Chegamos aos dois e três milhões a vender casitas de meio milhão cujo retorno para a economia portuguesa é difícil de medir."

Estamos a perder para Espanha, reconhece Sandra Fernandes, devido, essencialmente, ao atraso na aprovação dos pedidos de atribuição e renovações. "Mas o interesse mantém-se."
Miguel Farinha, partner da EY, assume que o ritmo de aquisições em Portugal abrandou. No ano passado não houve nenhum grande negócio. "Já assessoramos algumas transações de 2014 para cá, mas a dimensão é muito importante" e condiciona o interesse dos grandes grupos em Portugal. "Quando falamos numa faturação de dez milhões de euros sabemos que tem pouca expressão."

Em abril, Miguel Farinha foi em roadshow a seis cidades chinesas para apresentar mais de 50 oportunidades de negócio em Portugal. Reuniu-se com mais de 250 investidores e diz que "continuam muito interessados" no país. Em que áreas? "O imobiliário continua a receber a maior atenção. Não tanto os vistos gold, mas a reabilitação urbana."

Não é só: o turismo e a agroindústria também são muito procurados. "Querem marcas próprias em setores como o azeite ou o vinho; pedem para comprar grupos hoteleiros, uma rede já montada, com resorts e golfe, e têm muito interesse na indústria de maquinaria."

Há ainda um setor inusitado que não passa ao lado dos chineses: "Falam-nos bastante de futebol", numa altura em que se tenta dinamizar, também lá, este desporto com escolinhas de formação e novos investidores. Quem não sabe que o melhor jogador do mundo é português? "Muitas empresas chinesas acabam por abordar o turismo, a educação e até o futebol, quando promovem o nosso país na China."
Na Europa, os interesses são igualmente vastos. Miguel Farinha lembra que "estão muito interessados em história, castelos, palácios". Sérgio Alves completa: "É uma questão de reputação que vai da escala mais pequenina do chinês que compra uma quinta vinhateira no Douro a um castelo em França."

Os maiores investimentos de empresas chinesas têm mão do governo. É o caso do grupo HNA, que será dono de 23,7% do consórcio privado que comprou a TAP - o próximo grande negócio a fazer-se em Portugal -, e que já adquiriu a International Currency Exchange; a Swissport ou Ingram Micro. O Anbang comprou o emblemático Waldorf Astoria. E a Fosun, bem conhecida dos portugueses, que no ano passado adquiriu o Club Med, está à espera de autorização para comprar a construtora alemã WindMW.

Ser-se estatal, alerta Sigmar Gabriel, ministro da Economia alemão, desequilibra a concorrência com outras empresas. Preocupado, o governante pediu à UE medidas. Um mercado aberto não é "um mercado com intervenção de um Estado capitalista", defende.

Sérgio Alves, diretor-geral da CCILC, coloca-se ao lado dos chineses: "Algumas elites económicas têm conseguido travar muitas investidas chinesas. Por alguma razão só há carros europeus na Europa; a indústria automóvel alemã vai continuar a ter a sua coutada. Motinhas pode haver, os carrinhos não entram aqui", critica.

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