Clubes e associações de modalidades de pavilhão em risco de não sobreviver

Presidentes das federações de ginástica, natação, ténis de mesa e associação de ginásios querem reabertura das instalações. Confederação do Desporto de Portugal fala em "calamidade" e defende criação de fundo de emergência para o setor

Clubes e associações desportivas correm o risco de não sobreviver à pandemia de covid-19 se não forem reabertas urgentemente as instalações cobertas, segundo os presidentes das federações de ginástica, natação, ténis de mesa e associação de ginásios.

As dificuldades económicas dos seus associados foram uma preocupação comum manifestada pelos líderes daquelas quatro estruturas, numa videoconferência de imprensa conjunta, em que salientaram a necessidade de o Governo regulamentar a retoma das atividades físicas em espaços cobertos, à semelhança do que já fez com as que se desenrolam ao ar livre.

Após o fim do estado de emergência, em 3 de maio, o Governo autorizou apenas o regresso do desporto ao ar livre, com destaque para a I Liga de futebol, deixando de fora todas as modalidades praticadas em recintos cobertos, além de proibir expressamente a abertura e utilização de piscinas, ginásios, balneários e outros equipamentos de apoio à atividade desportiva.

"Sem instalações não há atividades, não há desenvolvimento desportivo nem organizações sustentáveis e o tecido económico desportivo vai falir em cerca de um mês", enquadrou o presidente da Federação Portuguesa de Natação (FPN), António José Silva.

O "preço final" da crise pode ser "incalculável", reforçou o presidente da Federação de Ginástica de Portugal (FGP), João Paulo Rocha, enquanto o líder da Associação de Empresas de Ginásios e Academias de Portugal (AGAP), José Carlos Reis, alertou para o "extenso desemprego e número de clubes a encerrar atividade", ao que o homólogo do Ténis de Mesa (FPTM), Pedro Miguel Moura, acrescentou que "não será possível aguentar muito mais tempo".

"A FPTM está equipada e preparada para supervisionar o regresso à atividade de todos os seus clubes. Estes estão preparados para regressar e nós, como federação, estamos preparados para os auxiliar", assegurou Pedro Miguel Moura.

Para isso, entendem que é necessário que o governo dê "um sinal e uma orientação" com a maior brevidade possível, sob pena de tornar a prática desportiva "perigosa aos olhos da opinião pública", como teme João Paulo Rocha, da FGP.

"Estamos perplexos com a total ausência de regulamentação para os recintos fechados. Os clubes, ginásios e academias têm um longo historial de responsabilidade técnica e social, tendo sabido adaptar-se às restrições. Elaboraram planos de contingência para um regresso faseado logo que fosse possível e essas condições existem numa escala muito maior do que numa ida a um restaurante, supermercado ou cabeleireiro", concluiu João Paulo Rocha.

Os líderes federativos passaram várias vezes a mensagem de que os equipamentos desportivos cobertos têm "melhores condições de higiene" do que alguns espaços de prática desportiva ao ar livre e o líder da FPN destacou que "mesmo nos países mais afetados pela pandemia tem havido um progressivo retomar da atividade em instalações cobertas" com os devidos "protocolos de desinfeção" que permitem a utilização de balneários como "ponto de chegada e partida".

"No caso particular das piscinas, não há perigo acrescido da utilização da água, devido ao cloro. E o perigo associado que existe pode ser salvaguardado com protocolos de higienização e segurança muito bem definidos", defendeu António José Silva, que, já esta terça-feira comunicou abertura das piscinas do Centro de Alto Rendimento do Jamor para os nadadores profissionais.

Confederação do Desporto defende fundo de emergência para o setor

A criação de um fundo de emergência, o cumprimento dos contratos-programa e uma redução do IVA em alguns setores são algumas propostas da Confederação do Desporto de Portugal (CDP) face à crise no setor devido à pandemia de covid-19. "Grande parte do financiamento vem das competições que organizavam. Existem muitos eventos que são fundamentais para as federações e que acabaram", lembrou Carlos Paula Cardoso, presidente da CDP, em declarações à Lusa.

O financiamento das federações, 60 das quais associadas da CDP, depende dos contratos-programa com o Estado, através do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), e das receitas próprias, agora quase inexistentes.

Em reunião mantida com as federações, em abril, foram elencadas as grandes preocupações e pontos essenciais, num período que tem afetado a prática desportiva e a vida de federações e clubes.

Carlos Paula Cardoso alertou para a inexistência de receitas autónomas das federações em período de pandemia e disse ser "fundamental que não haja interrupção nas verbas dos contratos-programa" com o Estado e que as mesmas não sejam diminuídas.

O dirigente lembrou que em 2013, durante a intervenção da troika na crise financeira em Portugal, algumas federações chegaram a ter financiamento cortado até 25% nos contratos-programa com o Estado.

Em relação à possibilidade de se criar um fundo de emergência, o dirigente admitiu que há federações em situação de "quase calamidade", bem como os clubes, num contexto em que estes são verdadeiramente afetados.´"Os clubes são a verdadeira rede desportiva nacional e são os que mais sofrem neste momento", sublinhou o presidente da CDP, acrescentando que o organismo já pediu uma audiência ao Primeiro-Ministro, António Costa.

Em 28 de abril, a CDP, o Comité Olímpico de Portugal e o Comité Paralímpico de Portugal estiveram reunidos com António Costa, num encontro que serviu, segundo Carlos Paula Cardoso, para abordar a retoma de alguns desportos e quando o país passou do estado de emergência para o de calamidade. "O fundo de emergência tem que ter uma base mais vasta", defendeu Carlos Paula Cardoso, lembrando o plano Marshall, de recuperação europeia após a II Guerra Mundial.

Para as federações e a CDP, outros aspetos essenciais na retoma económica e desportiva são uma diminuição ao nível da tributação, dando como exemplos a redução do IVA em materiais e equipamentos desportivos, entre outras tributações, e uma atenção ao estatuto do emprego e voluntariado.

Carlos Paula Cardoso alertou que muitos agentes estão nos clubes voluntariamente e que seria importante criar o estatuto do agente desportivo benévolo, com propostas que possam reforçar este papel, quando muitos, devido à crise sanitária, podem desistir. "Por exemplo, poderia contar para tempo de serviço, terem estímulos ao nível do IRS", indicou o presidente da CDP.

Na reunião com as federações, Carlos Paula Cardoso disse ter contado com 70% das associadas da confederação, em que todos os presidentes falaram.

Além da reunião com as federações desportivas, a CDP já se reuniu também a Fundação do Desporto, com a Associação dos Treinadores, com a Associação dos Municípios Portugueses e com a Associação Nacional das Freguesias, num 'levantamento' do cenário e preocupações com o movimento desportivo.

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