Viajar de avião está a ficar mais caro. A escalda dos preços do petróleo e o aumento do jet fuel (combustível utilizado nos aviões) têm sido agravados nas últimas semanas, à boleia da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Várias transportadoras aéreas já reagiram com o aumento dos preços praticados nas viagens, através da aplicação de uma sobretaxa de combustível..Para já, a subida das tarifas ainda não desmotivou a procura por viagens aéreas, indicador que tem estado a evoluir a um ritmo otimista na fase pós-pandemia. Mas o cenário pode mudar rapidamente. A despesa com combustível representa uma fatia de aproximadamente um terço dos custos operacionais das companhias de aviação que, vendo a fatura disparar, estão a castigar as tarifas pagas pelo consumidor final.."Para se ter uma ideia do peso do combustível, vale cerca de 20% dos custos de hora de voo das companhias aéreas. E, pese a maioria das companhias aéreas terem políticas que permitem suavizar o efeito do aumento do custo de combustíveis a curto prazo, através da redução da exposição à volatilidade do mercado, a médio-longo prazo os efeitos serão inevitáveis", explica Paulo Geisler, presidente da Associação das Companhias Aéreas em Portugal (RENA)..Para o responsável uma das consequências da escalada do preço do petróleo será a redução de oferta em rotas com uma quebra do número total de voos a operar. Quanto ao aumento do preço das viagens, irá demorar até seis meses para pesar no bolso dos passageiros.."O aumento [dos preços] é inevitável. Muitas companhias conseguem fechar contratos de derivados sobre os combustíveis que permite manter o preço estável durante alguns meses mas inevitavelmente esses contratos terminam e os novos preços de combustíveis que incidirem sobre os operadores serão transferidos para os passageiros. Ou seja, podemos esperar entre quatro a seis meses para ver o aumento dos preços a ser transferido para os passageiros", antecipa..Mas nem só as viagens ficarão mais caras. O presidente da RENA alerta também para a subida dos preços das mercadorias. "O transporte de carga, que não tem no transporte aéreo o mesmo peso que no transporte marítimo mas ainda assim é relevante, especialmente em produtos mais valiosos e produtos perecíveis, também aumentará o custo do frete, o que representará um aumento do custo total dos produtos para o consumidor", diz..A TAP admitiu na semana passada que os bilhetes vão ficar mais caros entre três a 25 euros, resultado da subida da sobretaxa de combustível aplicada pela companhia. "A curto prazo, é inevitável que os preços das viagens aumentem",explicou a transportadora de bandeira..A Air France-KLM, que voa a partir de Lisboa, Porto e Faro, afina pelo mesmo diapasão e confirma ao Dinheiro Vivo que "está a aumentar todas as suas tarifas de longo-curso", sendo que o valor desta subida varia conforme o destino e a classe da viagem. "Por exemplo, num voo de ida e volta entre Paris e um destino nas Caraíbas, o valor [a mais] na Economy Class é de 40 euros"..Também a low-cost Transavia, que integra o grupo franco holandês Air France-KLM e que voa em todos os aeroportos portugueses, admite seguir o mesmo caminho. "Com o aumento do custo dos combustíveis, e à medida que avançamos, não estamos a descartar a possibilidade de subidas nos preços dos bilhetes. Permanecemos muito vigilantes sobre como a situação evolui", esclarece..Já a Delta Air Lines, que liga Lisboa aos Estados Unidos, atesta ao Dinheiro Vivo que "está bem posicionada para gerir o crescente aumento dos preços dos combustíveis". "Os investimentos que temos feito para melhorar a eficiência do combustível, retirando aviões menos eficientes, operando aviões de última geração com maior eficiência de combustível, mas também a implementação estratégica da frota e as modificações das aeronaves, tornaram a Delta na mais eficiente em termos de combustível entre as transportadoras de rede"..Ainda assim, viajar na empresa americana vai pesar mais na carteira. O CEO da Delta Air Lines Ed Bastian, admitiu, em declarações à imprensa internacional e citado pelo económico Financial Times, que os custos mais altos do combustível se iriam repercutir num aumento dos preços dos bilhetes. O presidente da companhia, Glen Hauenstein, acrescentou que as tarifas podem subir entre 15 a 20 dólares por bilhete, em bilhetes de 200 dólares..Também com operação em Portugal, a United Airlines publicou no passado dia 15 de março um relatório com as perspetivas financeiras para 2022. No documento, admitiu que irá, para já, reduzir a sua oferta em consequência de "vários fatores macroecómicos" como o aumento do preço dos combustíveis e os atrasos na entrega de aviões. Ao Dinheiro Vivo a transportadora americana não nega uma eventual subida nas tarifas dos bilhetes."Avaliaremos de perto nossos preços para tomar as melhores decisões para a operação e para os clientes", garante..Por enquanto ainda há tarifas que se vão manter intactas. De fora das companhias aéreas que decidiram aumentar os preços das viagens ficam a SATA, a easyjet e a Ryanair..A transportadora aérea açoriana admite que "o aumento do preço do combustível impacta a operação das companhias aéreas do grupo, SATA Air Açores e Azores Airlines" e que este impacto tem sido mitigado "através de maior esforço de poupanças em outras áreas, na busca de contínua eficiência na operação aérea"..A companhia exclui uma subida de preços, para já. "Esta solução tem os seus limites e acaba por resultar no aumento do preço final da viagem, o que pode acarretar, de igual forma, a perda de receita, face à indisponibilidade, por parte dos clientes, de acompanharem o aumento do custo final das passagens aéreas". Contudo, se o cenário da escalada dos preços dos combustíveis se prolongar "essa posição terá de ser reequacionada", garante a SATA..A easyjet assegurou que também não irá mexer nos preços uma vez que está focada em retomar os níveis de procura pré-pandemia. "Devido à nossa política de hedging não sentimos qualquer impacto nos nossos custos. Estamos ainda numa fase de estímulo da procura e é importante continuarmos a fazer esse trabalho para que o início deste Verão exista este recomeço e a retoma da procura para que consigamos atingir níveis pré-pandémicos", afiançou o diretor-geral da companhia aérea britânica para Portugal, José Lopes, em conferência de imprensa na semana passada..Já irlandesa Ryanair anunciou, em comunicado, que tem cobertas perto de 80% das suas necessidades de combustível até março de 2023. "E assim garante que continuará a repercutir as tarifas mais baixas de/para os seus seis aeroportos em Portugal, com uma garantia de zero sobretaxas de combustível para o Verão 2022",disse..Do lado das agências de viagens, a procura por férias para a Páscoa e para o Verão está bem e recomenda-se. "Até ao momento, não há registo de aumentos. Os preços estão bastante competitivos, seguindo a dinâmica da oferta e da procura. As vendas estão a "mexer" mas, naturalmente, abaixo do potencial e mesmo dos números pré-conflito", refere Pedro Costa Ferreira presidente da Associação Portuguesa de Agências de Viagens e Turismo (APAVT)..O representante das agências de viagens em Portugal garante que a escalada dos preços dos combustíveis e o aumento dos bilhetes por parte das companhias aéreas ainda não tiveram "impactos relevantes" mas assume que o jogo pode mudar.."Se escalada continuar, com impacto elevado nos suplementos de combustível, então pode causar alguma retração, nomeadamente nos programas mass market. Quando as companhias aéreas aumentam a taxa de combustível, as agências de viagens ao emitir passagens aéreas, repercutem de forma natural este aumento. Até à data, nas operações charter, estes aumentos ainda não são visíveis", reitera..Pedro Costa Ferreira fala numa procura ainda aquém da de 2019 mas, para o Verão está "a aproximar-se, de forma efetiva, das dinâmicas pré-crise"..Cabo Verde, Tunísia (Djerba, Monastir), Marrocos (Saïdia), Egito, Ilhas Espanholas e a Disneyland têm reunido as preferências dos portugueses na hora de comprar as próximas férias. "No longo curso, as Caraíbas estão com muito bom comportamento e cá dentro, Porto Santo continua estrela", aponta o presidente da APAVT..Rute Simão é jornalista do Dinheiro Vivo