Pita Taufatofua. Do desfile em tronco nu no Rio até à neve olímpica

Atleta de Tonga ficou conhecido na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016. Depois de lesões, falta de dinheiro e longas viagens pelo mundo, vai agora tentar a terceira participação olímpica, sempre a mudar de modalidade

Pita Taufatofua saltou do anonimato para a fama global com a participação nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. São inúmeros os atletas que se destacam pela participação olímpica, mas a história de Taufatofua diferencia-se das demais pelo facto de o seu sucesso ter aparecido durante a cerimónia de abertura, com a parte desportiva a ter pouco a ver com o caso. Em poucos minutos, a imagem do porta-bandeira de Tonga tornou-se viral na internet, em todo o planeta.

Num ato de desobediência perante os responsáveis dos Jogos, que lhe "pediram para usar um fato, por favor", o atleta de Tonga usou um manto tradicional do seu país da cintura para baixo e oleou a parte superior do corpo. O sucesso foi imediato.

Sobre essa noite no Brasil, Taufatofua disse ao Guardian que estava no autocarro após a cerimónia quando as coisas se tornaram uma "loucura". Era apenas ele e o seu treinador, Paul Sitapa. "Pela primeira vez ouvi falar em managers, publicistas e agentes. Era só eu e o meu treinador a tentar gerir tudo, duas pessoas que não sabiam nada. Nunca ninguém tinha ouvido falar de Tonga. Pensámos 'como é que isto é possível?'", explicou o atleta, cujo objetivo era apenas usar as vestes originais do seu país e representar "mil anos de história".

No entanto, ainda havia uma competição de taekwondo pela frente - era para isso que lá estava -, e admite que foi difícil ficar "focado", mas que tinha de tentar. "Agora havia mais pressão porque estava toda a gente a ver. Toda a gente queria que o tipo que veio do nada e teve o seu momento ganhasse o ouro", explicou ao jornal britânico, No torneio, acabou por perder na primeira ronda frente a um atleta iraniano, mas conseguiu outros feitos. É que pelo final da primeira semana olímpica, "onde é Tonga?" tinha sido procurado no Google 230 milhões de vezes.

Agora com 35 anos, Pita Taufatofua, que nasceu na Austrália, recordou o sofrimento dos 15 anos de luta para chegar aos Jogos Olímpicos. "Assim de cabeça, seis ossos partidos, três roturas de ligamentos, um ano e meio de muletas, três meses de cadeira de rodas e centenas e centenas de horas de fisioterapia", resumiu.

"Tudo de negativo na minha vida tem sido combustível para mim", disse, acrescentando que a sua tenacidade e perseverança vem de "não ter nada enquanto miúdo". Com seis irmãos, Taufatofua é licenciado em engenharia, e as más condições que experienciou em criança têm uma explicação simples: "Os meus pais não tinham dinheiro porque pagavam para termos a melhor educação. Entre todos os irmãos existem 8 licenciaturas e dois mestrados".

Dormir na Coreia do Sul... para chegar ao Brasil

Começou a praticar taekwondo aos cinco anos e foi aos 12, quando saiu à rua para celebrar e receber a primeira medalha olímpica de Tonga, em Atlanta 1996, que decidiu que ia aos Jogos Olímpicos. "Tinha de ser o número um da Oceânia para me qualificar por Tonga", afirmou.

A primeira tentativa na qualificação olímpica foi na Nova Caledónia, em 2008. Depois de continuar a lutar após uma lesão no tornozelo e fraturar um osso do pé, saiu do torneio numa cadeira de rodas. Ficou seis meses sem poder andar.

Para Londres 2012, e quase sem dinheiro, conseguiu ir para a Coreia do Sul treinar. Arranjou dormida numa creche, de onde tinha de sair todos os dias antes das crianças chegarem. "Não tínhamos dinheiro, foi muito desconfortável", explicou. Na mesma demanda, rompeu o ligamento de um joelho nos Mundiais, no Azerbaijão, e após "combater com uma perna" no torneio de qualificação, novamente na Nova Caledónia, ficou mais três meses sem conseguir andar.

Contra os conselhos de "médicos e várias pessoas", continuou a tentar, com uma confiança que Pita Taufatofua diz acreditar ter sido "dada por Deus". E foi à terceira tentativa, com "tudo na vida a correr mal", que conseguiu dinheiro emprestado para chegar a um torneio na Papua Nova Guiné. "Foi o meu momento", disse sobre o combate que lhe valeu o apuramento para o Rio de Janeiro e tudo o que se seguiria.

Depois do Rio, os esquis e a neve

"Decidi porque não fazia sentido. Adoro estes desafios", começou por dizer o atleta de Tonga sobre a decisão de ir aos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018, em Pyeongchang, Coreia do Sul, na vertente de esqui cross-country. Começou a treinar no cimento e depois de ver vídeos no YouTube. Com esquis alugados, passou por "15 países em oito semanas", para se tentar qualificar.

Com 40 mil dólares de dívida no cartão de crédito e com as marcas de esquis a recusarem-lhe material a um preço mais reduzido, acabou por encontrar dois companheiros para a viagem: o chileno Yonathan Jesús Fernández e o mexicano Germán Madrozo. Depois de um périplo pelo leste europeu e de perder um voo da Turquia para a Croácia, restou-lhe pedir ajuda a um irmão, que lhe emprestou as suas milhas aéreas para Pita Taufatofua chegar a Londres. Foi desta mesma forma que chegou ao local da última hipótese de qualificação, a Islândia. Com os dois novos colegas de percurso, e após uma viagem de três dias, entre nevões, foram de Reiquiavique até ao fiorde onde era a prova. Aí, conseguiram todos a qualificação.

Já em Pyeongchang, onde novamente se apresentou de corpo oleado e de bandeira de Tonga nas mãos (era o único atleta do país), conseguiu os seus principais objetivos: "acabar antes de apagarem as luzes" e "não ir contra uma árvore". Chegou longe do último lugar, a 23 minutos do vencedor. Quando cruzou a meta, esperou pelos colegas sul-americanos.

Tentativa pelos terceiros Jogos Olímpicos vai ser na água

Segundo o Guardian, o atleta vai anunciar em fevereiro em que modalidade se vai tentar qualificar para os próximos Jogos Olímpicos, mas apenas se sabe que vai ser na água.

No entanto, a vida do atleta vai muito além do desporto. Durante 15 anos trabalhou com crianças desfavorecias e pessoas sem abrigo, sendo agora, inclusivamente, embaixador da UNICEF. Já falou nas Nações Unidas e também no MIT, com o presidente canadiano Justin Trudeau. Escreveu um livro sobre motivação, titulado The Motivation Station, e outro sobre depressão.

"Tenho fé e acredito que o meu propósito é maior que eu. Se é suposto eu ajudar milhões de pessoas a terem confiança, não tenho o direito a estar deprimido", assegura.

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