Silas. Afinal qual é a importância do curso de treinador?

Polémica entre o Sporting e a Associação Nacional de Treinadores de Futebol por causa da escolha do técnico levanta a questão sobre a importância da credenciação e o direito ao trabalho.

Jorge Silas foi o eleito para treinar o Sporting e a decisão não agradou a José Pereira, presidente da Associação Nacional de Treinadores de Futebol (ANTF), que apelidou a contratação de "ridícula", dado que o técnico só tem o 3.º nível do curso de treinadores e não o 4.º como contempla a lei das competições. A declaração levou a uma feia troca de comunicados entre o Sporting e a ANTF, com argumentos de parte a parte. Mas, afinal, qual é a importância do 4.º nível? E o que realmente se aprende?

O curso de treinadores tem a duração de 360 horas, com uma estrutura curricular que vai desde a metodologia do treino a aspetos técnico-táticos, desenvolvimento das capacidades motoras, psicologia aplicada ao futebol, passando por arbitragens e leis do jogo e comunicação e imagem, sem esquecer a prática (ver infografia). "Serve para trabalhar com seleções nacionais e equipas profissionais. Mas a formação não acaba com o 4.º nível. Em cada triénio, todos os treinadores, sem exceção, estando ou não a trabalhar, sendo campeões nacionais, europeus ou não, são obrigados a renovar a sua credencial através de cursos de 15 horas, realizados no âmbito da UEFA ou nas respetivas federações. O 4.º nível não é o fim dos cursos de formação dos treinadores, mas sim um trajeto de continuidade. A ideia é que se aprende durante toda a vida e não o que se aprendeu serve para toda a vida", explicou ao DN Jorge Castelo, formador dos cursos da federação (FPF) durante 18 anos - saiu em 2016 quando foi convidado para adjunto de Mano Menezes.

Para o responsável pela reestruturação dos cursos há quase duas décadas e professor da cadeira de Metodologia de Treino e Técnico-Tática (duas das mais importantes para a nota final), até os que já têm experiência aprendem sempre alguma coisa: "Mesmo quando a matéria em análise possa ser considerada conhecida ou redundante, no mínimo aprende-se a ouvir os outros, outras opiniões e ideias. Como referia Einstein, a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original."

Os ex-jogadores têm equiparação com os primeiros níveis. Mas, para Jorge Castelo, ser futebolista não significa estar mais bem preparado, assim "como um doente crónico não dá um excelente médico por conhecer doenças do ponto de vista teórico e prático". Se assim fosse, CR7 tinha o futuro garantido no banco: "Ronaldo, quando deixar de ser jogador, será o próximo selecionador nacional? Não receberá inúmeros convites de diferentes clubes para tal função? O melhor jogador do mundo por cinco vezes não merecia desde já o diploma de 4.º nível de treinador de futebol? Quem se atreve a dizer que não? A resposta é simples: o regime de acesso à atividade de treinador, tanto em Portugal como em todo o mundo."

A mais-valia dos cursos está à vista de todos. "Não vale a pena glorificar o facto de mais de 200 treinadores portugueses trabalharem no estrangeiro e simultaneamente criticar o sistema de acesso a essa possibilidade em virtude da existência de um regime à atividade de treinador", defende Castelo.

A necessidade de credenciação divide os vários setores do futebol e a situação de Silas não é virgem em Portugal - Sérgio Conceição e José Mourinho passaram pelo mesmo - nem na I Liga - Sandro, do V. Setúbal também apenas tem o 3.º nível -, e até no Sporting. Em 2005 Paulo Bento foi eleito para orientar os leões sem ter as habilitações completas. Na altura, a solução foi Carlos Pereira aparecer na ficha de jogo como treinador principal, porque era o único da equipa técnica com o 4.º nível.

O antigo adjunto de Paulo Bento garantiu ao DN que não se sentiu desprestigiado por lhe pedirem para ser adjunto de alguém que tinha menos qualificações do que ele. "Não foi desprestigiante. Havia muita gente para o meu lugar, mas escolheram-me. Servi o Sporting. A minha paixão pelo clube falou mais alto e nunca me senti posto de lado. Fazia parte da equipa técnica, participava nas reuniões, na preparação dos jogos, nas observações, sempre tive voz ativa e não foram poucas vezes em que o Paulo pediu e escutou as minhas opiniões", explicou.

Para o treinador, "por vezes ter o 4.º nível é uma questão de fazer um curso, é apenas um diploma e não altera a capacidade do treinador". "A competência não se mede por aí", disse ao DN, lembrando que também é preciso perceber que dando oportunidade a quem não tem o curso exigido tira lugar a quem se capacitou para tal: "É um facto que há muitos treinadores competentes com o 4.º nível que não têm essa oportunidade, mas aqui entra o livre-arbítrio de quem escolhe."

Várias queixas na Federação e na Liga

José Pereira rebate as críticas de que só agora se tenha lembrado da falta de habilitações de Silas, que na época passada e neste ano até à quarta jornada estava nessa condição no Belenenses SAD. "Dos casos que temos conhecimento fazemos sentir a irregularidade junto da Federação ou da Liga. Alguns são punidos de uma forma, outros de outra. As regras da Federação para o Campeonato Portugal são diferentes das da Liga que regem a I e a II Liga", explicou ao DN o presidente da Associação.

O dirigente diz que defende todos os treinadores, mas não pode "defender quem não esteja habilitado para tal", senão, "daqui a pouco aceita-se qualquer um que se autointitule treinador". E pede responsabilidade, lembrando que a regulamentação é pública e do conhecimento de toda a gente, por isso só prevarica quem quer: "Eu tenho carta de condução e isso não me dá o direito a conduzir um autocarro, com os treinadores é igual. Alguns arriscam e ficam sujeitos."

Segundo a lei, o técnico principal e o adjunto podem até trocar de papéis desde que durante 90 minutos (duração de um jogo) o que não tem curso fique sentado no banco e não dê instruções dentro da área técnica. Ou seja, toda a gente sabe quem manda, quem é o treinador principal, quem orienta a equipa, quem faz a equipa... só não pode ser visto a orientá-la durante o jogo. A "culpa" é dos regulamentos, diz o líder da ANTF, lembrado que há coisas que só mudam se os clubes e a Federação quiserem. Na FPF as coisas decidem-se em assembleia geral de associações, mas a regulamentação dos campeonatos profissionais é decidida pelos clubes, que por vezes "têm outros interesses". E para "isto não descambar a legislação tem de ser mais apertada". Para José Pereira, uma multa de 150 euros por jogo só ajuda a "perpetuar a ilegalidade".

A nível da UEFA as condicionantes são mais pesadas. Por não ter a qualificação exigida, Silas não pode por exemplo ir às conferências de imprensa de antevisão e pós-jogo. E, se prevaricar, arrisca um castigo pesado do organismo, a exemplo do que aconteceu com Musayev, do Krasnodar, que foi suspenso por um ano.

A responsabilidade de verificar se está tudo conforme a lei é do árbitro e do delegado ao jogo, que devem reportar no relatório qualquer anormalidade na ficha de jogo... que depois é verificada pela Liga (I e II Liga) e pela Federação (campeonatos amadores) e dão origem a processos. O problema é que toda a gente tem interesse em fazer vista grossa e a situação arrasta-se de ano para ano. São muitas e várias as formas de contornar a lei e por isso os clubes recorrem a artimanhas para terem quem querem no comando das equipas. Há equipas que inscrevem o treinador como delegado, outros como auxiliar técnico, mas a maior parte opta por o inscrever como adjunto, como no caso de Silas.

P&R: Curso em maio de 2020 com 20 vagas

1 - Quando se realiza o próximo curso de 4.º nível?

Neste momento não existe 4.º nível em Portugal (Lei 40/2012 de 28/8); existem os cursos UEFA "C" (internacional) = Grau I (nacional), UEFA "B" (internacional) = Grau II (nacional), UEFA "A" (internacional) = Grau III (nacional) e ainda o curso UEFA "Pro" (que não tem equiparação nacional). Com as alterações à Lei n.º 40/2012, de 28/agosto, introduzidas pela Lei n.º 106/2019, de 6 de setembro, e a entrar em vigor em 6 de março de 2020, passará a haver também um Grau IV (a equivaler ao UEFA "Pro")

2 - Já abriram as inscrições?

Como a nova legislação só entrará em vigor em 6 de março do próximo ano, não há ainda inscrições abertas.

De quanto em quanto tempo há cursos? E porque não há todos os anos?

Atendendo a que foi realizado um curso "Pro" em 2018 e que a UEFA autoriza a realização de um curso de dois em dois anos, está prevista a realização de um curso em maio de 2020.

Quem tem preferência e quantas vagas há?

Há 20 vagas, por determinação da UEFA, e há requisitos de acesso e critérios de desempate em caso de mais de 20 candidatos. Um dos 11 critérios é: ex-jogadores(as)que realizaram pelo menos sete épocas desportivas completas como profissionais nas divisões de topo de federações membros da FIFA ou da UEFA.

Quem organiza, quem é o diretor do curso e quem são os professores e que cadeiras se ensinam?

A FPF organiza o curso com supervisão da UEFA. O diretor pedagógico do curso é Arnaldo Cunha. As disciplinas são: Metodologia do Treino, Técnico-Tática, Capacidades Motoras, Psicologia Aplicada ao Futebol, Arbitragens e Leis do Jogo, Gestão e Organização, Comunicação e Imagem. Além disso, há aulas práticas nos clubes, uma visita de estudo, análise de jogo e teses. O corpo docente é formado por Rui Mâncio, António Natal, José Magalhães, João Brito, Pedro Almeida, João Ferreira, Luís Miguel Cunha, Nuno Moura, Germano Almeida, Carlos Daniel, Arnaldo Cunha, Ricardo Santos.

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