Sozinho há um mês, Nuno Campos relata "guerra" contra inimigo invisível

Itália

Sozinho há um mês, Nuno Campos relata "guerra" contra inimigo invisível

O treinador adjunto de Paulo Fonseca na Roma está há um mês sozinho em isolamento. Ao DN diz como os italianos lidam com o coronavírus, tem dúvidas quanto ao regresso dos campeonatos e avisa que será preciso um mês de treinos antes de as equipas voltarem a jogar.

A Itália é o país da Europa mais afetado com a pandemia de coronavírus. Os mais de 14 mil mortos e os quase 120 mil infetados são bem a imagem da tragédia que está a marcar um povo. "Isto é quase uma guerra contra um inimigo que não existe", assume Nuno Campos, treinador adjunto de Paulo Fonseca na AS Roma, que ao DN explica como é estar no meio deste pesadelo sem fim à vista. A viver em Trigoria, pequena localidade a cerca de 20 quilómetros da capital italiana, bem perto do centro de treinos do clube, Nuno Campos está em isolamento há um mês por causa do surto de covid-19 e diz que nunca imaginou viver uma situação destas.

"As coisas estão mais complicadas no norte de Itália, mas aqui em Roma também há muitos infetados [mais de 2500 só na cidade] e por isso há um conjunto de medidas restritivas que temos de cumprir. Só se pode sair de casa para ir ao supermercado ou à farmácia", começa por dizer o antigo futebolista, de 44 anos, que só sai para "andar um pouco à volta do quarteirão" e para ir às compras: "Felizmente tenho um supermercado mesmo ao lado de casa, mas só entram quatro pessoas de cada vez."

O técnico admite sentir "algum receio" cada vez que vai à rua, sobretudo quando tem de ir às compras. "Vou sempre com máscara e luvas de proteção, como todas as pessoas que aqui cumprem todas as recomendações. Por exemplo, nas filas para o supermercado a distância de dois metros é respeitada e, quando vamos na rua, sentimos que as pessoas se afastam umas das outras", refere, acrescentando que na zona onde mora, onde antes havia muita movimentação por causa do comércio, "agora não se vê ninguém nas ruas".

Família em Portugal obriga a isolamento solitário

O maior problema do técnico da AS Roma acaba por ser a solidão. "Estou em casa sozinho, pois a minha família está no norte de Portugal. Quando os campeonatos pararam já não pudemos viajar, como tal, fiquei aqui sozinho", conta, admitindo que é uma situação "complicada", pois está "há pelo menos um mês" em isolamento.

Além de "trabalhar um pouco", Nuno Campos procura manter-se ocupado. "Tento ler, faço exercício, embora não seja fácil em casa e sozinho, acompanho as notícias e vou dando uma perninha na cozinha, mas apenas faço as coisas mais simples... não me aventuro além disso", revela, destacando a "grande cooperação" que o clube tem dado aos treinadores e, sobretudo aos jogadores "para que não tenham de sair de casa".

Aliás, sair de casa é algo que, tal como em Portugal, está vedado por causa do estado de emergência, mas as restrições são maiores. "Aqui as pessoas têm de ter um documento que as autoriza a circular na rua para irem para os seus locais de trabalho. Eu, por acaso, não preciso porque vivo perto do centro de treinos, mas quem mora longe do trabalho tem de andar com esse documento assinado pela entidade patronal", explica, lembrando que quem não cumprir "paga uma multa, que agora até foi aumentada para 200 e tal euros".

"Ninguém imaginava algo deste género", desabafa Nuno Campos que até chegou a prever que o país poderia viver um período difícil. "Quando surgiram os primeiros casos em Itália, pensei que poderíamos atingir uma situação fora do normal e até comentei com a restante equipa técnica... até gozavam comigo por ser tão pessimista", recorda, mas o tempo veio confirmar o pior dos cenários: "De repente o vírus instalou-se e a situação tornou-se bastante grave."

Nuno Campos considera que o coronavírus está a provocar uma tragédia em Itália porque a situação se descontrolou na zona de Milão, na Lombardia. "É uma região de muitas grandes empresas e fábricas, onde há sempre muitos estrangeiros, especialmente chineses, que participam em feiras comerciais e acredito que foi isso que tornou aquela zona a mais afetada", admite o técnico, que "felizmente" não conhece ninguém vítima do vírus, lembrando que "quando foram conhecidos os primeiros casos, já havia muitos infetados".

Regresso aos treinos era para ser este sábado

Desde que foram decretadas as medidas de isolamento que a equipa técnica da Roma formada ainda por Nuno Romano, Pedro Moreira e Tiago Leal não está junta. "Moramos longe uns dos outros, por exemplo o Paulo Fonseca mora mais perto do centro de Roma, eu estou em Trigoria, que é um pouco afastado mas junto ao centro de treinos do clube", diz, assegurando, no entanto, que estão em contacto permanente.

"Continuamos a trabalhar com a coordenação do Paulo, mas falamos à distância. Eu, por exemplo, tenho visto alguns jogadores que possam interessar à Roma no futuro, o Nuno Romano [preparador físico] é quem trabalha mais com os jogadores nesta altura, juntamente com o departamento médico, para que eles cumpram o programa de manutenção dos níveis físicos", explica.

Ainda assim, o regresso é uma incógnita. "Não sabemos quando podemos voltar, mas não devemos fazê-lo sem que a situação esteja controlada em Itália", assume, revelando que a data do regresso ao trabalho está na iminência de voltar a ser adiada. "Éramos para ter voltado a 23 de março, mas tivemos de adiar para o dia 4 de abril [este sábado], mas será difícil e vamos ter de adiar novamente", diz, explicando que "a direção do clube tem mantido contacto com as instituições governamentais para ter toda a informação sobre a situação".

"É preciso um mês de treinos antes de voltar a jogar"

A UEFA já informou as federações que pretende ver os campeonatos nacionais terminados e, para tal, eles teriam de recomeçar, pelo menos, no início de junho. Nuno Campos mostra-se pouco convencido que isso será possível. "O número de mortos e infetados em Itália e Espanha são os mais assustadores da Europa, por isso desconfio que seja possível cumprir essas datas para acabar as competições no verão", começa por dizer, deixando claro que "todos querem regressar o mais depressa possível à vida normal".

No entanto, "hoje é complicado fazer previsões otimistas", embora admita que a "esperança" mantém-se porque "todos querem acabar o campeonato", que foi interrompido à 26.ª jornada, com a Roma a ocupar o 5.º lugar, a 18 pontos da líder Juventus, de Cristiano Ronaldo.

O assistente de Paulo Fonseca deixa, no entanto, o aviso que os clubes vão precisar de "fazer uma nova pré-temporada antes de voltar a competir". "Acredito que será preciso à volta de um mês para colocar os jogadores em condições", assume.

Quando o plantel voltar ao centro de treinos de Trigoria, Nuno Campos diz que será preciso "fazer, em primeiro lugar, uma avaliação dos índices físicos de cada atleta" para depois se poder avançar para um outro tipo de trabalho que permita a equipa responder bem a uma fase de "jogos consecutivos, próximos uns dos outros, que exigirá muito dos atletas em termos físicos". "Quanto mais tempo durar esta paragem, maior terá de ser a pré-época", assume.

Afeto e carinho "vão voltar" ao dia a dia

"Isto é uma situação pior do aquela a que estamos habituados nas férias de verão. É verdade que agora, com o sistema de GPS e com os vídeos, sabemos que os jogadores estão a cumprir os planos de treino em casa, mas, por exemplo, há jogadores que vivem em apartamentos e não podem trabalhar em espaços grandes, o que limita os exercícios de resistência", explica Nuno Campos, acrescentando é esse trabalho que é preciso fazer "para regressarem à competição".

Apesar da enorme vontade em voltar a trabalhar, Nuno Campos admite que esta é uma situação que "vai deixar marcas" em toda a gente, mas acredita que terá aspetos positivos. "A vantagem é que vai contribuir para que as pessoas adotem, no imediato, as regras de higiene e de aproximação aos outros", diz, embora acredite que os italianos e os portugueses voltem a ser povos "afáveis e de grande contacto social, o que não é bom numa situação destas de pandemia".

"Com o tempo vai voltar tudo à normalidade, afinal todos vivemos do afeto e do carinho e, como tal, será bom voltar a abraçar aqueles que nos são mais próximos", frisa.

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