A paixão pelo ciclismo nasceu em criança, ao ver passar pelo distrito de Viseu algumas das etapas da Volta a Portugal, fascinado pela forma como os atletas conseguiam, em pleno agosto, superar o calor e conseguir ter energia para fazer as principais subidas. O ‘bichinho’ pela modalidade ficou e, mais tarde, também esteve presente no trajeto académico, através de um projeto de mestrado que implicava criar um site noticioso e escrever diariamente sobre a modalidade. Agora, esse apego e conhecimento ganhou a forma de um livro, já disponível nas livrarias, e que olha com particular atenção para a prova rainha do calendário internacional e para a forma como a modalidade mudou nos último anos à conta da evolução científica aplicada ao desporto. Falamos de A Volta a França, etapa a etapa (2010-2025) - Europa Editora, da autoria de Frederico Bártolo, jornalista do Diário de Notícias, que descreve algumas das razões que ajudaram a elevar o estatuto do Tour francês. “Nunca existiram provas que superassem a Volta a França. A própria empresa que organiza a competição é também responsável por outras provas e coloca-as no calendário de forma a que a Volta a França tenha o protagonismo central. A importância do Tour também tem muito a ver com o amor que desde cedo França teve pela prova, até pela divulgação que promove o próprio território. Então é um baluarte da própria França e há uma enorme competitividade entre regiões para receber a corrida, o que faz com que todo o mercado se desenvolva à volta do Tour”.Por isso, a Volta a França é também o epicentro das grandes transformações que o ciclismo vai conhecendo: “O ponto que justifica este livro é vermos uma mutação brutal na forma de correr. Graças à evolução científica, hoje o nível da competição é elevadíssimo de fevereiro a outubro e eu acho que isso é um dos grandes encantamentos para o ciclismo: ver os principais corredores sempre no topo de forma durante todo o ano”.Na organização do livro, o autor identificou três grandes blocos que ajudaram a definir a modalidade e o Tour, em particular. O primeiro foca o final de carreira de Lance Armstrong e o ruir da rede de doping montada pela equipa US Postal. O norte-americano venceu sete edições consecutiva do Tour, entre 1999 e 2005, mas foi desprovido de todos os títulos em 2012 após uma investigação da Agência Antidoping dos Estados Unidos (USADA) ter comprovado a existência de um esquema sistemático de recurso a substâncias ilícitas para aumentar o rendimento. Uma controvérsia que lançou ainda mais suspeição sobre o ciclismo e que “afastou público da modalidade” e da Volta a França também, até devido à perda de emoção em relação ao vencedor. “Era sempre a mesma coisa. O domínio da US Postal era enorme e a Armstrong bastava ganhar umas três, quatro etapas para decidir tudo”. .A esse período, seguiu-se a credibilização definitiva da modalidade após a introdução do passaporte biológico e o investimento financeiro e a inovação científica promovidos pela equipa Sky. “Diria que é a segunda parte deste livro a forma com a Sky procurou ganhos marginais apoiada na ciência, com apostas como o estágio de altitude muito mais concentrado, novos mecanismos na bicicleta, novas técnicas, o aperfeiçoamento dos fatos de contrarrelógio, etc. Tratou-se de um investimento absolutamente milionário na altura, com o valor a rondar 30/40 milhões de euros quando as equipas tinham orçamentos entre os cinco e os dez milhões”, explica Frederico Bártolo. O terceiro bloco olha para a maneira como, nos últimos anos, mudou o perfil dos grandes líderes de equipas, emergindo figuras como o esloveno Tadej Pogacar, ciclista da UAE Emirates e principal favorito à conquista do Tour deste ano, a 113.ª edição, que vai para a estrada de 4 a 26 de julho, no qual pode igualar as cinco conquistas de outros quatro recordistas. “Existia um ciclismo que era absolutamente vocacionado para a experiência, em que os líderes só tinham esse estatuto a partir dos 24, 25 anos. Mas, entretanto, houve uma enorme revolução nos últimos sete anos, que aliou a atividade dos olheiros na deteção precoce de atletas a um trabalho já muito específico de reforço muscular, de perda de peso localizado, para garantir uma distribuição muscular nos sítios certos”, conclui o autor. .João Almeida diz não estar preparado para correr a Volta a França