Ronaldo, os impostos, os salários e a "traição" do Real Madrid

"A verdade escondida da saída de Ronaldo" é o título do trabalho extenso que o El Mundo publica este domingo, onde conta como a vontade de deixar o Real Madrid se começou a desenhar numa tarde na casa de Jorge Mendes onde chamou advogados e assessores. Agastado, quis saber porque não foram pagos os seus impostos

Na tarde de 11 de maio de 2017, Cristiano Ronaldo mandou chamar toda a gente de confiança, assessores e advogados. Ele, homem simples e sem estudos - fez questão de assumi-lo -, queria saber quem era o culpado pelos problemas com o fisco espanhol. Quem é que não tinha feito o seu trabalho? "Eu nunca disse para não se pagar impostos! Quero saber o que se passou! Não percebo nada, os impostos são pagos pelos patrocinadores. Porque me acusam a mim?"

Ronaldo sentia-se ferido no seu orgulho: o fisco espanhol estava a acusá-lo de cometer crimes fiscais e isso ele não podia aceitar. O tesouro pedia para o melhor jogador do mundo uma multa 18,8 milhões e uma pena de prisão de dois anos. O acordo viria a ser assinado nos finais de julho deste ano, mas Ronaldo foi obrigado a assumir quatro crimes fiscais.

Não aceitava de todo ser apontado como um criminoso. E foi isso que disse àqueles a quem paga muito bem para não ter este tipo de problemas. A reunião decorreu na casa de Jorge Mendes, o todo poderoso agente futebolístico, no luxuoso condomínio de La Finca, próximo da habitação de Ronaldo. O jogador do Real Madrid estava agastado. Ainda não se sabia, mas naquela tarde começava a desenhar-se o princípio do fim da sua carreira ao serviço do Real Madrid.

"Quem é o responsável por tudo isto? Doutor disse-lhe que não queria riscos!"

A narrativa do El Mundo conta que o silêncio imperava na sala, ninguém arriscava a ser o primeiro a falar. Mas ele falou: "Quem é o responsável por tudo isto? Doutor, disse-lhe que não queria riscos!" A repreensão ia direta para Carlos Osório, advogado de confiança do clã Mendes e que trata de todos os assuntos fiscais dos seus futebolistas.

"Não tenho estudos. A única coisa que fiz na minha vida foi jogar futebol, mas não sou estúpido e não me fio em ninguém. Por isso, quando contrato algum assessor pago-lhe sempre 30% a mais do que me pede, porque não quero problemas", terá dito aos primeiros que chegaram à casa de Jorge Mendes.

Ronaldo compra a confiança de quem trabalha consigo. Para não ter problemas, mas também para garantir a sua privacidade. Segundo o diário espanhol, CR7 paga 25 mil euros por mês ao motorista.

Osório respondeu à pergunta de Ronaldo: "Cris, o responsável sou eu. Fica tranquilo, está tudo bem e vamos resolver isto." Não, não estava nada bem, os meses seguintes mostraram isso e minaram a sua posição no Real Madrid. Zinedine Zidane, o treinador, confidenciava que já não se aguentava Cristiano Ronaldo, que nos balneários não tinha outro assunto.

150 milhões em offshores

Em dezembro de 2016, o El Mundo tinha noticiado - a partir da investigação aos documentos Football Leaks - que Cristiano tinha desviado para um paraíso fiscal pelo menos 150 milhões gerados com publicidade com a sua imagem - desses terá pago apenas 5,6 ao fisco espanhol, menos de 4%. A Hacienda espanhola abriu uma investigação às suas declarações fiscais ente 2011 e 2013.

Como se chega a este número astronómico? Desde o início de 2009, ou seja, meses antes de ingressar no Real Madrid, Ronaldo começou a proteger os seus ganhos por direitos de imagem em offshores sediados nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal das Caraíbas. Nos primeiros seis anos, a Tollin Associates, empresa com sede numa agência dos correios na cidade de Road Town, protegeu os 74,8 milhões em receita de publicidade que o jogador obteve. Em 2015, duas outras empresas do Caribe, com a mesma morada da Tollin Associates - a Adifore Finance e Arnel Services - compraram os direitos de imagem do craque até 2020 por outros 75 milhões. A operação foi realizada através da Mint Capital, uma empresa ligada ao empresário Peter Lim.

Voltemos àquela tarde de maio, no luxuoso bairro de La Finca, onde o ambiente estava tenso. Ronaldo afirmava estar convencido que à Tollin Associates só chegava dinheiro livre de impostos pagos na origem. E dizia também não perceber porque é que estava a ter problemas em Espanha, quando isso não aconteceu em Inglaterra. Sistemas fiscais diferentes no que diz respeito aos jogadores e à imagem, explicaram-lhe.

A 'traição' de Florentino Pérez

Cristiano via a luz para este problema em Florentino Pérez, presidente do Real Madrid. Esperava que o clube o compensasse com a revisão do contrato, de forma a cobrir os pagamentos feitos ao fisco espanhol, tal como sabia que o Barcelona tinha feito com Leo Messi - o argentino pagou dois milhões ao fisco, mais uma multa de 252 mil euros para evitar a prisão.

Enquanto isso, Osório descobriu uma cláusula no contrato do jogador segundo a qual o clube deveria cuidar das contingências tributárias. Ronaldo ainda ameaçou o Real com isso, mas enganou-se porque essas alíneas diziam respeito apenas ao salário e não a outros rendimentos que pudesse obter com a sua imagem.

Florentino Pérez tentou minimizar as repercussões mediáticas do caso, mas optou por não se meter na questão fiscal. E Cristiano Ronaldo não lhe perdoou. Sentiu-se traído. A saída do Real Madrid passou a ser uma hipótese forte.

"É uma falta de respeito que eu, a Bola de Ouro, ganhe menos que Messi e Neymar. Não é dinheiro, é status, respeito"

E quando chegou a esse ponto, começaram a chegar as oportunidades. A primeira veio do AC Milan que lhe ofereceu 150 milhões limpos em cinco anos. Cristiano recusou. E apesar de continuar a querer ganhar sempre mais e mais, também não deixava de esconder a sua insatisfação. "Sempre me puseram atrás de Di Stéfano [craque argentino dos gloriosos anos 50 e 60 do século passado]. Não sei o que é que tenho de fazer mais", chegou a desabafar.

Depois havia a comparação com os outros. E o melhor do mundo queria ser o mais bem pago. Mas foi relegado para terceiro lugar quando o Barcelona renovou com Messi e Neymar foi contratado pelo PSG. E isto quando na temporada 2016/2017 o Real fez a dobradinha ao vencer a Liga espanhola e Champions, o que não acontecia há meio século.

"É uma falta de respeito que eu, Bola de Ouro, ganhe menos que Messi e Neymar. Não é dinheiro, é status, respeito", dizia, numa indignação reproduzida agora pelo El Mundo.

Vencida a Champions em Cardiff, o Real ofereceu mais dinheiro a Ronaldo - passaria de 21 para 25 milhões de euros líquidos por ano mas só com variáveis poderia chegar aos 30 milhões. Na sua cabeça a decisão agora estava mesmo tomada e fazia questão de comentar com Jorge Mendes que estava arrependido de não ter já deixado o clube.

O interesse dos outros clubes

Em setembro disse aos próximos: "Enganei-me em ficar, o clube não me quer." Por seu turno, Zidane pedia ajuda à direção: "Façam alguma coisa, isto é insuportável."

Antes da final da Champions em Kiev, em maio deste ano, que o Real venceu ao Liverpool (3-1), já havia a possibilidade de assinar pelo PSG. Mas o clube impunha uma condição que não agradou de todo a Ronaldo - se assinassem, isso só aconteceria mesmo no dia que fechasse o mercado, a 31 de agosto. Os franceses não queriam dar hipótese ao Real Madrid de irem buscar Neymar ou Mbappé.

No Real, Florentino Pérez ainda ouviu da boca de Jorge Mendes que havia interesse do Manchester United, treinado por José Mourinho. "Traz os 100 milhões e ele fica livre."

Cristiano Ronaldo manteve-se no Real, mas um dia pediu a Jorge Mendes para sondar a Juventus. Há pequenas coisas de que valoriza. E neste caso foi o facto de os italianos o terem tentado no início da sua carreira, aos 17 anos. "É um clube organizado e não me esqueço que eles tentaram assinar comigo quando eu estava no Sporting."

Quis o destino que marcasse à Juventus um dos seus golos mais falados, a bicicleta, nos quartos-de-final da Liga dos Campeões, que os adeptos aplaudiram de pé. Era mais do que sabido que o capitão da seleção portuguesa não se sentia bem em Espanha. Sentia-se traído na questão fiscal, não percebia porque não era valorizado financeiramente... O telefone de Jorge Mendes tocou e do outro lado estava Carlo Ancelotti, do Nápoles, mas o clube não tinha dinheiro para um jogador do gabarito de CR7.

Andrea Agnelli, por seu turno, achou que uma estrela como Cristiano Ronaldo poderia devolver a aura à Juventus, mas Mendes ainda deixou uma porta aberta a Florentino Pérez até ao final. Que terá feito uma última proposta. Mas Cristiano não cedeu: "Dei a minha palavra a quem me valorizou quando o Real Madrid não o fazia. Se agora o Florentino me dá o dobro, não me interessa. Vou para a Juve."

E foi, tendo como garantia um modelo fiscal fixo e segurança jurídica. Assinou a 10 de julho passado. A sua entrada, como Agnelli antecipava, fez subir as ações do clube imediatamente. Nos primeiros dias, as cifras alcançadas com a venda de camisolas foram impressionantes.

Saiu de Espanha com as contas limpas. Mas teve o acordo alcançado com o fisco durante uma semana sobre a mesa, sem querer colocar lá a sua assinatura. Custava-lhe assumir crimes fiscais que, dizia, não tinha cometido conscientemente. Mas o risco de prisão era efetivo, insistiam. E ele assinou.

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