Capitalizações bancárias exigiram 11,2 mil milhões aos acionistas

Valores apurados são desde 2007 até agora e ainda vão subir. Dos privados, BPI é o único que vale mais do que aquilo que pediu

Desde 2007, ano da eclosão da crise financeira, os principais bancos do sistema português recorreram aos acionistas para captar 11,2 mil milhões de euros em capital, valores que incluem BCP, BES, Caixa Geral de Depósitos e BPI. Estes valores, apesar de já elevados, ainda vão continuar a crescer.

O Millennium foi o banco que mais recorreu aos vários mecanismos existentes para levantar capital nos últimos anos, tendo ido buscar 4,3 mil milhões no período analisado, ao passo que o banco público surge, por ora, na terceira posição deste ranking, segundo os dados disponíveis da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) e os relatórios e contas das instituições, as fontes consultadas pelo Dinheiro Vivo. O BPI foi quem menos recorreu aos seus acionistas (ver textos ao lado).

Deste conjunto de bancos, o BES já não existe, mas a sua fatura persiste, e o BCP vale hoje menos de 25% do que a quantia que foi buscar junto dos investidores. E, tal como a CGD, vai pedir mais: a entrada da Fosun vai levar a uma nova injeção de capital, entre 300 e 500 milhões de euros, elevando ainda mais a conta e a diluição imposta aos acionistas, que já ascende a 94%.

Mas é sobre a CGD que paira a maior das parcelas por somar às contas. Aos 2,95 mil milhões de euros - 2,85 mil milhões em dinheiro - que o banco público solicitou aos acionistas (contribuintes) desde 2007, somar-se-á em breve uma exigência maior: a recapitalização que está a ser ultimada vai movimentar pelo menos 2,7 mil milhões em cash e a conversão de 900 milhões de CoCos em capital. Mesmo sem contar com a emissão de obrigações e a conversão da ParCaixa, também incluídas na operação, a fatura total do banco público atingirá os 6,5 mil milhões desde 2007 - ou 6,5% do PIB - superando nesse momento o total pedido pelo BCP.

Mas há ainda um outro banco cuja situação vai acabar por exigir o levantamento de mais capital, o ex-BES, hoje Novo Banco. "O montante de recapitalização do setor poderá ainda ser superior se nos lembrarmos, por exemplo, de que, uma vez alienado o Novo Banco, poderá ser decidido avançar com um processo de recapitalização", destaca Albino Oliveira, analista da Patris Investimentos, depois de questionado sobre os dados compilados pelo DV. Além disso, lembra, "o processo [de recapitalização] envolveu todo o setor", nomeando a quebra do BPN e "a situação do Montepio" como outros exemplos.

Dividendos: 20% do pedido

Mas além de exigirem capital aos acionistas, estes bancos também distribuíram algum, ainda que o "resultado líquido" destas contas tenha sido muito negativo para os investidores.

Olhando como um todo, os bancos considerados entregaram aos acionistas 2,28 mil milhões de euros em dividendos desde 2007, o equivalente a 20,4% das capitalizações recebidas. A torneira dos dividendos foi fechada em 2010 - ou 2011, no caso do BES - depois de as recomendações do supervisor para que este período fosse atravessado sem distribuição de lucros. E se estes 20,4% já parecem um retorno baixo, pior são para quem apostou no BCP e no BES: face ao dinheiro que levantaram, estes dois bancos "devolveram" 10,6% - no caso do BES pré-colapso -, e 13,8% no caso do BCP.

Em termos absolutos, o banco líder em dividendos foi a Caixa Geral de Depósitos, que desde 2007 entregou 1070 milhões aos contribuintes. Já em termos relativos, a liderança cabe ao BPI, que, tendo aumentado capital em 653 milhões, distribuiu 272,4 milhões.

Olhando para o rácio de dividendos distribuídos sobre o valor total de recapitalização, José Correia, gestor da corretora XTB, regista a boa performance do BPI, que pagou o equivalente a 42% do que pediu, peso que na CGD foi de 36%. "O BPI apresenta-se como um banco numa escala mais otimizada, conseguindo maximizar melhor o esforço acionista do que os seus concorrentes."

CGD: no limite

Tratando-se de um banco público a CGD não se encontra muitas vezes no radar dos analistas financeiros. Porém, e dada a análise comparativa e a importância do banco, a CGD e a sua recapitalização eram incontornáveis.

"Tem estado nos últimos tempos no limiar de incumprimento face aos rácios de solvabilidade exigidos pela UE e terá de reunir recursos mais líquidos para responder às diretrizes europeias", comenta o gestor da XTB, que destaca que no caso do banco público há muito mais em jogo do que dinheiro. "Uma vez que é a maior instituição bancária de Portugal e está associada ao Estado, o seu destino ganha ainda maior relevância para o panorama financeiro nacional", diz José Correia. Vê assim como "oportuno" que se reúnam todos os "recursos" para mostrar que a CGD está consolidada, algo que permitirá "uma maior flexibilidade de financiamento para os tempos vindouros e minimizará o risco de insolvência".

Já Albino Oliveira aponta que o banco público, "pela sua dimensão", dificilmente escaparia aos fatores que penalizaram o setor, referindo-se à "forte concessão de crédito no passado e ao aumento dos ativos em incumprimento após a crise financeira, crise da dívida e da forte recessão" portuguesa.

Sobre os valores das recapitalizações, o analista explica que são o reflexo das "fortes dificuldades" que a banca tem atravessado nos anos recentes, em que a "crise financeira" e a "crise da dívida soberana" levaram "a economia a uma forte recessão". E o impacto destas foi ainda maior do que o valor das recapitalizações mostra. "Os bancos também avançaram com a venda de ativos e com a redução de custos. Contudo, em muitas situações, estas duas soluções acabaram por não se revelar suficientes por si só." E nada disto é exclusivo de Portugal, adverte, lembrando a desvalorização do principal índice europeu de bancos, hoje "mais de 70% abaixo dos seus máximos de 2007".

Por fim, aponta o analista da Patris Investimentos, um outro fator criou pressão adicional sobre os bancos: "A regulação tornou-se mais exigente após a crise financeira, o que também acabou por reforçar as necessidades de recapitalização."

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