O adversário não é inimigo, é ser humano

João Capela, ex-árbitro e embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto escreve sobre o ódio das redes sociais quando o assunto é futebol e deixa alguma soluções para o problema.

Recentemente foi divulgado uma investigação do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho que concluiu que os maiores índices de ódio no Facebook em Portugal estão concentrados no tema do futebol, o que nos deve deixar apreensivos, mas não nos pode espantar, pois a forma como o futebol profissional "comunica" com os consumidores da indústria, centra-se no incentivo ao ódio, à suspeição, à intolerância e ao ganhar a todo o custo, movidos muito mais por questões económicas do que desportivas.

Esta manipulação negativa constante, através dos departamentos oficias de comunicação dos clubes (que em alguns casos deveriam ser punidas disciplinarmente não apenas com sanções monetárias, mas também com perca de pontos), que servem de "alimento" para a quantidade anormal de programas de comentadores de futebol (desculpem, de outras coisas que não o "jogo", porque disso a maior parte não percebe muito), faz com que os adeptos sigam esses comportamentos e que os exponham publicamente nos canais de comunicação, que hoje facilmente têm à sua disposição, as redes sociais.

O Desporto é neutral e os seus problemas, são de facto os problemas das pessoas, são elas que escolhem de que lado querem estar e de promover ou não os seus reais valores.

Foi isso que aprendi quando há 5 anos aceitei o convite do Dr. José Lima, Coordenador do Plano Nacional de Ética no Desporto, para ser Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto.

Desde então, tenho tido a oportunidade de partilhar os valores do desporto em escolas, clubes, associações, federações e até mesmo em estabelecimentos prisionais.
Na verdade, a Ética e os Valores são os pilares da sociedade, apesar de muitas vezes ignorados. Mas como pode uma sociedade construir-se, evoluir, transformar-se e dar resposta às adversidades se não estiver assente nestes pilares?

Muito já foi feito, mas há ainda muito para fazer, pois se pensarmos no estado atual (e num passado recente) do Desporto Rei em Portugal e compará-lo com o que Nelson Mandela conseguiu na África do Sul, facilmente se consegue perceber que" O desporto tem o poder de mudar o mundo!"

Ao continuar a comunicar de forma a "ver" o meu adversário como um inimigo e não como o ser humano que me possibilita a prática desportiva, esquecendo a Ética e os Valores, demonstramos que estamos muito mais motivados por TER do que por SER, com claro impacto na nossa cultura desportiva.

"No Desporto, o mais importante não é a vitória, a taça, o campeonato ou o clube, mas sim as "pessoas!", palavras sábias de umas das minhas principais referências, o Prof. Manuel Sérgio.

Dirigentes, treinadores, atletas, árbitros, adeptos e jornalistas, todos somos agentes desportivos e temos a responsabilidade de tentar transformar a nossa cultura desportiva para melhor, potenciando um crescimento positivo da nossa sociedade.

Costumo dizer que "A Ética é o movimento intencional para a mudança comportamental!", pois estou convicto que só assim nos conseguiremos respeitar mutuamente, quer ao nível desportivo como também aos níveis profissional e familiar.

Existe uma necessidade imediata de regular e fiscalizar a atividade de "comentador desportivo" e de aplicar sanções mais eficazes a todos os agentes desportivos, que desrespeitem os códigos de ética afetos à sua profissão e nestas matérias considero essencial a tutela do poder central, garantindo a coordenação deste processo de valorização do desporto em Portugal.

Há ainda muito a fazer e a "sensibilização" não está a conseguir competir com a "comunicação", principalmente com a dos clubes e seus responsáveis, e por isso temos de passar à "ação", juntando todos os agentes que entendam que esta mudança comportamental é uma necessidade, trabalhando em conjunto para apresentar e desenvolver propostas concretas para que possamos ter um Desporto mais saudável, Ético e assente em Valores e por consequência uma sociedade mais forte e positiva.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG