Viver para treinar e dividir nove metros quadrados

João Pereira é um dos atletas internos na Residência do Centro de Alto Rendimento e conta ao DN como é viver lá e porque está em vias de sair. O tutor Francis Obikwelu impôs recolher obrigatório porque a "disciplina é mais importante do que o talento"

João Pereira vive para treinar e treina para viver do desporto. O triatleta do Benfica é o mais credenciado entre os internos da Residência do Centro de Alto Rendimento (CAR) do Jamor, e, por isso, o eleito para guiar o DN numa visita ao espaço, que serve de casa a 54 atletas. E, apesar de estar em vias de "alugar uma casa", reconhece os benefícios de viver a metros do local de treino: "Só entrei para um clube [Benfica] quando já era bom. Foi aqui que cresci como atleta. Todo o investimento feito em mim foi no CAR. "

Já vai para dez anos que João ali mora, em pleno vale do rio Jamor (entre Lisboa e Oeiras), num espaço verde a perder de vista (230 hectares), a metros da zona costeira. Um local de excelência escolhido para acolher o complexo do Jamor em 1934 e inaugurado em 1944. Hoje funcionam ali os centros de Alto Rendimento para desportistas de alta competição, de ténis, atletismo, râguebi, golfe e tiro com arco. E inclui o Centro de Estágio e a residência onde os praticantes podem beneficiar dos serviços em regime de internato. Como é o caso de João Pereira, atleta do triatlo (corrida, natação e ciclismo).

O 5.º classificado no Rio 2016 não quer ser "aquele tipo que dá uma no cravo e outra na ferradura", mas mostra-se agora mais exigente e a pensar já em Tóquio 2020. "Claro que se nota que há um esforço para nos dar as melhores condições e mais agilidade das estruturas, mas nas competições é ombro a ombro, ninguém dá um descontos aos portugueses porque têm menos meios. O orçamento do triatlo dos EUA, por exemplo, é de 12 milhões de euros, e Portugal tem 13 milhões para o projeto olímpico todo. Tenho de pensar que daqui a quatro anos é a minha altura. Os portugueses vão querer medalhas e eu também", argumenta, explicando a necessidade de ter um espaço só seu.

João gosta da ideia de ter um quarto só para ele. Se for a dividir... "que seja com a namorada" [risos]. O atleta olímpico de 29 anos confessou algum "cansaço" por viver numa camarata com nove metros quadrados, que divide com Miguel Arraiolos. A nova casa "fica a menos de um quilómetro do Jamor". E o triatleta já sonha com "o silêncio, a internet que funciona e a televisão com comando na mão". Sim, porque numa residência com mais de 50 pessoas, e só uma ou duas televisões na sala de convívio, não é fácil chegar a um consenso sobre o programa ou filme a ver...

O polo de lazer do CAR foi alvo de obras de requalificação e está pronto a ser usado. É um salão amplo, com paredes de vidro que permitem a entrada da bonita paisagem do Jamor, onde saltam à vista a mesa de pingue-pongue e três de matraquilhos. Num dos cantos, a zona para ver televisão e uma kitchenette, não vá alguém querer um chazinho ou leite quente enquanto assiste à TV. O espaço contempla ainda uma sala de estudo e outra de informática que fica perto do gabinete de Filomena Carvalho, a responsável socioeducativa da residência. Na cave fica a lavandaria, uma área talvez mais usada do que a própria sala, já que a treinar duas vezes por dia há sempre bastante roupa suja para lavar. Falta ainda terminar o minicinema e a zona de churrasco...

João vai continuar a usufruir de tudo isso, pois, na prática, só vai "dormir fora"! As rotinas vão por isso manter-se, com treinos de segunda a sábado. O triatleta acorda por volta das 08.00 horas e às 09.00 já está a correr (uma/ /duas horas). A sessão matinal incluiu ainda uma hora ou mais a pedalar. Depois almoça, descansa na camarata e volta ao treino às 17.00, para nadar duas horas (na piscina olímpica do complexo) e fazer trabalho de ginásio. Depois janta e a seguir faz fisioterapia...

E folga? "No Natal e no Ano Novo", brinca o treinador Lino Barruncho, antes de explicar que há folga a cada quatro semanas. O atual selecionador nacional de triatlo já não vê "grandes vantagens, nesta fase da carreira do João", pelo facto de ele viver na residência, pois "é um atleta estável do ponto de vista desportivo e psicológico". "A fase dos devaneios já passou, mas claro que, com a carga de treino diário que ele e outros atletas de alta competição têm, poder viver a minutos do local de treino, tanto melhor", atira.

O treinador elogia ainda o esforço que o IPDJ tem feito para agilizar as burocracias e facilitar o treino. "Antes, para mudar um parafuso era preciso um e-mail ao Papa. Hoje as condições não são as ideais, mas são boas", diz, antes de recomendar melhorias na área da recuperação: "Os banhos de gelo, que agora já são de azoto, ou as passadeiras antigravitacionais."

Dieta e instalações degradadas

No dia em que guiou o DN pela residência, já eram 14.00 quando João Pereira se sentou à mesa para almoçar no refeitório do Centro de Estágio, a uns 30 metros da residência. Antes, uma sopa de legumes, salada e bacalhau com natas (a alternativa eram febras de coentrada). Em conversa com o DN, revela que "a dieta é elaborada por um nutricionista e melhorou muito". "Antes comíamos em pratos de plástico, mas ainda não é a ideal e o pequeno almoço devia ser reforçado."

O Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), entidade máxima no Jamor, esclareceu ao DN que "as ementas são elaboradas de acordo com um conjunto de requisitos próprios para atletas e o nutricionista do CAR verifica regularmente se os pratos estão confecionados de acordo com os requisitos".

Quando, em agosto de 2016, João Pereira cortou a meta em 5.º lugar, na prova olímpica do triatlo, os jornalistas questionaram-no sobre o que faltava para chegar às medalhas. E ele respondeu: "Mais condições. Eu estou no CAR Jamor desde que entrei para o triatlo, há dez anos. E há dez anos que está quase igual como estava há 30 anos." Hoje responde mais ou menos da mesma forma: "Está quase igual... Os quartos precisam de obras e deviam ser individuais ou duplos, mas com casa de banho privada."

A atual residência tem 42 quartos duplos, divididos em dois andares, e um balneário por corredor, com uma sapateira gigante onde os ténis repousam entre sessões de treino. Mas saltou à vista da reportagem do DN casas de banho sem porta. Vítor Pataco, antigo coordenador do CAR e agora vice--presidente do IPDJ, reconhece ao DN as debilidades da estrutura, mas lembra que "todos os anos os edifício da residência e do Centro de Estágio sofrem intervenções de melhoria no sentido de garantir a sua plena funcionalidade dentro das condicionantes estruturais próprias de edifícios construídos nos anos 70". E, mesmo que o IPDJ não se comprometa com isso, o DN soube que os quartos e os balneários vão ser alvo de obras em breve.

O tutor Francis Obikwelu

Viver na residência do CAR Jamor está longe do cenário de confraternização e festa que os filmes de Hollywood eternizaram sobre as residências de atletas. Primeiro porque aqui vivem desportistas de alta competição e não há muito tempo para conversas de corredor. E, claro, os homens estão proibidos de entrar na ala feminina e vice-versa. Se um atleta for apanhado na área do sexo oposto é alvo de um processo disciplinar e pode ser suspenso.

No ano passado houve alguns problemas e, por isso, nesta altura as regras estão mais rígidas, como contou ao DN o tutor Francis Obikwelu. "Quem sai à noite e não chega até à meia-noite não entra. Essa foi uma regra que eu inventei. Eles respeitam-me. Quando alguém se estica e põe a música muito alta, basta eu dar um berro do meu quarto e acaba logo... ", explicou o velocista, lembrando que, quando não está "o sargento Obikwelu", está o vigilante ou o segurança: "Tenho tudo controlado!"

Mais a sério, explica por que tem de haver regras. "Via muitos jovens ir treinar sem tomar o pequeno-almoço. Não pode ser! Depois começam a treinar e passado um tempo já está tudo cansado. Tenho de explicar que é importante comer bem, que o treino começa no pequeno-almoço, descansar bem, dormir cedo", defendeu o velocista, lembrando: "Quem está na residência tem apoio, precisa de aproveitar a oportunidade que o Estado está a dar. Antes não tínhamos pista de atletismo coberta para treinar, treinávamos ao ar livre, ao sol, chuva, vento e fizemos grandes marcas. Agora, há mais condições..."

Ter um medalhado olímpico (prata em Atenas 2004, nos 100 metros) como tutor é um luxo ao alcance de poucos. "Se for preciso castigar eu castigo. Alguns atletas que no ano passado fizeram confusão na residência foram embora. Agora temos menos, mas há muitos jovens, têm muita coisa para aprender. É fundamental para eles viver na residência e crescer ao lado de outros atletas que sejam exemplo, como eu."

A responsabilidade é grande, mas não assusta o luso-nigeriano: "Disciplina é importante. Podes ter o maior talento do mundo, mas se não tens disciplina não chegas lá." E agora que está a dar os primeiros passos como treinador-atleta, Obikwelu não facilita na missão. "Por vezes os atletas talentosos relaxam, mas eu digo-lhes que não quero saber do talento, quem não tem respeito ou capacidade de trabalho vai embora fazer outra coisa, não é atleta", defendeu: "Comigo não há tablet ou telemóvel e quem chegar tarde ao treino vai para casa, não há desculpa. "Ah, estava trânsito e tal...", não quero saber, sai mais cedo. Se é às 09.30 é 09.30. Se não tchau, na próxima vez mais cedo."

O tutor Francis Obikwelu gosta de viver na residência. Mesmo que seja em part-time. "Tenho casa, mas gosto de ir lá de vez em quando à noite surpreendê-los e ver se está tudo bem. E é bom porque tenho treinos bidiários e por isso ter um quarto para descansar na residência entre treinos é vantajoso", admitiu o atleta do Sporting, integrado no Projeto Olímpico Tóquio 2020.

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