Niki Lauda. A extrema-unção e uma das maiores histórias de coragem do desporto

O piloto austríaco, que morreu nesta segunda-feira aos 70 anos, quase perdeu a vida em 1976 após um grave acidente. Mas 42 dias depois voltou de forma surpreendente às pistas, não conseguindo, contudo, sagrar-se campeão nesse ano. Leia os testemunhos sobre este regresso, considerado um marco do desporto.

No dia 1 de agosto de 1976, na pista de Nürburgring, na Alemanha, Niki Lauda sofreu um grave acidente, quando a suspensão da roda do seu Ferrari se partiu na curva Bergwerk. As imagens dizem tudo. Durante 40 segundos, o austríaco permaneceu inconsciente dentro do carro em chamas. Sem capacete. Só depois foi retirado do Ferrari com a ajuda dos pilotos Arturo Merzario, Brett Lunger, Guy Edwards e Harald Ertl. Sofreu vários queimaduras de terceiro grau, perdeu parte de uma orelha, muitas contusões e ficou com os pulmões seriamente afetados devido ao fumo.

Lauda foi transportado para o hospital onde ficou internado e foi sujeito a várias cirurgias. Chegou inclusivamente a receber a extrema-unção no hospital. Mas 42 dias depois, para espanto de toda a gente, voltou às pistas, no circuito de Monza, em Itália, ainda como líder do Mundial de pilotos. Terminou a corrida no quarto lugar, mas acabou por perder o título para James Hunt (McLaren) na última corrida desse ano - a história desta temporada deu origem a um filme de Ron Howard, "Rush-Duleo de Rivais".

"Naquela altura disse que tinha afastado o medo de forma rápida e limpa. Mas era mentira. Seria um tolice da minha parte admitir o medo e deixar-me numa posição de fraqueza perante os meus rivais. A verdade é que naquele Grande Prémio de Monza eu estava gelado de medo", admitiu Lauda anos mais tarde, na sua autobiografia.

Considerado como um piloto cauteloso e calculista, o austríaco perderia o mundial desse ano pelo facto de, na última prova, no Japão, ter abandonado a corrida ao fim da primeira volta, conforme acordado - mas não cumprido - por todos os pilotos, face às adversas condições climatéricas que não permitiam que estivessem asseguradas condições de segurança. "A minha vida vale mais do que um campeonato", justificou, antes de saber, já no aeroporto, o desfecho do mundial, sendo que apenas precisava de ficar à frente de James Hunt para conquistar o título que recuperaria na época seguinte.

Em declarações ao jornal brasileiro O Globo, em 2016, quando se completaram 40 anos do terrível acidente, Lauda voltou a falar daquele momento.

"Eu não lembro muito do acidente. Quando um piloto sofre um trauma como o meu, em 1976, em que quase morre, ou ele volta logo a correr ou abandona o automobilismo. O cérebro de um piloto funciona, nessas condições, de forma diferente de quem não é piloto. Não ficamos a pensar ou a tentar o que se passou."

"No meu caso, 42 dias depois de receber a extrema-unção, voltei a pilotar. No primeiro dia (sexta-feira do GP da Itália, em Monza), com aquela pressão toda, estava perdido. Tinha testado o carro da Ferrari em Fiorano, dias antes, e não senti medo, não senti nada. Sentia-me em condição de correr de novo. Mas quando cheguei a Monza, na quinta-feira, a FIA obrigou-me a fazer vários exames médicos. Fiquei três horas nas mãos dos médicos, mesmo tendo um relatório da equipa que me tratou e acompanhou o caso, autorizando-me a disputar o GP da Itália."

"A pressão era tanta em cima da minha cabeça que cometi o maior erro da minha vida: não fui procurar o Arturo Merzario para lhe agradecer (o piloto que o retirou de dentro do cockpit da Ferrari, salvando-lhe vida). Fui para o treino na sexta-feira e não conseguia controlar-me. No domingo, quando larguei na corrida, nem me lembrava do que se passou nos dias anteriores, acabei também em quarto."

"Nunca fui informado sobre o que me fez perder o controlo da meu Ferrari. Naquele GP tínhamos uma nova peça que ligava o braço da suspensão (traseira) ao bloco do motor, como eram construídos os carros na época. A diferença é que a peça era feita em magnésio (não em aço, como antes), pode ter sido isso."

Na mesma reportagem do Globo, Arturo Merzario, piloto da Wolf-Williams, recordou como naquele dia 1 de agosto de 1976 salvou a vida de Niki Lauda ao retirá-lo de dentro do carro.

"Saí das boxes, na segunda volta, depois de trocar os pneus de chuva pelos de pista seca. Estavam na minha frente, mas distantes, Ertl (o austríaco Harald Ertl, da Hesketh) e Edwards (o britânico Guy Edwards, companheiro de Ertl). Quando cheguei à curva Bergwerk, vi uma imensa nuvem de fumo à minha frente. Reduzi a velocidade, não pensava que teria de parar o carro. Mas vi Ertl e Edwards fora do cockpit, na pista, e parei também."

"Foi uma reação instintiva, entendi que havia um piloto no meio daquele fogo, mas não sabia quem era. Percebi que estava preso no cockpit. Vi que era o Lauda, sem capacete. Tentei entrar no meio do fogo, mas era impossível, o calor queimava. Naquela época, não havia tantos comissários como hoje, por isso colocavam atrás do guardrail extintores de incêndio. Vi um, fui lá, peguei e com a espuma a abrir caminho aproximei-me do Ferrari. Mesmo assim, na primeira tentativa não consegui, as chamas envolviam tudo."

"Lauda estava a gritar, a dizer que estava a ser queimado, estava tão tenso, fazia tanta força nas alças do cinto de segurança que quando cheguei não havia como destravá-lo. Só há terceira tentativa é que pude soltá-lo e começar a puxá-lo para fora daquele horror. O treinamento militar que eu tinha feito ajudou-me. Colocámos o Lauda no chão. Estava consciente, mas bastante queimado. A ambulância demorou 10 minutos a chegar. E deram-lhe logo oxigénio."

"A primeira vez que me agradeceu foi quando Bernie Ecclestone organizou um evento, em Nurburgring, para lembrar os 30 anos do acidente, em 2006. Fomos ao local do acidente juntos. A TV alemã aproveitou para produzir um programa especial."

O médico Eike Martin, anestesista e especialista em terapia intensiva, responsável pelo tratamento a Niki Lauda, também recordou aquele dia de horror quando o piloto austríaco chegou ao hospital.

"Percebi logo tratar-se de um caso grave, nem tanto pelas queimaduras na cabeça e nas mãos e dos pulsos, por si só importantes, mas porque Lauda inalou por longos minutos os gases tóxicos do incêndio no carro. Levaram-no para o Hospital de Adenau, o mais próximo do circuito, depois para um especializado em queimaduras e, no mesmo domingo, de helicóptero, para o Hospital Universitário de Mannheim, por ele precisar de tratamento intensivo."

"Lauda manteve-se consciente o tempo todo e isso foi fundamental para a sobrevivência. A sua disciplina ao tratamento, como obedecia ao que pedíamos para fazer, foram impressionantes. E tudo muito sofrido. O quadro pneumológico agravou-se, não conseguíamos reverter a intoxicação. No terceiro ou quarto dia, não me lembro, não sabíamos se ele ia sobreviver, por isso chamaram um padre para lhe dar a extrema-unção."

"Surpreendentemente, Lauda começou a reagir rápido, mais do que imaginávamos, e aquele quadro crítico foi superado. No quinto dia, disse a mim mesmo 'ele vai sair desta'. No sexto dia, a melhora foi ainda mais sensível. Se tivesse de tratar Lauda hoje, a sua sobrevivência seria mais fácil, pelo avanço nos equipamentos de assistência respiratória."

"Ele dizia-nos, já bem melhor, que queria voltar a correr porque era o líder do campeonato. A sua força interior chamava a atenção. Por isso não nos surpreendemos que seis semanas depois do acidente em Nurburbring, Lauda se apresentasse para disputar o GP da Itália, em Monza. Terminou em quarto lugar."

Niki Lauda, tricampeão mundial de Fórmula 1, morreu nesta segunda-feira aos 70 anos, anunciou a família."É com enorme tristeza que anunciamos que o nosso querido Niki morreu em paz, rodeado pela sua família, esta segunda-feira", lê-se num comunicado. O ex-piloto tinha sido submetido a um transplante pulmonar no verão passado.

"As suas realizações únicas como desportista e como empresário são e serão sempre inesquecíveis. O seu dinamismo inesgotável, a sua integridade e a sua coragem serão um modelo e uma referência para todos nós", recordou a família.

Niki Lauda foi campeão do Mundo em 1975, 1977 e 1984, tendo vencido 25 grandes prémios dos 177 que disputou, atingido por 52 vezes o pódio e garantindo 24 pole positions.

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