Alemanha defende "solidariedade". Holanda pede "condições. Eurogrupo volta quinta

Trabalhos foram suspensos esta quarta-feira de manhã após 16 horas de videochamada. São retomados amanhã.

Mário Centeno decidiu esta quarta-feira de manhã suspender os trabalhos do Eurogrupo, ao fim de 16 horas de videochamada, convicto que agora os ministros das finanças estão "mais próximos" de um acordo, para "uma resposta ousada ao surto de Covid-19".

Mas, numa altura em que todos estão de acordo que são precisas soluções rápidas, adequadas e com dimensão proporcional à pandemia, a União Europeia continua presa em si própria, incapaz de tomar a decisão no momento certo.

As posições continuam extremadas. E, os protagonistas do braço de ferro também não mudaram. O ministro holandês das Finanças, que há duas semanas fez declarações que António Costa considerou "repugnantes", procurou na reunião desta madrugada apresentar um discurso mais polido, do ponto de vista da solidariedade. Mas, nem por isso se mostrou mais aberto a uma solução que para a maioria dos países da zona euro seria a mais adequada, como resposta à crise do coronavírus.

Por um lado, Wopke Hoekstra admite que o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MES) pudesse ser "utilizado incondicionalmente, para cobrir despesas médicas". Mas, em sentido contrário, continua a achar que o modelo de compromisso apresentado por Mário Centeno, para financiar os Estados através deste mesmo mecanismo, carece de "condições" associadas.

Por outras palavras, o ministro considera que o recurso ao financiamento do Mecanismo Europeu de Estabilidade deve ter um programa de ajustamento associado. Mas, países como Itália, ou Espanha veem nesta medida um sinónimo de austeridade, contrária ao espírito de um plano que dê aos países capacidade de se financiarem, depois da pandemia.

Sobre os eurobonds, Hoekstra é ainda mais incisivo, declarando-se liminarmente "contra". Considerando que a ideia defendida por vários governos, entre eles os português, "criará mais problemas do que soluções para a União Europeia".

"Teríamos de garantir dívidas de outros países que não sejam razoáveis", afirmou o ministro holandês, assegurando que "a maioria do Eurogrupo partilha desta opinião e não aprova os Eurobonds".

Mas, em Itália, o ministro Roberto Gualteri defendeu a medida, na reunião, considerando que o momento exige uma "responsabilidade partilhada, de solidariedade e de escolhas corajosas", que por agora, continuam adiadas.

Gualtieri fala especificamente da "mutualização de dívida". Esta é a condição que o italiano quer ver escrita nas conclusões do Eurogrupo.

A Alemanha tem tradicionalmente manifestado oposição a qualquer forma de mutualização de dívida. Mas, numa declaração divulgada antes da reunião do Eurogrupo, o ministro alemão das Finanças, Olaf Scholz não aborda explicitamente o tema, mas também não se opõe, considerando até que deve ser pensada a reconstrução da Europa "em solidariedade".

"Precisamos de uma perspetiva após a crise, para quando todos os países conseguiram superar os desafios da saúde, quando a economia for lenta, e a vida social for mais ou menos como era antes da pandemia, será uma questão de fortalecer a Europa novamente, para que a economia possa crescer rapidamente e em qualquer lugar", afirmou.

O ministro chega mesmo a afirmar que "não deve haver disparidades e, portanto, será importante que nos comprometamos a desenvolver o que a Europa deve fazer para reconstruí-la em solidariedade".

"Penso que é absolutamente claro que a recuperação da Europa será uma atividade muito grande", afirmou já esta manhã, depois de reunião do Eurogrupo, admitindo que o trabalho "conjunto" que é "absolutamente possível dentro da estrutura que já temos".

"Faz muito sentido, por exemplo, discutir [a recuperação da Europa], se isso pode ser feito dentro da estrutura do próximo Quadro Financeiro Plurianual", afirmou, parecendo afastar-se da ideia da mutualização de dívida.

Em França, o ministro Bruno Le Maire, associou-se ao alemão Olaf Scholz, esperando que "todos os Estados europeus enfrentem desafios excepcionais para chegar a um acordo ambicioso".

O quebra-cabeças sobre o financiamento aos Estados ficou por resolver, no final de uma reunião que, na prática se dividiu em múltiplos encontros bilaterais, através de chamadas de vídeo, entre os ministros.

Centeno abriu os trabalhos propondo que esta medida seja conseguida através de linhas de crédito do mecanismo europeu de estabilidade. No início da sessão por video-conferência, o português que lidera o eurogrupo propôs também que fosse criado uma rede de segurança para os trabalhadores, através de um programa de 100 mil milhões de euros com verbas europeias e um plano de segurança para as empresas, através de uma garantia de 200 mil milhões do Banco Europeu de Investimento.

Sobre estes pontos é mais fácil fechar um acordo, mas na quarta vez que os ministros se encontram desde que o vírus contaminou a Europa, ainda não há um consenso sobre a forma de enfrentar os "níveis de dívida colossais", como admite Centeno, que os estados vão acumular, após a pandemia.

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