Carlos Tavares, o português que sempre quis chegar a número 1

Gestor português vai tomar conta do segundo maior grupo automóvel europeu com a fusão entre grupo PSA e a Opel. O negócio é anunciado hoje em Paris

"Qualquer pessoa apaixonada pela indústria automóvel chega à conclusão de que há uma altura em que há a energia e o apetite para ser número um." Em 14 de agosto de 2013, quando completou 55 anos, chegou a altura de Carlos Tavares reclamar a liderança num grande grupo automóvel mundial, satisfazendo a ambição que tinha assumido publicamente. O gestor português queria deixar de ser número dois do grupo Renault Nissan, chefiado por Carlos Ghosn. Em novembro do mesmo ano acabou por ser nomeado como presidente do principal rival do mercado francês, o grupo Peugeot Citroën (PSA). Esta é a história de um engenheiro que luta constantemente contra o tempo, seja na sede do grupo francês, em Paris, durante a semana, seja num circuito de automóveis ao fim de semana. A partir de hoje deverá liderar o segundo maior grupo automóvel europeu com a PSA a comprar a Opel ao grupo General Motors (ver caixa).

Carlos Tavares nasceu em Lisboa em 1958, mas desde sempre teve um olhar para França: a mãe foi professora no Liceu Francês e o pai, contabilista, trabalhou para uma empresa gaulesa. Não surpreendeu, por isso, a ida para Toulouse, em 1976, para prosseguir os estudos; no início da década de 1980, licenciou-se em Engenharia na École Centrale de Paris, uma das mais conceituadas a nível europeu.

Na altura, o português já vinha fascinado pelo automóvel. Enquanto adolescente, Tavares foi comissário de pista no Autódromo do Estoril. "A minha paixão era conduzir carros", recordou em entrevista à RTP em 2016. Reconhecendo que não tinha talento suficiente para entrar para a competição, o engenheiro deu a volta e serviu-se do "canudo" para experimentar carros em circuitos. Entrou em 1981 para a Renault como engenheiro de testes, onde ficaria durante mais de 30 anos.

Um antigo engenheiro desta marca reconheceu ao Le Monde em 2014 que o português é um presidente executivo especial: "É uma das poucas dezenas de especialistas mundiais que sabem tudo sobre um carro, desde o desenho à produção, passando pelo marketing. Caiu na área automóvel como o Obélix no caldeirão da poção mágica quando era pequeno."

Paixão por clássicos

Carlos Tavares casou-se e teve três filhas. A mais velha, Clémentine, nasceu em 1983 e dá o nome à equipa Clementeam, que permite ao português participar em corridas de automóveis em mais de metade dos fins de semana do ano. A mulher é responsável por toda a logística. "Ao volante, a única coisa em que penso é ir o mais depressa possível. Um circuito é uma lavagem ao cérebro", disse à Paris Match em abril de 2016.

Estas provas tanto são feitas em circuitos como em troços de ralis. Para isso, conta com uma garagem recheada de clássicos, como um Peugeot 504 V6 Coupé de 1979, um Alpine A110 de 1976 e um Porsche 912 de 1966, assinalou ao Financial Times em 2015, depois de participar no rali de Monte Carlo. A manutenção destes automóveis é feita também ao fim de semana de manhã, ao som de Phil Collins. Graças à paixão por carros clássicos, Tavares é sócio de uma empresa localizada em Viseu que restaura este tipo de veículos. Em Portugal, também são conhecidos os investimentos em áreas como a cortiça e a indústria do azeite.

A organização do tempo é sagrada para Carlos Tavares no dia-a-dia. Entre as 07.00 e as 08.00, enquanto viaja de casa para o trabalho, consulta os e-mails e faz chamadas. Às 08.30, começa a sequência de reuniões, que dura até às 18.00. Pelo meio, para um pouco para comer uma salada. Às 21.30 já está a dormir. Não sobra tempo para jantares sociais, ver filmes e séries. Só para meia hora de leitura diária.

Poucos gastos

Em março do ano passado, Carlos Tavares viu-se envolvido numa polémica por causa do salário anual de 5,24 milhões de euros, praticamente o dobro do que recebeu em 2015. Ainda assim, o líder da PSA é conhecido pela frugalidade: vendeu o avião privado da Peugeot e viaja sempre em económica, seja de avião seja de comboio; usa o mesmo relógio Tissot há 20 anos e não usa roupas caras.

Aos 57 anos, o gestor português prepara-se para dar a volta à Opel, que regista prejuízos há mais de dez anos. Nada que já não tenha feito desde que chegou ao grupo PSA, que passou a dar lucros depois da chegada do português à liderança.

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