Certificado de vacinação é boa ideia para a hotelaria mas deve incluir testagem

Depois de perdas de mais de 3200 milhões de euros em 2020, e com poucas reservas a partir do segundo trimestre, hotelaria é favorável a um certificado que prove a vacinação, mas inclua também resultados de testes à covid-19.

Ahotelaria não escapa à dura realidade do turismo nacional. Depois de o setor ter perdido 3,2 mil milhões de euros em receita no ano passado, a Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) vê com bons olhos a criação de um certificado europeu que faça prova de quem está vacinado, mas também que apresente os resultados de testes à covid e, eventualmente, que indique se a pessoa está imunizada por ter contraído a doença. Desta forma, há a possibilidade de ampliar o leque de pessoas que teriam mais confiança para viajar, dando oxigénio ao turismo e hotelaria.

Cristina Siza Vieira, CEO da AHP, defende que estão a "equacionar" os sinais dados pela presidência portuguesa do Conselho da União Europeia, mas adverte que "temos de considerar que não é um certificado de vacina sem mais, porque isso excluiria de viagens um segmento importantíssimo", ou seja, os mais novos.

A meta da Comissão Europeia é que, no verão, cerca de 70% da população do Velho Continente esteja imunizada. A estratégia adotada pela maioria dos países é começar pelos profissionais de saúde, mais idosos e grupos de risco. A população ativa até aos 50 anos é da última a receber a vacina, mas a que mais poderá viajar. Por isso, a responsável da AHP defendeu ontem, em conferência de imprensa, que além da vacinação "apostaríamos mais na testagem massiva e sistemática; em fazer prova da testagem".

"Consideramos que é muito importante que haja garantias, salvaguardas e segurança em viajar. Este certificado sanitário pode tranquilizar quem recebe e quem viaja", diz, acrescentando que deve assentar nas seguintes premissas: "permitir a viagem de jovens não vacinados, mas testados, e de outros que estão imunizados porque tiveram a própria doença - também é muito importante".

No início da semana, a ministra da Saúde, Marta Temido, admitiu que a Comissão Europeia vai apresentar em meados deste mês uma proposta para um certificado de vacinação. Um documento que deverá conter informações como o estado vacinal, mas também eventualmente "outras informações importantes, por exemplo, quanto à circunstância de a pessoa já ter sido submetida a um teste [de diagnóstico da covid-19] e o resultado desse teste ou informação sobre se a pessoa já teve ou não covid-19".

O destino Portugal, até à pandemia, era muito procurado por estrangeiros, tendo em 2019 acolhido mais de 16 milhões de turistas não residentes. A pandemia levou o turismo interno a suportar grande parte da atividade no ano passado, uma tendência que poderá manter-se em parte neste ano.

Com as reservas, até ao momento, a não chegarem a 30% a partir do segundo trimestre deste ano, a associação que representa a hotelaria classifica assim como "uma boa notícia ter certificados" à escala europeia que incluam não só os vacinados, mas os cidadãos imunizados e os resultados dos testes, uma vez que "dá tranquilidade e parâmetros universais".

30% da oferta pode não abrir

A AHP realizou durante fevereiro um inquérito ao setor. Ao medir o pulso, concluiu que neste momento - reflexo do confinamento em Portugal e na Europa - grande parte das unidades hoteleiras estão fechadas. As previsões de reaberturas começam a descolar de níveis inferiores a 20% ao longo deste mês, sendo esperado que no arranque do segundo trimestre perto de 40% da capacidade hoteleira reabrirá portas.

Gradualmente, até junho, as estimativas apontam para reaberturas até 70%, devendo ser esse o nível até ao final de 2021. Ou seja, e de acordo com a AHP, há cerca de 30% da oferta hoteleira que ou não sabe se vai abrir ou não sabe quando o fará.
Apesar destas perspetivas de reabertura, os dados do inquérito mostram um nível baixo de reservas, possivelmente devido à elevada incerteza que existe quanto à evolução da pandemia, das medidas a implementar e da vacinação. Segundo a AHP, há nesta altura 14% de reservas para abril, 19% para maio, 23% para junho e julho e 24% para agosto.

Com uma perda de receita superior a 3200 milhões de euros em 2020, reflexo de uma perda de 65% das dormidas face ao ano anterior, apenas 1% dos inquiridos pela associação dos hotéis acredita numa retoma da atividade para níveis de 2019. A maioria - 48% - defende que alcançar os níveis anteriores à pandemia de covid deverá acontecer entre a segunda metade do próximo ano e o primeiro semestre de 2023.

Ana Laranjeiro é jornalista do Dinheiro Vivo

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