Mulheres no Masters de Augusta. Sem casaco, só para amadoras e num campo secundário

Depois de ter passado mais de 80 anos sem sequer admitir mulheres como sócias, o Augusta Nacional Club estreia esta semana um Masters feminino, mas só para jogadoras amadoras.

Até 2012, o elitista clube de golfe de Augusta (na Georgia, EUA) que é palco do mais icónico torneio da modalidade nem sequer admitia mulheres entre o seu grupo de sócios. Condoleezza Rice, a antiga Secretário de Estado de George W. Bush, foi a primeira a quebrar essa barreira de género e a vestir o casaco verde que distingue não só os vencedores do Masters como os membros do famoso clube, depois de vários anos de pressão social.

O conservador Augusta National Club (onde os negros só em 1991 puderam começar a jogar) abriu as portas às mulheres - depois de Rice, também as empresárias Darla Moore e Virginia Rometty e a banqueira espanhola Ana Botín entraram para o grupo de mais ou menos 300 sócios, admitidos apenas por convite do próprio clube -, mas faltavam alguns passos mais na direção da igualdade de género.

De entre os quatro maiores torneios [majors]do golfe masculino, o Masters era o único que não tinha uma versão feminina, com os seus greens exclusivamente destinados aos homens que anualmente disputam o tão ambicionado casaco verde que é o Santo Graal de qualquer golfista. Até que, no ano passado, o novo presidente do Augusta National, Fred Ridley, anunciou para 2019 o momento histórico do arranque de um Masters feminino. Foi o que aconteceu esta quarta-feira, quando a norte-americana Jennifer Kupcho bateu a primeira tacada de saída de uma competição de mulheres no Augusta National.

No entanto, esta abertura do clube fundado por Bobby Jones e Clifford Roberts em 1931 continua a não ser totalmente convincente, já que este não se pode considerar ainda o equivalente feminino ao famoso Masters que na próxima semana (11-14 de abril) voltará a ser disputado pelos profissionais de elite do golfe masculino - de Tiger Woods a Rory McIlroy, Francesco Molinari, Brooks Koepka e vários outros.

Diferenças e limitações

Antes de mais, ao contrário do que acontece com o Masters dos homens, no das mulheres a vencedora não terá direito ao icónico casaco verde que no ano passado foi ganho, no torneio masculino, pelo norte-americano Patrick Reed. O prémio para a vencedora será antes um troféu especialmente desenhado em parceria com a famosa casa de joias Tiffany. Depois, no field [o grupo de participantes] de 72 jogadoras, oriundas de 25 países, que fazem história em Augusta não estão as melhores golfistas femininas do mundo, já que o torneio é destinado exclusivamente às melhores, sim, mas do ranking amador: Augusta National Women's Amateur, assim se designa o torneio.

Além disso, nos primeiros dois dias de competição, quarta e quinta-feiras, as jogadoras não vão pisar a relva exclusiva do campo de Augusta, mas sim a de um campo secundário, o Champions Retreat, até porque o "verdadeiro" Masters está aí ao virar da semana e é preciso preservar os greens e os fairways para o primeiro major do ano no circuito masculino. Ainda assim, as 30 melhores ao final das primeiras duas voltas poderão decidir o título, no sábado, já no campo de Augusta, onde terão lugar apenas a última ronda do competição e uma jornada de treino, sexta-feira, essa aberta a todas as jogadoras.

A data escolhida para a realização do torneio também não ficou isenta de polémica. É que esta é também a semana do primeiro major feminino do ano, o ANA Inspirational, organizado pela LPGA, entidade que regula o principal circuito profissional do golfe feminino e que não ficou muito agradada com tão especial concorrência.

Um preâmbulo de um Masters feminino 'a sério'?

Apesar de ser disputado apenas por jogadoras amadoras, o charme de um Masters feminino é mediaticamente apetecível e a ronda final terá mesmo honras de transmissão direta na NBC, sábado, durante três horas. Georgia Hall, uma das profissionais de elite, atual campeã do British Open, vai estar naturalmente no ANA Inspirational, mas lamentou à BBC não poder fazer parte do histórico grupo de jogadoras que vão competir em Augusta. "É mais um passo rumo à equidade neste desporto. Pessoalmente, estou muito triste por não poder jogar, é uma oportunidade maravilhosa", disse.

Ao jornal El País, a espanhola Marta Figueras-Dotti, atual presidente do circuito feminino europeu, sublinha o caminho que ainda há a percorrer. "Acho muito bem que premeiem as amadoras e encanta-me que haja mulheres a jogar em Augusta, mas isto nada tem a ver com o Masters nem com o golfe profissional. Um só dia no campo do Augusta National Club, com apenas 30 jogadoras... Vejo isto como um preâmbulo do que pode vir a acontecer, de um verdadeiro Masters feminino."

Indiferente às polémicas, o presidente do Augusta National, Fred Ridley, não esconde o entusiasmo: "Acreditamos que este torneio vai ter um impacto significativo e duradouro no futuro do golfe feminino."

Exclusivos