Josimar Dias, que o Mundo conhece por Vozinha, já não é só um guarda-redes de 40 anos desempregado e sensação do Mundial 2026. É alguém que vive o verdadeiro sonho americano e pode mesmo ser contratado pelo Inter Miami, a equipa da MSL, propriedade de David Beckham, onde joga Lionel Messi. É um fenómeno à escala global, que esgota camisolas e bate recordes em leilão, alguém que deu nome a uma rua em Cabo Verde, batizou uma nova espécie marinha, e se tornou assunto do programa das manhãs da CBS e convidado para o Jogo de Lendas da FIFA.A camisola de suplente do jogo com a Arábia Saudita, da fase de grupos do Mundial 2026 foi leiloada por um valor recorde de 11.116 euros. A venda decorreu no site MatchWornShirt, que nunca tinha registado um valor tão alto com uma camisola de guarda-redes. O recorde anterior pertencia a uma camisola utilizada pelo brasileiro Alisson num jogo do Liverpool em 2025 (10.131 euros). O pormenor que mais impressiona é que aquela nem foi usada por ele num jogo. Era a camisola suplente e foi depois autografada para seguir para leilão.As camisolas com o número 1 e o nome de Vozinha esgotaram durante o Campeonato do Mundo que se jogou nos EUA, México e Canadá, e que este domingo chegou ao fim, numa final que teve muito de Cabo Verde. Se a Espanha apadrinhou a estreia dos Tubarões Azuis num Mundial, que projetou o guardião para a ribalta mediática, a Argentina acabou com o sonho já nos 16-avos-de final, num dos melhores jogos do torneio (3-2). Em junho de 2026, ainda antes do adeus ao Mundial da seleção, o município de São Miguel, em Cabo Verde, inaugurou a Rua Vozinha e a Rua Tubarão Azul na localidade de Ponta Verde, e integrou a inauguração no programa das festividades de São João Baptista, padroeiro da localidade. Uma homenagem a Vozinha e à seleção pela surpreendente campanha no Mundial de futebol. A equipa comandada por Bubista empatou com a Espanha (0-0), com o Uruguai (2-2) e com a Arábia Saudita (0-0) e perdeu com a Argentina (3-2)..Com as sete defesas de enorme qualidade com que fechou a baliza no jogo de estreia, frente à seleção espanhola, que chegou à final do Mundial, o mediatismo do cabo-verdiano explodiu e o Instagram de Vozinha disparou dos 50 mil para os 29 milhões de seguidores - mais do que Erling Haaland, por exemplo, que tem 26,5 milhões.Ele mais do que nenhum outro ajudou a colocar Cabo Verde no ranking dos motores de busca online. Vozinha foi o convidado especial de um dos programas mais vistos nos EUA, o CBS Morning e falou da loucura que têm sido as últimas semanas. “Nunca esperei nada disto, é de loucos! É também um pouco difícil... Gosto de me ligar às pessoas, em Cabo Verde podia cozinhar na rua e comer à porta de casa, agora não posso fazer isso. Antes dizíamos que éramos de Cabo Verde e perguntavam-nos onde era isso. Agora já não, é o melhor que aconteceu”, reconheceu, confessando querer “continuar a jogar”. .Vozinha conquistou o mundo (Vozinha konkista mundu, traduzido para crioulo), só lhe falta encontrar um clube para dar continuidade ao sonho. Aos 40 anos, e depois de ter acabado o contrato com o Desp. Chaves, clube onde jogou na temporada passada, ele ainda não está pronto para terminar a carreira.“Quando era jovem sempre tive o sonho de ser jogador profissional. No nosso país as possibilidades eram diminutas, somos africanos, cabo-verdianos, temos de lutar por um visto... Mesmo tendo talento, lá não nos veem. Adoro futebol, estar aqui com 40 anos é porque tenho paixão, quero jogar um ou dois anos, não sabemos como o corpo reage. Quero um clube que realmente me queira como jogador e não pelo marketing”, disse o N.º 1 de Cabo Verde, que tem sido aposta ganha também paras as marcas que o vestem, a ele e à seleção, como a Elite Sport (luvas) e a Capelli Sport (equipamentos).O guarda-redes veste uma luvas da marca Elite Sport - modelo Revolution X WG1 -, que também patrocina Tibaut Cortouis e o marroquino Bono, por exemplo, e que já durante o mundial que renovou a publicidade com Vozinha. Quando renovou contrato negociou 240 pares de luvas para distribuir pelos guarda-redes de todos os escalões em cabo Verde.Graças a ele e ao fenómeno que se tornou, também a marca novaiorquina que veste Cabo Verde saiu a ganhar. O fundadador, o norte-americano George Altirs, projetou estar presente “no maior palco do futebol mundial” e procurou uma das poucas seleções que as gigantes não queriam vestir e contactou a Federação Cabo-verdiana de Futebol para o fornecimento exclusivo de equipamentos a todas as seleções nacionais. A discreta parceria transformou-se numa das narrativas de maior sucesso do Mundial e gerou uma guerra judicial entre marcas de equipamentos desportivos. As novas camisolas da Capelli Sport começaram a esgotar e anterior parceira de equipamentos, a Tempo Sport, tentou apanhar a onda, lançando em modo pré-venda modelos anteriores a um preço muito mais convidativo: 34 euros em vez de 83 euros.Para homenagear o povo cabo-verdiano, dois cientistas batizaram uma nova espécie marinha recém-descoberta nas Caraíbas com o nome do guarda-redes. O molusco pertence à espécie popularmente conhecida por lesmas-do-mar. Sendo do género Adilsa, foi por isso batizada como Adilsa Vozinha pelos pesquisadores Jesús Ángel Ortea Rato, professor emérito da Universidade de Oviedo, em Espanha, e Rui Freitas, da Universidade Técnica do Atlântico, em Cabo Verde. O artigo Lesma-vozinha está publicado na revista Historias de la Bioadversidad 3..isaura.almeida@dn.pt