A assembleia geral do Vitória Futebol Clube, marcada para sexta-feira, 22 de maio, decorre num contexto em que a atual direção assinou alterações contratuais com uma empresa ligada ao antigo investidor da SAD, Hugo Pinto. Documentos consultados pelo DN indicam que o presidente Francisco Alves Rito e o vice-presidente Miguel Reizinho aprovaram um aditamento ao contrato do projeto urbanístico do Bonfim que reduz substancialmente a garantia bancária exigida à Mirante Sideral, empresa liderada pelo advogado de Hugo Pinto, sem comunicação prévia aos sócios. Ao DN, Francisco Rito nega que tenha assinado esse aditamento, remetendo responsabilidades para a direção anterior, mas o contrato a que o DN teve acesso, datado de 7 de abril de 2025, terá sido assinado por ele e pelo vice-presidente.A votação de duas propostas de investimento ocorre assim num enquadramento em que subsistem relações formais entre o clube e estruturas associadas ao período em que Hugo Pinto detinha influência sobre a antiga SAD. E decorrem sem que as propostas em cima da mesa - da Travfer e de um consórcio liderado pelo ex-jogador do Chelsea Filipe Morais - tenham sido publicamente apresentadas e dadas a conhecer à massa associativa do clube.A ordem de trabalhos não descreve o conteúdo das propostas, apesar da importância do que está em jogo. O DN tentou obter esclarecimentos do presidente da mesa da assembleia geral do clube, Rui Chumbita Nunes, mas o também advogado remeteu declarações apenas para o final da semana. Já o presidente da direção, Francisco Rito, recusou adiantar detalhes das duas propostas, porque os pretende “revelar em primeira mão aos associados”, durante a assembleia.O DN conseguiu apurar, no entanto, os elementos essenciais de cada proposta. As principais diferenças estão no papel que o investidor assumirá no futebol do clube e no destino a dar aos terrenos do Vale do Cobro, que têm 30 mil metros quadrados e valem cerca de cinco milhões de euros.Consórcio internacional quer assumir futebol para levar o Vitória à Primeira Liga. E deixa estádio e terrenos na posse do clubeA primeira proposta é apresentada por um consórcio internacional liderado por Filipe Morais, ex-jogador formado no Chelsea. Este grupo propõe assumir a totalidade da dívida do Vitória, estimada em cerca de sete milhões de euros, incluindo o pagamento imediato de 2,2 milhões de euros à Autoridade Tributária e a assunção do restante montante integrado no Plano de Insolvência e Recuperação (PIRE), que envolve cerca de 150 credores. O consórcio prevê um investimento inicial de dez milhões de euros no futebol, distribuído pelos primeiros cinco anos, com o objetivo de alcançar a Primeira Liga nesse período. O modelo inclui a criação de uma SAD com 60% de capital para o investidor e 40% para o clube, com aumentos progressivos de 10% por cada subida de divisão, até ao limite de 90%.O plano financeiro do consórcio integra ainda a construção de um novo estádio no Bonfim, com um custo estimado de 50 milhões de euros, financiado pelo parceiro imobiliário Revelate Capital, do empresário irlandês Mark O’Brian, que integra o consórcio. O estádio teria 15 mil lugares, quatro bancadas cobertas, 20 camarotes, estacionamento subterrâneo e novos espaços para modalidades, museu e loja oficial. O estádio permaneceria propriedade do clube, sendo cedido à nova SAD do grupo investidor através de contrato de utilização. O projeto imobiliário associado, já com Pedido de Informação Prévia aprovado, prevê 446 fogos e áreas comerciais, com custo de construção de cerca de €200 milhões. Os terrenos do Vale do Cobro, com 30 mil metros quadrados de superfície e um valor de mercado estimado a rondar os cinco milhões de euros, permaneceriam na posse do Vitória.O consórcio pretende manter o atual diretor desportivo do Vitória, Carlos André, bem como o treinador Paulo Martins, que já conseguiu duas subidas de divisão nos últimos anos.O DN teve acesso a emails que foram enviados pelo consórcio para membros dos órgãos sociais do clube, onde constam várias imagens do projeto do consórcio internacional (ver ao lado).Patrocinador Tavfer deixa futebol nas mãos do clube e quer terrenos do Vale do CobroA segunda proposta é apresentada pela Tavfer, atual patrocinador do clube. A empresa propõe assumir as dívidas à Autoridade Tributária através de um plano de pagamento. A Tavfer compromete-se a assumir esse encargo, atualmente de cerca de 30 mil euros mensais. A Tavfer propõe ainda manter o patrocínio anual de 250 mil euros. Em contrapartida, pretende adquirir os terrenos do Vale do Cobro. A Mirante Sideral manteria os direitos sobre o projeto urbanístico do Bonfim caso tivesse capacidade financeira para cumprir o atual contrato, que neste momento se encontra em incumprimento devido à não apresentação da garantia bancária. Os representantes da Tavfer são Carlos Silva e David Leonardo, antigos dirigentes do clube no período em que Hugo Pinto assumiu o controlo da antiga SAD.A Mirante Sideral mantém os direitos sobre o projeto do Bonfim, enquanto a Tavfer pretende adquirir os terrenos do Vale do Cobro. O ponto 3 da ordem de trabalhos da assembleia, que prevê uma votação para autorizar a constituição de uma hipoteca sobre os terrenos do Vale do Cobro, parece estar relacionado com o ponto anterior, que será o da votação das propostas. Até ao fecho, não foi possível confirmar se o ponto 3 diz respeito à proposta da Travfer.Aditamento polémicoA documentação analisada pelo DN permite reconstruir o percurso contratual que conduz à situação atual. A empresa Importante Altura, ligada a Hugo Pinto e detentora das ações da antiga SAD (hoje em liquidação) e dos direitos de construção no Bonfim, assinou uma declaração formal de renúncia a esses direitos. Contudo, esses direitos foram transferidos para a Mirante Sideral Lda., liderada pelo advogado de Hugo Pinto, Carlos Guimarães Pinto. A transferência ocorreu numa fase em que a Importante Altura se encontrava em liquidação.Após essa renúncia, foi celebrado um contrato‑promessa de compra e venda de bem futuro entre o Vitória FC e a Mirante Sideral. O contrato prevê a futura alienação dos lotes habitacionais H1 e H2, por um valor total de 22 milhões de euros, mantendo o controlo do projeto urbanístico no mesmo universo empresarial. O clube ficaria responsável pela reconstrução do estádio no lote E1, com um valor de 12 milhões de euros destinado a essa finalidade, depositado numa conta escrow.Posteriormente, foram realizados dois aditamentos ao contrato. O primeiro foi assinado durante o período de comissão de gestão e alterou as condições da garantia bancária inicialmente prevista. O segundo aditamento, assinado já pela atual direção, introduziu alterações mais significativas. O DN teve acesso ao contrato, datado de 7 de abril de 2025, que reduz a garantia bancária exigida à Mirante Sideral de um mínimo de um milhão de euros para um valor equivalente a “doze prestações mensais do PIRE”, atualmente cerca de 30 mil euros por mês, num total aproximado de 360 mil euros. Em contrapartida, o clube terá recebido um sinal de 50 mil euros. Estas alterações não terão sido comunicadas aos sócios, nem submetidas a votação em assembleia. O DN questionou o presidente do clube a este respeito, tendo Francisco Rito negado qualquer irregularidade da sua autoria ou da direção que lidera. “É um absurdo”, diz o presidente. “Esta direção não reduziu nenhuma garantia bancária. O contrato que refere a uma garantia bancária que acabou de invocar é um contrato que foi feito antes desta direção e essa garantia bancária continua a fazer parte desse contrato que ainda está em vigor para o projeto imobiliário no Estádio do Bonfim e, portanto, o que nós vamos levar a esta atual assembleia geral não tem nada a ver com isso, não tem nada a ver com o contrato de assistente para o Estádio do Bonfim, mas sim uma outra solução que, precisamente, procura não termos que estar dependentes do projeto imobiliário para o Bonfim, para libertar o clube dessa situação em que se encontrava anteriormente”, salientou Francisco Rito em declarações ao Diário de Notícias.Porém, a existência destes aditamentos é relevante para a compreensão do contexto em que a Tavfer apresenta a sua proposta. A Mirante Sideral mantém os direitos sobre o projeto do Bonfim, enquanto a Tavfer pretende adquirir os terrenos do Vale do Cobro. Os sócios do Vitória vão tomar a decisão final na sexta-feira..Boavista chega a acordo com principal credor para salvar estádio.Boavista falhou inscrição na II Liga, não pode jogar no Bessa e pode acabar nos distritais