80.ª Volta a Portugal. Os favoritos, as dificuldades e curiosidades

A W-52 FC Porto é a grande favorita, com o Sporting-Tavira como principal rival. Três anos depois, a Serra da Estrela volta a ter uma chegada e destaca-se a redução do número de corredores por equipa, de oito para sete, numa corrida que volta ao Algarve

Regressa esta quarta-feira a animação às estradas portuguesas que só a Volta a Portugal em Bicicleta consegue proporcionar, numa 80ª edição que se inicia com um prólogo em Setúbal e que se prolongará até 12 de agosto, com meta em Fafe, num total de 1578,9 quilómetros e com três chegadas em montanha (quarta, sétima e nona etapas). Esta quinta-feira, a primeira etapa irá ligar Alcácer do Sal a Albufeira, num percurso de 191,8 quilómetros, que marca o regresso do Algarve à prova. Destaca-se ainda a chegada em plena Serra da Estrela, três anos depois, ainda que nas Penhas da Saúde e não no Alto da Torre.

Na lista de inscritos, só cinco ganharam a Volta no passado: Raul Alarcón, Rui Vinhas, Gustavo Veloso, Alejandro Marque e Ricardo Mestre. A equipa favorita à vitória continua a ser a W-52 FC Porto, não só por ter ganho as últimas cinco edições, mas por ter dominado as provas do calendário nacional nos últimos meses, nomeadamente o GP Nacional 2 (triunfo de Raúl Alarcón), o Troféu Joaquim Agostinho, com vitória de José Neves, e o Grande Prémio JN, com triunfo de António Carvalho. O Sporting-Tavira será, à partida, o grande opositor, com a Efapel à espreita.

O vencedor de cada etapa receberá 3060 euros, com exceção do prólogo, onde o prémio são 1490 euros. O vencedor final levará para casa 16 mil euros. Os espanhóis Raúl Alarcón, vencedor da Volta no ano passado, e Gustavo Veloso, que triunfou em 2014 e 2015, são os nomes mais fortes da equipa W-52 FC Porto que prima pelo equilíbrio, destacando-se ainda António Carvalho, que está em grande forma e que poderá, quem sabe, afirmar-se como o número 1. Isto sem esquecer Rui Vinhas, o surpreendente vencedor de há dois anos e Ricardo Mestre, que ganhou em 2011.

No Sporting-Tavira, o português Jóni Brandão, segundo classificado em 2015, parece ser o nome mais bem colocado para lutar pela vitória, seguido pelo espanhol Alejandro Marque, vencedor em 2013, e pelo veterano italiano Rinaldo Nocentini. Quanto à Efapel, as grandes apostas são os portugueses Henrique Casimiro e Sérgio Paulinho. Mais atrás, a Aviludo-Louletano também parte com ténues aspirações, depois de confirmada a presença do espanhol Vicente García de Mateos, terceiro classificado no ano passado e que esteve suspenso provisoriamente devido a irregularidades no passaporte biológico. A equipa algarvia conta ainda com Luís Mendonça, vencedor da última Volta ao Alentejo.

As outras equipas portuguesas são a Vito-Feirense-Blackjack, a Rádio Popular-Boavista, a Liberty Seguros, a LA-Alumínios e a Miranda-Mortágua. Mas à partida nenhuma parece ter grandes aspirações de entrar na discussão dos primeiros lugares. O mesmo acontece com as dez formações estrangeiras. Tudo seria diferente se os belgas da WB Aqua Protect Veranclassic se apresentassem com as primeiras linhas, mas os seus nomes mais sonantes ficaram de fora.

Só sete ciclistas por equipa

A grande novidade desta 80.ª Volta a Portugal em Bicicleta é a redução do número de corredores de cada equipa, de oito para sete. Algo que na opinião do antigo ciclista Rui Sousa poderá fazer bastante diferença. "É certo que vai ser igual para todos, mas em algumas etapas, ter esse número de atletas mais reduzido pode ser muito curto para as principais equipas controlarem a sua vantagem", defendeu ao DN o ex-ciclista que aos 41 anos terminou a carreira precisamente após a Volta a Portugal do ano passado.

Venceslau Fernandes, outro ex-ciclista, concorda com esta diminuição no número de corredores por cada formação. "As nossas estradas não estão preparadas para receber 180 a 200 ciclistas, mas apenas entre 130 a 140. Desta forma, haverá menos quedas e diminui-se o número de ciclistas sem se reduzir a quantidade de equipas. Estou de acordo com esta medida", sublinha.

Rui Sousa não duvida do favoritismo da W-52 FC Porto. "É uma equipa muito forte e não acredito que vá deixar os seus créditos por mãos alheias, até porque tem dado cartas nas provas realizadas esta época. E conta com o Raúl Alarcón, cuja qualidade está à vista de todos e pode ser confirmada por mim, pois fomos colegas. Pode já não ter a mesma potência física de há alguns anos, mas continua a um nível muito alto. E, claro, não podemos esquecer Gustavo Veloso, um vencedor nato e que é sempre um ciclista muito marcado pelos outros corredores, pois já ganhou duas vezes a Volta. Temos ainda o Rui Vinhas, que ninguém esperava que fosse o vencedor há dois anos", lembra.

Venceslau Fernandes dá quase como garantida mais uma vitória da W-52 FC Porto, "pois é de longe a equipa com mais individualidades e com um grupo mais equilibrado, dispondo de quatro grandes candidatos à vitória final, qualquer um deles com provas dadas ao mais alto nível". No Sporting-Tavira, Rui Sousa defende que "Nocentino e Joni Brandão podem dar grande luta", apontando ainda os nomes de Sérgio Paulinho (Efapell) e Daniel Silva (Rádio Popular) como potenciais vencedores. Já Venceslau Fernandes não tem grande fé no Sporting-Tavira, que considera "uma equipazinha com um ou dois nomes que chegaram rotulados como grandes ciclistas mas que ainda nada provaram em Portugal". Por isso, defende que "só se algumas equipas se aliarem para combater o domínio da W-52 FC Porto é que esta poderá vacilar um pouco", embora reforce que não acredita que os dragões não venham a ser coroados como vencedores.

Rui Sousa não tem grandes dúvidas de que "esta edição vai ser muito competitiva e só ficará decidida nos últimos dias". As duas derradeiras etapas da Volta são a sempre esperada subida à Senhora da Graça e o contrarrelógio final em Fafe. O ex-ciclista saúda o facto de, nesta edição, a Serra da Estrela voltar a ter uma chegada, "apesar de ser nas Penhas da Saúde e não no Alto da Torre", sublinhando que faz todo o sentido "este papel mais nobre reservado à montanha mais alta de Portugal".

Tendo em conta a sua experiência de muitas edições, Rui Sousa deixa o aviso aos ciclistas. "Tenham cuidado com aquelas etapas que podem à primeira vista parecer que não irão fazer grande mossa. Não é verdade, existem alguns percursos bastante traiçoeiros e tudo poderá ser deitado a perder com pequenos erros que se cometam".

Calor será o grande inimigo

Rui Sousa aponta o calor como a grande dificuldade que o pelotão vai enfrentar. Recorde-se que para os próximos dias estão previstas temperaturas a rondar os 40 graus em quase todo o país. "Os ciclistas treinaram sempre com temperaturas amenas, que muito raramente chegaram aos 30 graus e agora de repente ficou muito mais calor. Um ciclista poderá estar em condições perfeitas, mas ser muito afetado por estas temperaturas extremas. O pelotão vai sofrer imenso e ninguém se pode esquecer que na Volta vive-se um dia de cada vez, mas sempre a pensar no seguinte", realça.

Venceslau Fernandes não dá grande importância às temperaturas mais elevadas que são esperadas nos próximos dias. "Estamos em agosto e a Volta sempre se disputou neste mês, com muito calor. Quem está habituado a correr com 20 e tal graus aguentará os 30 e tal graus que se vão fazer sentir. O difícil é o que acontece na Volta a França ou na Volta a Itália, em que num dia há gelo e no dia seguinte temperaturas acima dos 25 graus", defende.

A modalidade do povo

De uma coisa Venceslau Fernandes não duvida: com mais ou menos calor, "a Volta continua a ser muito querida dos portugueses, até porque se realiza em agosto, quando as outras modalidades estão paradas em termos oficiais e quando muitas pessoas estão de férias", diz, acrescentando: "É a modalidade do povo e ainda por cima pode ser seguida a custo zero".

Esta será uma Volta muito diferente para Rui Sousa. "Após 20 anos como ciclista, vai ser uma nova experiência e sinto-me muito nostálgico. Estou envolvido na organização e vou acompanhar os convidados. Estarei em direto na SportTV, na partida e na meta de todas as etapas e no final da última etapa, em Fafe, estarei na RTP e recordarei a minha vitória no mesmo local na edição do ano passado", revela.

As equipas da Volta a Portugal em bicicleta

Profissional Continental:

WB Aqua Protect Veranclassic (Bélgica)

Israel Cycling Academy (Israel)

Euskadi-Murias (Espanha)

Caja Rural (Espanha)

Continental:

W52-FC Porto (Portugal)

Sporting-Tavira (Portugal)

Aviludo-Louletano (Portugal)

Vito-Feirense-Blackjack (Portugal)

Efapel (Portugal)

Rádio Popular-Boavista (Portugal)

Miranda-Mortágua (Portugal)

Liberty Seguros-Carglass (Portugal)

LA Alumínios (Portugal)

Team Ecuador (Equador)

COOP (Noruega)

Differange-Losch (Luxemburgo)

Amore & Vita-Prodir (Albânia)

Mstina Focus (Roménia)

Sapura Cycling (Malta)

Os potenciais vencedores

Raúl Alarcón (W52-FC Porto): Vencedor incontestado da última edição da Volta, em que vestiu sempre a amarela, com exceção do prólogo. Não parecia estar em grande forma, mas desmentiu-o com a vitória no Grande Prémio N2, há dez dias.

Gustavo Veloso (W52-FC Porto): Vencedor da Volta em 2014 e 2015, perdeu protagonismo nas duas últimas edições e em 2017 foi mesmo uma enorme desilusão, ao ser apenas 24º classificado. É verdade que já tem 38 anos, mas ninguém duvida de que é um dos grandes candidatos à vitória e que continua a ser um ás em contrarrelógio e um corredor muito fiável nas subidas à montanha.

António Carvalho (W52-FC Porto): Sexto classificado da Volta em 2017, está num momento de forma excecional, tendo ganho o Grande Prémio Jornal de Notícias e terminado em quinto lugar no Troféu Joaquim Agostinho. Em teoria, teria a missão de trabalhar para Raúl Alarcón e Gustavo Veloso, mas não seria surpreendente se fosse o "novo Rui Vinhas", o vencedor-surpresa de há dois anos.

Jóni Brandão (Sporting-Tavira): Ausente em 2017 por motivos de saúde, conseguiu terminar nos cinco primeiros da Volta em três das últimas quatro edições. Será desta que irá alcançar um inédito triunfo? Para isso, terá de surgir mais forte do que tem mostrado na época em curso, cujo único ponto alto foi o terceiro lugar no Troféu Joaquim Agostinho.

Alejandro Marque (Sporting-Tavira): Vencedor da Volta a Portugal de 2013, mudou-se na altura para a Movistar, mas esteve um ano parado depois de ter acusado positivo num controlo antidoping, do qual foi absolvido. Surpreendentemente, regressou em grande plano e foi terceiro na Volta de 2015. No ano passado, já no Sporting, foi quinto classificado.

Rinaldo Nocentino (Sporting-Tavira): O veterano italiano de 40 anos que se destacou por vestir de amarelo em oito etapas do Tour de França de 2009, obteve este ano duas vitórias em etapas no conceituado La Tropicale Amissa Bongo, no Gabão. No entanto, não conseguiu terminar a Volta ao Algarve e o GP Beiras.Concorre com Alejandro Marque e Joni Brandão pelo lugar de chefe de fila na equipa leonina.

Sérgio Paulinho (Efapel): Foi nono classificado na Volta de 2017 e não tem tido um ano de 2018 particularmente feliz, daí que até não seja muito surpreendente se perder o lugar de chefe de fila da Efapel para Henrique Casimiro. Ainda assim, num ciclista tão experiente e com tanta qualidade, é sempre de esperar o melhor.

Henrique Casimiro (Efapel): Oitavo classificado na Volta de 2017, está em grande forma, como se provou pela recente vitória no Alto de Montejunto, no Troféu Joaquim Agostinho, em que foi segundo na geral. Foi ainda terceiro na prova de fundo dos Nacionais de estrada quarto no Grande Prémio das Beiras.

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