Elisabete Jacinto: "O presidente Marcelo não me deu os parabéns e já vem tarde"

Elisabete Jacinto acabou de ganhar o África Eco Race, a competição que substituiu o Dakar e para a qual se preparou durante 27 anos. Também por isso, não se arrepende do que deixou para trás, como ser mãe. Viu o trabalho recompensado e, finalmente, elogiado.

Elisabete Jacinto licenciou-se em Geografia pela Faculdade de Letras, em Lisboa, onde conheceu o marido, Jorge Gil, área de formação que deixaram para trás. Estão juntos há mais de 30 anos (ela tem 54), até nas atividades dos tempos livres. A piloto ri-se, diz que nunca pensaram nisso, com a certeza de que, se não fosse esta parceria, não teria chegado ao topo. Ele é o chefe de equipa de todo-o-terreno, seis elementos: ele, o piloto, o navegador e o mecânico do camião de competição; o piloto e o mecânico do camião de assistência. Competem com outras equipas que chegam a ter quatro vezes mais pessoas e a quem ganharam o África Eco Race. Elisabete tem recebido muitos parabéns, menos os do Presidente da República, mas prefere destacar a felicidade de ter o voto de louvor da Assembleia da República. A segunda mais nova de uma família de quatro irmãs, espera ser um exemplo para as mulheres.

Está farta de dar entrevistas sobre motores, corridas, competição?

Essa é a parte boa, não custa nada. Gosto imenso do que faço e partilhar com os outros é uma satisfação. É claro que depois ficamos sem tempo e há outras coisas que ficam por fazer, para além disso, não me chateia nada.

O que faz depois de cada corrida?

Quero sempre parar um bocadinho, dormir uma manhã até ao meio-dia, desta vez ainda não o consegui, tenho andado num reboliço. Quando esta euforia parar, quero ter um fim de semana para descansar.

Ganhar o África Eco Race é o ponto alto da sua carreira?

Foi para isto que me preparei. Tinha um sonho que era ir para as corridas e disputar o pódio, ganhar, foi a minha meta ao longo destes anos todos. Algo que nunca consegui fazer com a moto, que é um veículo extremamente físico, percebi que dificilmente conseguiria chegar ao topo. Abandonei a competição de moto com um sentimento de frustração e o camião veio substituir o lugar deixado pela moto. Percebi que, se tivesse um bom camião e uma boa equipa, conseguia ser mais competitiva do que era com a moto.

Percebeu isso logo no início?

Na realidade, as minhas primeiras corridas de camião foram uma desgraça. Naquela altura, o meu sonho era chegar ao acampamento com a luz do dia e eu chegava sempre de madrugada, fazia diretas, era uma vida de Cristo. Mas achei que um dia conseguiria ser competitiva e ter bons resultados. Foi uma caminhada extremamente difícil, com muitas contrariedades e problemas, que fui construindo a pouco e pouco, de uma forma muito segura. Consegui chegar a onde queria. Melhor do que isto não há, a não ser que conseguisse fazer 30 corridas e ganhasse as 30.

A persistência é a sua principal qualidade?

Persistência, espírito de sacrifício, trabalhadora, capacidade de engolir sapos, capacidade de gestão e de orientação, muita coisa. Foi um projeto extremamente difícil e que, à partida, não tinha nada para ter sucesso.

Porquê?

Eu é que preparo o camião e não sou engenheira mecânica, estudei geografia, tal como o meu marido. Quando eu não sei, ninguém mais sabe como as coisas se fazem e eu sei pouco. O camião é um veículo muito especial, temos de construir tudo. Cada vez que queremos fazer uma alteração, mandamos construir, montamos, testamos e, se as coisas correm mal, perdeu-se a oportunidade de participar numa corrida. É um trabalho que não depende só de mim e temos um orçamento muito baixinho.

É um orçamento anual?

Sim. Tenho um patrocínio e tento rentabilizar esse dinheiro ao máximo. Se for para uma prova que estrague muito material, tenho de gastar muito dinheiro com a recuperação e o orçamento já não chega para outra prova.

Quanto dinheiro tem por ano?

Têm de perguntar ao meu marido, ele é que é o homem das contas.

É um orçamento muito inferior ao dos outros competidores?

Só para dar um exemplo, as organizações gostam de colocar os três camiões do pódio lado a lado e, tive uma situação, onde estávamos nós os três em cima do tejadilho e ao lado um piloto da Kamaz [equipa russa] com 20 pessoas à volta, isso faz uma diferença enorme.

Qual é o prémio em dinheiro do África Eco Race?

Não há prémio em dinheiro (ri-se), só o troféu e todo o prestígio que isso me possa dar. De uma maneira geral, os desportos que não têm bilheteira não têm prémios em dinheiro. O que posso conseguir é provar aos patrocinadores que sou uma boa aposta e esperar que deem mais dinheiro para poder continuar.

O Presidente da República ligou-lhe a dar os parabéns?

(Ri-se). Toda e gente pergunta isso, não, o Presidente não me ligou.

Ainda está à espera?

Agora já vem tarde, já passou a oportunidade.

De onde vieram os parabéns que lhe deram mais prazer?

O voto de louvor da AR disse-me muito, são diferentes pessoas a votar e é o órgão máximo de um país. Este voto de louvor foi, de facto, o reconhecimento de que fiz o meu trabalho, deu-me uma satisfação muito grande. Depois, tive os parabéns dos meus patrocinadores, de amigos, de pessoas com quem não falava há muito tempo, o que me fez perceber que iam seguindo a corrida. Isso é muito bom, a pessoa acaba por se sentir acompanhada e sentir que está a representar alguém.

Teve alguma formação a nível da mecânica quando comprou o camião?

Não. Comprei o primeiro camião em 2003, sabendo muito pouco.

Até na condução, tinha a carta de pesados há três meses quando foi competir.

(Ri-se). Tirei a carta em outubro e fui competir em janeiro, mas foi uma oportunidade que quis agarrar com as duas mãos porque o meu sonho era ir por ai fora e ter bons resultados.

Porquê um camião e não um carro?

Porque de carro nunca haveria ninguém que apostasse em mim. O facto de o camião ser diferente e de haver poucas mulheres a conduzir, fazia que pudesse dar nas vistas e ter alguém interessado em me patrocinar.

Tem mais prazer a conduzir uma moto ou um camião?

Tenho prazer na condução, adoro conduzir.

Num carro ou numa moto sente-se mais o veículo, eventualmente haverá mais adrenalina a conduzi-los.

Não. O camião é um veículo muito difícil, muito mais difícil de conduzir do que um carro. É mais largo, mais alto, mais comprido, mais pesado, tem uma carga de velocidades mais elaborada - oito mudanças mais oito meias mudanças -, temos de gerir dez toneladas em movimento. Dizer que não dá a mesma adrenalina não sei se é verdade, o que sei é que é uma conquista enorme poder fazer corridas de camião.

Sente-se poderosa?

Quando se corre com um camião temos um ego enorme. Temos aquela convicção de que somos muito melhor do que os outros, fazemos uma coisa que é muito mais difícil e que exige muito mais de nós. O pessoal dos camiões é muito bom e não digo isto só quando se trata de desporto, o pessoal dos camiões em geral é muito bom. Agora, na nossa sociedade, há muitos estereótipos e não valorizamos a formação e a competência de quem conduz um camião. Naturalmente que haverá pessoas menos educadas do que outras, mas levam todos por tabela.

Ser mulher na competição de camiões pode ser uma mais-valia?

É uma mais-valia no sentido de conseguir financiamento para correr, só nesse aspeto. Tudo o resto é mais complicado, todo o processo de construção, de evolução, é bastante difícil.

"O facto de não me darem credibilidade custou-me muito."

Difícil, como?

Tive muitas contrariedades, nomeadamente o facto de não me darem credibilidade, o que foi das coisas que mais me custou.

Ouve bocas machistas?

Há sempre muitas, do género, se soubesse que era para correr atrás de uma mulher não tinha vindo. Quando ganhei o Rali de Marrocos [2010], um jornalista marroquino fez uma entrevista ao Jorge [o gestor da equipa] e perguntou-lhe se o facto de ser uma mulher a ganhar a corrida não desvalorizava a modalidade. Nessa pergunta, se calhar um bocadinho ingénua, expressava o que as pessoas pensavam a meu respeito. Os camiões são uma modalidade muito difícil, só para homens, se há uma mulher que consegue fazer, afinal não é assim tão difícil. Eu queria ser reconhecida como um bom piloto, por ter bons resultados, até para ser um bom exemplo de que se pode fazer. Não há coisas para homens ou para mulheres, é para quem quiser fazer.

E, quando ganhou, olhou por cima do ombro para os homens que estavam na segunda fila?

(Ri-se) Não. Tive muito prazer em ter ganho, dá um gozo enorme. É a recompensa de todo o trabalho desenvolvido para se chegar lá, mas não consigo ter essa sensação de superioridade em relação aos outros. Tenho a perfeita consciência de que amanhã vou competir com eles e já não sou eu que ganho. O meu gozo é dizer: "Consigo fazer melhor apesar de ter muito menos dinheiro e muito menos estrutura do que eles."

Venceu a prova dos camiões, mas também teve uma boa classificação geral.

Fiquei em 5.º lugar na classificação geral, é assumidamente uma boa classificação.

Acha que conseguimos falar 30 minutos sem voltar às corridas?

Vamos tentar.

Porque é que escolheu estudar Geografia?

Na adolescência, queria ser educadora de infância, que na altura não era licenciatura. Comecei depois a pensar que podia ir mais longe, tirar um curso superior. Pensei em Psicologia para me dedicar à psicologia infantil e pus Geografia como segunda opção. Era uma disciplina que tinha gostado muito no 12.º ano e a saída profissional era o ensino, não lidava com crianças mas com adolescentes, que era uma coisa que também me satisfazia muito.

E a Geografia tem a vertente da descoberta de novos territórios.

Vou quebrar a promessa de não falar de corridas, mas numa altura em fazia o campeonato nacional e pus a hipótese de abandonar a competição, essa foi a minha questão. Pensei: "Vou deixar a competição sem fazer uma prova em África, eu que ensino aos meus alunos como se formam as dunas e nunca vi nenhuma?" Senti vontade de participar nessas corridas em África para viver um bocadinho esses ambientes.

Como foi?

A primeira vez que passei por cima de uma duna, daquelas em forma de meia-lua, as dunas Barkane, senti uma alegria enorme, parecia uma criança.

"Provavelmente, teria continuado no ensino e uma ranchada de filhos."

Imagina como teria sido a sua vida se não tivesse optado pelas corridas?

Provavelmente, teria continuado no ensino, teria uma ranchada de filhos. Fazia a minha vida entre a escola e a família, com a possibilidade de fazer umas feriazinhas.

Não consegue fazer férias?

Agora já faço mas tive uma quantidade de anos em que não o conseguia.

Teria uma vida completamente diferente.

Não vou dizer que não me realizaria dessa maneira, mas quis o destino que apostasse num desafio pessoal muito grande. O que a competição me trouxe, o desporto, foi descobrir capacidades que não sabia que tinha: a capacidade de superação, de ultrapassar os medos, fazer coisas que achava que não era capaz, isso dá um gozo fabuloso. E nunca mais consegui parar.

Ultrapassar obstáculos é viciante?

Um pouco, vamos olhando para trás e percebemos que demos um passo grande. Olhamos para a frente e percebemos que ainda estamos longe do que gostaríamos de ser, mas que já fizemos um grande progresso. Gosto de desafios, de ir à conquista, de evoluir, de me tornar melhor.

Houve alturas que avançou mas também houve alturas que recuou.

Houve alturas em que as circunstâncias da vida me obrigaram a recuar muito. Quando passei da moto para o camião, dei vários passos atrás, não tinha experiência nenhuma. E não foi só o desafio da condução, foi andar com uma equipa, criar uma estrutura com uma parte técnica, tudo isso foi muito complicado.

Exige muita preparação física.

Faço ginásio duas horas por dia, todos os dias ao longo do ano.

Mas também mental, tinha essa preparação?

Fui conquistando ao longo do tempo e tive o meu marido ao meu lado que me ajudou a ultrapassar muitos dos meus macacos no sótão. Eu dizia: "Jorge, não sou capaz." E ele provava por A+B que eu era capaz e eu deixava-me levar pelo raciocínio dele. Fui sendo confrontada com os meus medos, com as minhas inseguranças, com as minhas ansiedades, e aprendi a lidar com elas. Gosto de ler e a psicologia continua a ser um dos meus temas preferidos. Conseguir ver escrito coisas que estão camufladas na nossa cabeça ajuda-nos a resolver imensos problemas.

"O estrelato e dar nas vistas é o preço que pago para ter patrocínios."

Acabou por vir para a ribalta quando diz que em miúda era muito tímida e não gostava de dar nas vistas.

É verdade, mas é o preço que tenho de pagar para conseguir patrocínios para correr. Se me pergunta, se gosto do estrelato e de dar nas vistas? Não, mas preciso disso. Não dou uma entrevista sem estar vestida com a roupa das marcas, de outra forma não teria dinheiro para correr. Em Portugal, ainda não se percebeu que é assim que as coisas funcionam e, portanto, quando as revistas e televisões fecham a porta aos desportistas porque têm marcas, estão a fechar a porta ao desporto e a deitar para o lixo uma ferramenta fundamental na educação, na formação, na construção de uma sociedade melhor, porque o desporto tem essa capacidade.

Este prémio já lhe trouxe mais patrocínios?

Não, estamos à procura, a tentar. O dinheiro é justo para as despesas e já tive de prescindir de uma corrida para comprar amortecedores para um camião ou para mandar o motor para a Alemanha para vir mais potente. Tenho uma verba e tenho de a gerir em função das despesas. Tantas vezes que fui bater à porta de outras empresas a pedir dinheiro e não o consegui. Estamos dependentes das entrevistas, da televisão, que não dá qualquer destaque ao desporto. Pago imagens às organizações e disponibilizo-as de forma gratuita a todas as televisões portuguesas e a maior parte delas nem se preocupam em ver.

Também aconteceu neste rali?

Funcionou um bocadinho melhor, mas só quando cheguei ao final da corrida e ganhei. Durante a corrida, embora estivesse praticamente entre o segundo e o primeiro lugar desde o princípio, foram poucas as televisões que fizeram uma peça de vez em quando. Só depois de ter confirmado a vitória é que se mobilizaram e todas fizeram qualquer coisa. As marcas que investem em futebol, investem muito dinheiro porque têm a televisão em contrapartida.

As marcas não disputam depois os atletas mais bem classificados?

Nos camiões não é assim. A única marca de camião para corridas é a Kamav, a empresa russa. Temos é várias equipas endinheiradas que constroem os seus camiões, mas são particulares.

Sempre gostou de conduzir?

Gosto de conduzir, gosto imenso de andar de moto, ainda hoje pego na minha moto e vou no meio do trânsito e fico superfeliz, completamente realizada, toda a gente parada no trânsito e eu chego primeiro a casa.

A tensão e o esforço são muito diferentes numa corrida.

Dá-me um gozo muito grande mas, de facto, em termos de competição é extremamente violento. O prazer na condução dura os primeiros 100 km, depois vem o cansaço e é um martírio para chegar ao fim. O prazer de condução na moto acaba por ser muito mais limitado, sozinhos, passamos frio, fome, calor, é um sofrimento atroz. No camião, somos três no camião de corrida e mais três no de assistência, pode-se ligar a sofagem, comer, não tem de se puxar uma moto de 200 quilos. Há uma folga de energia que se pode canalizar para a condução, faz que se tire maior partido da capacidade física e goze muito mais da condução.

Tirou a carta com que idade?

Já tinha 21 ou 22 anos, só tirei a carta de moto quando tirei de carro, já estava a viver com o Jorge, em Lisboa...

Percebeu logo que tinja jeito para a condução?

Não. Eu e o Jorge paramos num quiosque e ele pega numa revista de motos e diz: "Isto das motos é muito giro, porque é que não tiramos a carta?" E foi isso, pouco tempo depois comprámos uma 125 para os dois, uma caixa de elefante, daquelas com o guarda-lamas alto. O Jorge ia para o emprego no carro e, em vez de a moto ficar na garagem, comecei a usá-la como meio de transporte. Passaram três ou quatro anos e, (ri-se) como um homem não anda de 125, comprou uma maior e a 125 ficou para mim. Íamos passear os dois, cada um na sua moto, até que decidimos inscrever-nos num clube de todo-o-terreno. Pouco tempo depois estávamos a fazer um passeio, sem ter experiência nenhuma, nada. O passeio tinha 200 km, eu fiz 80, caí várias vezes, o radiador da moto abriu, a água saiu toda, tive de desistir. O Jorge continuou com muita dificuldade, porque a moto dele era grande, pesada. No final, olhámos um para o outro, felizes e dissemos: "Isto é o hobby das nossa vidas, é muito giro, fantástico, o problema é que as motos não prestam."

"Ficámos um ano em casa, a juntar dinheiro, para comprar duas motos."

Está-se mesmo a ver que compraram outro tipo de motos

Não foi logo. Ficámos um ano em casa, a juntar dinheiro, para comprar duas motos todo-o-terreno. Não íamos jantar fora, ao cinema, passear, fazer férias, não íamos a lado nenhum. Comprámos duas motos iguaizinhas, era uma curtição, íamos para o Alentejo, com os amigos todos, passear, andar no meio das ovelhas, no meio dos sobreiros, era mais o tempo que estávamos na cavaqueira do que propriamente a andar de moto, a gente divertia-se imenso. O todo-o-terreno começa a ficar na moda, aparece um campeonato nacional e um dos meus amigos decidiu fazer uma prova e desafiou os outros todos.

Era a única mulher do grupo?

Era e pus-me à parte. Fazíamos 50 quilómetros no fim de semana e ficava de rastos, agora eles propunham uma corrida de 300 quilómetros? Nem pensar. Eles perceberam que eu não estava numa de ir e insistiram comigo. Soou-me a um voto de confiança e inscrevemo-nos todos. Passados 100 quilómetros, tinha tantas dores no corpo que já não me conseguia mexer. Cerrava os dentes e pensava: "Tenho de conseguir, tenho de conseguir." Era um raid em Grândola, passei várias linhas de água, numa delas caí, não consegui levantar a moto do chão, entrou água para dentro do motor e tive de desistir. Mas, se fossem perguntar qual era a pessoa mais feliz, não era o rapaz que tinha ganho, era eu que tinha desistido. Tinha feito muito mais do que eu pensava. Achava que não conseguia fazer 70 quilómetros e fiz quase os 300, desisti no quilómetro 270. Fiquei superapaixonada por todo-o-terreno. E só pensava: "O que é que faço para arranjar dinheiro, para arranjar técnica, para treinar, para me organizar. Fiz todas as provas do campeonato, depois o Dakar e por ai fora."

Em que etapa ficaram os amigos?

As primeiras duas corridas, fiz eu e o Jorge, com alguns amigos. Os amigos deixaram de fazer, e, quando fomos para a terceira corrida, chegámos à conclusão de que não tínhamos dinheiro para competir os dois e ele abandonou a competição, foi aprender mecânica. A teoria era que ele, como homem, não ia dar nas vistas, ninguém daria dinheiro, podia ser que eu conseguisse. Treinávamos juntos e, a certa altura, como o dinheiro era pouco, já tirava peças da moto dele para pôr na minha. Ele ficou sem moto para treinar e comecei a treinar sozinha. Comecei a acabar as corridas, depois comecei a correr melhor, um dia veio aquela ideia maluca de fazer uma corrida em Espanha, quase que nem dormia. Depois aparece a ideia louca de fazer uma prova com 800 quilómetros num dia só e lá fui eu. Eram desafios cada vez maiores.

A principal motivação não é só chegar ao fim?

É chegar ao fim. Mas quando chegava ao fim e o Jorge dizia: "Este, este e este, que eram mais rápidos do que tu, ficaram para trás." Aí, uma pessoa sabe que fez uma coisa benfeita e que pensava que não era capaz. Isso dá uma satisfação muito grande.

Porque é que decidiu substituir a mota pelo camião?

Fiz o 1.º Dakar, o 2.º , o 3.º, o 4,º e pôs-se a hipótese de abandonar a competição.

Porquê?

Não conseguia atingir os resultados que queria e achava que as pessoas não valorizavam o meu esforço. Em Portugal, as pessoas só percebem o primeiro, segundo e terceiro lugares. Eu fazia a mesma prova do que os homens, o mesmo percurso, a mesma moto, e o meu físico não era igual ao deles. Tinha de travar mais cedo para me defender nas curvas, defender nos buracos, enfim, não era fácil ter resultados brilhantes, apesar de todo o meu trabalho. Apesar de ter resultados fabulosos com motos que as raparigas hoje já não conseguem fazer porque andam com motos muito menos pesadas do que as minhas.

Foi difícil tomar a decisão de abandonar?

Demorei imenso tempo até tomar a decisão, porque tinha aprendido muito, gostava do que fazia, foram muitos anos. Fiz a minha primeira prova de competição de moto em 1992 e a última em 2001. Tomei a decisão definitiva de abandonar a competição, vários meses depois de ter feito a última corrida.

"Quando abandonei a competição do moto fiquei aliviada, mas depois senti um vazio."

Qual foi o sentimento?

No primeiro momento, fiquei aliviada por ter conseguido tomar a decisão, o mundo ficou mais leve, respirei fundo, senti-me bem. No segundo, pensei: "Porque é que não faço camião, também é muito giro, nenhuma mulher fez, se calhar até é mais fácil arranjar patrocínios?" Imaginei-me dentro de um camião a saltar as dunas. Cheguei a casa e perguntei ao Jorge: "O que achas se eu tirar a carta de pesados, quem sabe, um dia posso fazer corridas de camião", e ele respondeu: "Pode ser uma ideia gira" e não deu muita importância. Mas eu peguei na mala e saí imediatamente para ir à escola de condução. Tirei a carta em outubro e em janeiro estava a fazer o Dakar de camião.

Com alguma inconsciência, não?

A inconsciência era: fiz um plano: para ganhar corridas de camião e tinha de ganhar experiência nas quatro rodas. Pensei em fazer duas ou três corridas de carro e um Dakar de carro primeiro para aprender e, mais tarde, passar para o projeto de camião. Fiz corridas do campeonato nacional de carro, também a Baja de Aragón, em Espanha, e organizei a equipa para fazer o Dakar de carro.

Que nunca chegou a fazer

As coisas não se proporcionaram, a minha navegadora disse que afinal não queria ir comigo, o homem da empresa a quem tinha alugado deu o golpe do baú, foi para os EUA, e fiquei sem carro, E não estava a conseguir patrocínios, estávamos em outubro e as coisas apontavam para o facto de poder não ir. Já não tinha feito o último Dakar e, se não conseguisse dinheiro para ir naquele ano, provavelmente não iria mais.

Qual foi o ponto de viragem?

Foram as circunstâncias, uso muito esta história, as minhas histórias, para dizer às pessoas que só conseguimos da vida aquilo que queremos conseguir. Existe uma espécie de magia fabulosa que nos leva onde queremos.

Quais foram essas circunstâncias?

Decidi ir ver o rali de Portalegre, coisa que nunca faço, porque participo nas provas ou fico em casa. Encontrei um homem, um catalão, que alugava espaços no camião dele aos pilotos que iam para o Dakar para levar motores, rodas da moto, etc. O raid de Portalegre era muito conhecido, tinha muitos pilotos a participar e ele veio divulgar os seus serviços. O Jorge foi ter com ele e, na brincadeira, disse: "Apresento-te a Elisabete camionista, tirou a carta de pesados." O homem olhou para mim muito sério e diz: "Ai é? Então vou fazer-te uma proposta." A proposta era fazer o Dakar de camião com o mesmo dinheiro que gastava com a moto e só pensei que era uma oportunidade fabulosa.

Mas a experiência era nula.

É um facto, mas fazer um Dakar com muito dinheiro, tudo muito bem preparado, também era mau. Ia fazer o Dakar com poucas condições, mas dava para experimentar. Foi uma história fabulosa, foram mil histórias fabulosas, e percebi que podia ser bastante mais competitiva com o camião do que era com a moto. Embora as probabilidades de conseguir ter sucesso fossem muito poucas. "Se não tinha dinheiro para fazer corridas de moto, como é que ia arranjar para fazer de camião, que é muito mais caro?" Mas consegui e, logo no ano seguinte, organizei-me com a Renault e continuei a fazer corridas de camião.

Sorte?

Acho que somos nós que construímos o nosso destino e ir na direção que queremos. Quando temos um objetivo definido, queremos muito atingir a nossa meta, chegamos lá. É preciso trabalhar, não podemos ficar de braços cruzados em casa à espera que as coisas aconteçam.

É só trabalho?

Não, ao longo destes anos todos, dei comigo a pensar que, de facto, por mais que se trabalhe, há sempre um fator que nos ultrapassa, a que chamamos o fator sorte. Às vezes está do nosso lado, outras vezes não. Em muitos momentos da minha vida tive aquela sensação de estar a remar contra a maré. Todos nos esforçávamos mas apareciam coisas do arco-da-velha que nos tramavam completamente e nos impediam de fazer o que queríamos. Tive muitas situações dessas, grandes dissabores e que me custaram imenso, e que ainda hoje não as compreendo.

Por exemplo.

Temos um motor com 600 cavalos, o camião não consegue subir rampas na areia, quebra muito, e é importante apostar num motor mais potente. Arranjámos dinheiro, quem nos fizesse esse trabalho, mas que só atendeu o telefone quando eu já estava absolutamente desesperada. Faz um trabalho excelente, mas a história continuou. Deixaram cair o motor no transporte, partiram peças, arranjámos, colocámos o motor, fomos para a corrida, fizemos uma etapa e o motor partiu. Faz sentido? Não faz.

O que é que apetece fazer numa situação dessas?

Chorar, de certeza, é uma frustração enorme. Outro exemplo, a suspensão, é dos elementos mais importantes no camião. Durante muito tempo, era um homem em Portugal que a fazia só para mim, era excelente, durante muitos anos andava o que queria. Não sei porquê, as coisas deixaram de funcionar e fui à procura de outra marca. Escolhi a marca que fazia amortecedores para os outros camiões. No final da corrida, toda a gente superfeliz com os amortecedores e eu superfrustrada, não conseguia andar, só levava pancada. Durante três anos, foi até ao limite do desespero. Neste ano, à última da hora, decidimos fazer um sacrifício enorme e apostar noutra marca de amortecedores, deitar aquela para o lixo. E foi isso que permitiu fazer a figura que fizemos neste ano. Já tinha este nível de condução há dois ou três anos, só que não tinha forma de ir para a frente. Com os amortecedores deste ano, consegui andar mais depressa e em segurança, e andar a lutar pelos lugares da frente. Agora, pergunte porque é que os amortecedores não funcionaram? Não sei.

Nos momentos mais difíceis, o que é que foi fundamental para continuar?

O facto de acreditar que tinha condições para fazer uma boa prova, ter bons resultados e não querer deitar para o lixo tudo aquilo em que tinha investido durante tantos anos. Entreguei a minha vida à competição, foram muitos anos para tentar chegar a um ponto: provar que era uma boa condutora e que era capaz de andar rápido. Foi duro, tive muitos momentos de desespero e de frustração.

"Nunca pensei desistir porque a minha meta era chegar ao topo."

Pensou em desistir?

Nunca pensei, porque a minha meta era chegar ao ponto mais alto, acreditava que era capaz de o fazer.

O facto de ter o marido ao lado também ajuda?

Foi fundamental, de outra forma não o conseguiria fazer.

Também pode ser complicado trabalhar com o marido

Mas se ele tivesse uma outra atividade, já tinha parado. O facto de estar nisto comigo faz que perceba os meus problemas, trabalhamos em equipa. Se ele tivesse outro trabalho, como é que percebia que eu fosse no meio do deserto, no meio dos homens todos? Acho que não funcionaria.

Têm alguma regra para que a vida profissional não interfira na vida pessoal?

Não temos e, por isso, tivemos necessidade de encontrar um hobby onde pudéssemos desligar a ficha das corridas. Por isso, é que começámos a fazer mergulho os dois.

"As coisas que fazemos com sucesso, fazemos os dois."

Sempre os dois, não sentem necessidade de se distanciar de vez em quando?

(Ri-se) Não temos essa necessidade e gostamos de fazer as coisas em conjunto. E as coisas que fazemos com sucesso, fazemos os dois. É engraçado, nunca pensámos nisso e, se calhar, é a primeira pessoa que me faz pensar nesse assunto. Não temos hobby separados, de facto, tudo o que fazemos é em conjunto, sentimo-nos bem os dois assim.

Continuam a manter o mesmo grupo de amigos?

Sim, somos pessoas muito sociáveis, gostamos de estar uns com os outros, de jantar, tenho amigos de longa data, desde que comecei a andar de moto.

"O que querem que eu faça? Sou capaz de fazer tudo que quiser."

Tem pena do que poderá ter deixado para trás?

Deixei muitas coisas para trás, mas tudo o que deixei foi por algo que me deu mais e que compensa plenamente, cresci como pessoa. E ganhei a convicção de olhar para o mundo e poder dizer: "O que querem que eu faça? Sou capaz de fazer tudo que quiser." Pode ser uma falsa convicção mas o esforço que fiz deu-me uma força fabulosa. É isso que as mulheres precisam, para enfrentar a vida, os desafios, as inseguranças, isto foi um processo de construção e que me deu uma força enorme.

Não se arrepende de nada?

Se voltasse atrás, a única coisa que lamento é não ter tido logo a visão de que podia ser uma desportista de forma séria, comecei por brincadeira. Se calhar, não investi suficientemente cedo para obter resultados mais cedo.

Uma vez que falou no seu gosto por crianças, que se continuasse no ensino poderia ter uma carregada de filhos, tenho de lhe perguntar se não tem pena de não ter filhos?

Não aconteceu porque fui sempre adiando, pensava para o ano não ia conseguir dinheiro para correr e queria aproveitar nesse ano. Conseguia dinheiro e adiava mais um ano. Pensava: "É o último e vamos ver se faço bem." Conseguia fazer tão bem que conseguia dinheiro para o ano seguinte, e o tempo foi passando, passou muito depressa.

E o tempo das mulheres é limitado

É, mas não me arrependo.

"Ser portuguesa significa que não valorizamos o desporto."

É mulher, portuguesa e a conduzir um camião, é a combinação perfeita para o preconceito?

Ser portuguesa significa que não valorizamos o desporto. Os franceses, os espanhóis, ou os russos, por exemplo, adoram o desporto. Sou conhecida nesses países pelos resultados que tenho tido, não vou dizer que tenho mais destaque lá porque não tenho forma de o medir, mas a verdade é que as pessoas prezam o desporto e conhecem-me. Em Portugal, o desporto não é nada que interesse e, apesar de, no África Eco Race, estar a disputar a liderança desde o princípio, tinha uma peçazinha num ou outro canal de televisão.

Está a excluir o futebol.

Claro, à exceção do futebol. Temos muito bons desportistas em Portugal e muitos deles ficam pelo caminho porque não conseguem ter destaque, acabam por não se sentir compensadas pelo seu esforço. E o desporto é das profissões mais duras, vamos ao limite com as nossas capacidades físicas e psicológicas. E o que queremos é a notoriedade, sermos reconhecidos pelo que fizemos, que é a única forma de conseguir patrocínios.

Se fosse um homem, seria diferente?

As diferenças seriam muitas.

Nestes 27 anos de competição houve melhorias a nível da igualdade de género?

O que mudou é que agora falamos muito nas questões de igualdade de género, da igualdade de oportunidades, da necessidade de um tratamento mais igualitário. Na prática, se calhar essa é a única diferença. Fiz a minha primeira corrida em 1992, éramos duas ou três mulheres. Nesta última corrida, havia uma rapariga de moto e, de carro, haveria uma navegadora. As coisas não estão muito diferentes, só que agora falamos mais porque há a consciência das mulheres que querem dar um contributo muito importante para a sociedade. Homens e mulheres são diferentes e ambos têm coisas muito boas. O trabalho em equipa é o melhor que há, a minha equipa teve o sucesso que teve porque tem as duas perspetivas.

Porque é que não se avançou mais?

Porque só agora é que começámos a ver isto como um aspeto importante e nada se fez até aqui para mudar a forma de educar. Tem de se educar as crianças de forma diferente e nós, mulheres, educamos os nossos filhos como as nossas mães nos educaram, como as nossas avós educaram as nossas mães e não questionamos, não paramos para pensar. E passamos valores que muitas vezes são contra nós, cultivamos a situação que temos. Somos nós, mulheres, as responsáveis.

Alcançou o sonho mais alto, o que aí vem a seguir?

Gostava de continuar a competir e a ter bons resultados, agora também já não quero ir para ser a última.

Mais responsabilidade, tem um lugar a defender.

É isso, temos de ver se conseguimos condições, dependo de patrocínios.

O que vai fazer quando deixar as corridas?

Nunca pus essa questão de forma muito séria. Quando chegar o momento, vou ter de pensar seriamente no assunto, vai ter de ser.

Voltar ao ensino da Geografia?

Não sei, as minhas colegas dizem que o ensino mudou muito e que não me vou adaptar. Mas, como sempre gostei muito de dar aulas, uma coisa que sempre me satisfez, tenho de pensar seriamente no assunto.

Terminamos com uma boa história?

Numa competição não sei se há histórias engraçadas. Quando chego ao acampamento, só me sobra tempo para comer. Normalmente tenho uma série de trabalhos - escrever para oblogue, para as revistas -, para garantir o mínimo de retorno para o que preciso, não sobra praticamente tempo. Os mecânicos têm de trabalhar toda a noite se for preciso, o navegador tem de analisar o road book

Que é?

É o caderninho com o nosso percurso, com todos os obstáculos, que é secreto até à véspera de cada prova. Só depois de acabar uma etapa é que o navegador prepara o road book para o dia seguinte, marcar com cores para ver as lombas, os sinais de perigo, preparar isso tudo.

Se tivesse dinheiro para ter mais uma pessoa na equipa, quem seria?

Levava uma pessoa para me ajudar a recuperar fisicamente, dava-me muito jeito alguém que me desse massagens, para fazer alongamentos. A organização tem sempre um osteopata, um fisioterapeuta, mas anda toda a gente à procura deles, nunca chega a ajudar realmente muito

"O camião ardeu todo, foi um dos piores momentos da minha vida."

Vamos à história.

Toda a vida conduzi um camião da marca MAN (M 2000), pequenino, fácil de conduzir, extremamente simpático. Entendia-me muito bem com ele e dizia que o camião entendia os meus pensamentos. Quando me diziam que devia trocar porque tinham aparecido outros modelos e o camião tinha um motor limitado, brincava que tinham de me dar um cheque para que isso acontecesse. O Dakar em África foi anulado, no ano seguinte mudou-se para a América Latina e eu fui como toda a gente no entusiasmo de ver como era o Dakar na América Latina. Mas um dos problemas que surgiu foi que o terreno se desfazia num pó que ficava no ar durante muito tempo, era a sensação de cegueira absoluta. Desde o primeiro dia que havia camiões a bater na traseira do camião da frente e houve vários acidentes. Um dia, entro numa nuvem de pó e sinto bater em qualquer coisa com muita violência. Depois de muitas manobras, vejo que tinha buggy agarrado ao camião e que estava a arder. Só tivemos tempo de sair com os extintores para apagar o fogo, não o conseguimos. O camião ardeu todo, foi um dos piores momentos da minha vida. Naquele momento, vi arder todo o meu sonho, todo o meu trabalho e a minha ambição se desfez naquele momento.

Nem assim pensou em desistir?

Pensei que seria o mais certo, o camião ainda estava a ser pago. Foi um desgosto enorme, não consigo explicar o que senti naquele momento e nas horas que se seguiram. Mas, a vida tem destas coisas giras, quando achava que não voltava a correr, que tudo tinha acabado, há um homem que vem ter comigo e diz: "Fechou-se uma porta mas tens uma janela de oportunidades." Tive vontade de lhe dar um valente pontapé no rabo para que fosse parar ao outro lado do mundo. Aquele homem trabalhava em Miami e tinha um camião que tinha sido encomendado por um espanhol, que não o levantou. Consegui, com o patrocinador, arranjar condições para comprar o camião e continuar a correr. Consegui competir logo na corrida seguinte e foi uma coisa fabulosa. É o camião que tenho agora (MAN TGS). Foi graças a esta circunstância triste, que permitiu hoje estar a conversar sobre esta vitória e a contar as minhas proezas. As minhas histórias andam muito à volta destas circunstâncias esquisitas.

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