"Exaltado. Ar de ditador." O que diziam os jogadores sobre Bruno de Carvalho

No seguimento das agressões na Academia de Alcochete, a 15 de maio, nove jogadores avançaram com rescisões com justa causa (alguns entretanto voltaram atrás). Recorde as queixas feitas na altura por alguns dos futebolistas nas respetivas cartas de rescisão.

Depois do ataque à Academia Sporting, em Alcochete, ocorrido a 15 de maio deste ano, foram nove os jogadores que entregaram cartas de rescisão, com o intuito de terminarem a ligação ao clube depois dos acontecimentos. Em todos os documentos que vieram a público existiam várias referências - e acusações - a Bruno de Carvalho, detido no passado domingo na sequência das investigações ao caso. O ex-presidente do Sporting será ouvido nesta terça-feira no Tribunal do Barreiro.

Bas Dost, Bruno Fernandes, Battaglia, Rui Patrício, Gelson, William Carvalho, Rúben Ribeiro, Rafael Leão e Podence abandonaram o clube, com os três primeiros a regressarem após Bruno de Carvalho deixar a presidência do Sporting e mais dois (Rui Patrício e William a desistirem das ações porque entretanto chegaram a acordo para as respetivas transferências). Voltando às principais frases das cartas de rescisão (apenas as de Gelson, Rúben e William não se conhecem), recorde as frases fortes dos jogadores.

"Exaltado e com ar de ditador"

As cartas de rescisão de Bruno Fernandes, Podence, Rui Patrício de Bas Dost são bastante semelhantes e todas contam como, após a derrota frente ao Atlético Madrid (2-0), no terreno dos colchoneros, as críticas do então presidente caíram mal, levando o grupo a defender-se, também nas redes sociais. "A resposta que veio do presidente não podia ser mais ofensiva para a dignidade dos jogadores" e "inaceitável".

Numa reunião, nos dias seguintes, os jogadores dizem que Bruno de Carvalho estava "visivelmente exaltado e com ar de ditador, alucinado e visivelmente tresloucado".

Acusou "os jogadores Rui Patrício e William de serem os organizadores do protesto, por quererem sair do clube há muito tempo", e teve sempre uma postura física "de enorme agressividade", principalmente com o guarda-redes. Numa troca de palavras com William, "em que discutiram o facto de o presidente estar a incentivar reações agressivas contra os jogadores, este [Bruno de Carvalho] afirmou que se lhe quisesse bater não precisava de chamar ninguém". "Ou seja, toda a reunião decorreu num ambiente ameaçador", lê-se ainda no documento.

"Em todos estes episódios manteve-se a humilhação e o desrespeito pela dignidade profissional e pessoal dos jogadores, a par de uma conduta de condicionamento da sua atuação e da sua liberdade. O presidente não podia deixar de ter a consciência de que as suas palavras não só eram altamente perniciosas para a equipa, comprometendo o seu estado anímico e a sua concentração, como despertavam, necessariamente, a ira dos adeptos mais primários e acalorados", acrescentam as cartas de rescisão dos referidos jogadores.

Sobre o ataque a Alcochete, no dia 15 de maio, os jogadores falam em "primeiras declarações absolutamente chocantes para os jogadores, que as consideram aviltantes e, até, ofensivas, parecendo que o presidente do Sporting estava a 'gozar' com o sucedido", queixando-se ainda de palavras proferidas num "teor manifestamente desadequado e inusitado".

"Pressão e temor que o presidente incutiu"

Rafael Leão, na sua carta de rescisão, refere o facto de Bruno de Carvalho ter atribuído a culpa dos maus resultados da equipa à "falta de profissionalismo" do jovem jogador e dos "colegas de trabalho". Afirma ainda que "é público" que ele e o "plantel em geral nunca beneficiaram do apoio do sr. presidente, mesmo em momentos cruciais" da época.

Diz ainda que a entidade patronal não assegurou "segurança no local de trabalho" e permitiu que Rafael Leão e os "colegas de equipa tenham vivenciado um episódio de verdadeiro horror". Como reação, afirma o extremo, Bruno de Carvalho disse que o ataque em Alcochete foi "chato".

"A pressão e o temor que o presidente incutiu internamente passaram a manifestar-se também externamente", com Rafael Leão a afirmar ter medo de ir a locais públicos. Revelou ainda que quando partilhou a publicação do grupo de trabalho de resposta ao presidente o pai recebeu uma mensagem de Bruno de Carvalho: "O puto que tire o comentário, senão vai haver problemas."

"Situação previsível e evitável"

Rodrigo Battaglia escreveu na sua carta de rescisão que as atitudes de Bruno de Carvalho foram "algo inaceitável para a sua função e posição". O argentino refere que durante a temporada o "presidente começou a fazer uma pressão inusitada", usando "ataques e agressões pessoais" através de mensagens de Facebook.

"Além das condutas do presidente, que podem ser interpretadas como uma clara ofensa à dignidade profissional, o certo é que se foi desenvolvendo um clima hostil contra os jogadores. Uma situação como a que foi vivida era absolutamente previsível e evitável", acrescenta.

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