Um embaixador, uma lenda, uma traição e muito mais. Oito factos que ligam Portugal e Espanha

Portugal e Espanha defrontam-se esta noite em Braga num jogo em que basta um empate à seleção para chegar à fase final da Liga das Nações. História futebolística dos dois países está cheia de caminhos cruzados, de jogadores a treinadores, a confrontos pioneiros, passando por uma candidatura conjunta ao Mundial 2030.

Espanha apadrinhou estreia de Portugal

Em 1921, o "grupo representativo de Portugal" estreou-se frente à Espanha com uma derrota (3-1). Um jogo que aconteceu oito anos depois de se iniciarem as negociações e decidir quem pagava as despesas da viagem até Madrid. Para a história ficou o golo de honra marcado por António Augusto, o primeiro da seleção nacional. Ainda foram precisos 25 anos e 21 jogos para ver Portugal ganhar à Espanha (em 1947, embora durante a Guerra Civil espanhola os portugueses tenham vencido alguns jogos não reconhecidos pela FIFA). Mais de 100 anos depois a ligação umbilical mantém-se. Hoje escreve-se o 43.º capítulo (11.º oficial entre 32 particulares) de uma rivalidade centenária: 17 triunfos espanhóis, 17 empates e oito vitórias lusas - só uma delas num jogo oficial, no Euro 2004, com um golo de Nuno Gomes (1-0), num jogo marcado pela estreia a titular de Ronaldo.

Iker Casillas, um campeão mundial entre muitos flops

Passar a fronteira de Espanha para Portugal sempre foi mais complicado do que ir de cá para lá. Grande parte dos 92 espanhóis que jogaram nas liga portuguesa pouco ou nada renderam. Iker Casillas trouxe finalmente bons ventos em 2015 e Pablo Sarabia manteve o nível na época 2020-21. O guarda-redes chegou ao FC Porto depois de 16 temporadas na baliza do Real Madrid. Um jogador com estatuto de nível mundial e um carisma que rapidamente conquistou os adeptos. Em 156 jogos de dragão ao peito, durante cinco épocas, foi campeão nacional e conquistou uma Supertaça. Foi no Dragão que colocou um ponto final na carreira em 2019, depois de sofrer um AVC num treino. Capdevilla foi um dos flops. Chegou à Luz com 33 anos no verão de 2011, depois de ser campeão do Mundo. Fez apenas 10 jogos no Benfica e saiu sem deixar saudades. Tal como Roberto, Chano ou Raúl de Tomás, os sportinguistas Angulo e Jeffrén, e os portistas Jose Ángel e Adrián Lopez entre outros.

Quando Luís Figo dividiu a Espanha

O caso foi tão mediático que ainda hoje Luís Figo é considerado persona non grata em Barcelona e a polémica até mereceu recentemente honras de um documentário na Netflix. Figo era um quase um Deus em Barcelona (onde chegou em 1995 em oriundo do Sporting), mas na altura de renovar contrato achou que o seu valor e influência não estava a ser premiado pelo então presidente Joan Gaspart. Ao mesmo tempo, no rival de Madrid, um ilustre desconhecido tentava ser presidente. E foi então que foi montada uma operação que culminou numa das transferências mais polémicas de sempre. Entre avanços e recuos, e pressões do empresário José Veiga e de Paulo Futre, e já com Florentino Pérez eleito, no dia 24 de julho de 2000, Figo deixou os catalães e assinou pelo eterno rival de Madrid, a troco da cláusula de rescisão de 12 milhões de contos, a transferência mais cara do futebol mundial naquela altura. Depois foi o que sabe, de cada vez que visitiva Camp Nou era insultado - ganhou até a alcunha de pesetero - e na sua primeira deslocação ao campo do Barcelona até com uma cabeça de leitão lhe atiraram.

De Mourinho e Queiroz a Fernández e Camacho

António Oliveira foi o pioneiro dos treinadores portugueses em Espanha (Bétis em 1975), mas nenhum teve o sucesso e o mediatismo de José Mourinho, que orientou o Real Madrid entre 2010 e 2013, conquistando um campeonato espanhol, uma Taça de Espanha e uma Supertaça. No total, 11 portugueses treinaram na La Liga, com destaque também para Carlos Queiroz ter orientado o Real Madrid (2003-04). No sentido inverso, foram mais de 20 os espanhóis que orientaram equipas portuguesas. Victor Fernández ganhou uma Taça Intercontinental e uma Supertaça no FC Porto e Lopetegui também orientou os dragões (sem troféus). No Benfica estiveram Jose António Camacho (uma Taça de Portugal) e Quique Flores (uma Taça da Liga). Destaque também para Paco Fortes, que levou pela primeira vez o Farense a uma prova europeia (1994-95).

Gomes Bravo abriu a porta. Futre foi a primeira estrela

José Maria Gomes Bravo foi, a 22 de fevereiro de 1948, o primeiro futebolista português a jogar na I Liga espanhola.O médio trocou o Estoril pela Real Sociedad e na estreia frente ao Celta de Vigo marcou um golo e ganhou o direito a ficar no clube de San Sebastián mais uma época e meia, totalizando 15 golos em 38 jogos. O seu nome perdeu-se entre os 153 portugueses que desfilaram, ao longo dos anos, pelos relvados do principal escalão de Espanha. Embora estrelas como Jorge Mendonça, João Alves, Rui Jordão, Vítor Damas, António Oliveira e Fernando Gomes tenham deixado marca nos clubes que representaram, foi preciso esperar quase 40 anos para que um português fosse aclamado como grande estrela do campeonato: Paulo Futre. O extremo chegou ao Atlético de Madrid em 1987, depois de se sagrar campeão europeu pelo FC Porto, e depressa se tornou um ícone no futebol espanhol, tornando-se mesmo capitão dos colchoneros, clube que representou em sete épocas, totalizando 51 golos em 225 jogos. Futre foi uma espécie de embaixdor, abriu as portas para que outros portugueses se tornassem estrelas em terras espanholas, com Luís Figo, Deco e Cristiano Ronaldo a seguirem-lhe as pisadas em termos mediáticos.

Domínio espanhol na Taça dos Campeões quebrado pelo Benfica

O Benfica foi o clube que quebrou o domínio do Real Madrid na Taça dos Campeões Europeus. Os meregues conquistaram as primeiras cinco edições da prova, liderados por estrelas como Paco Gento, Ferenc Puskas e Alfredo Di Stefano. Contudo em 1960/61 deu-se a passagem de testemunho com os encarnados a superarem um super Barcelona (tinha eliminado o Real Madrid). Na final realizada em Berna, a equipa treinada pelo húngaro Béla Guttmann venceu por 3-2, ainda sem Eusébio e António Simões, mas liderados por Mário Coluna e José Águas, que marcaram um golo cada (o outro foi um autogolo do guarda-redes Ramallets). O ajuste de contas entre os dois únicos clubes campeões europeus na altura deu-se na temporada seguinte, com o Benfica a vencer o Real Madrid na final por 5-3, num jogo em que Eusébio (dois golos) destroçou aquela que era considerada a melhor equipa do mundo. Puskas fez um hat-trick na primeira parte, mas além dos golos do Pantera Negra, que fecharam a vitória, os encarnados contaram com os remates certeiros de José Águas, Cavém e Coluna.

Ronaldo a bater recordes no Real Madrid

Crsitiano Ronaldo marcou uma era no Manchester United, mas no verão de 2009 foi apresentado com pompa e circunstância como reforço do Real Madrid, numa cerimónia que contou com milhares de adeptos nas bancadas, ladeado por Eusébio e Di Stéfano, e ao som da "A Minha Casinha" dos Xutos & Pontapés. Vestiu de branco entre 2009 e 2018 e tornou-se numa lenda do clube. Conquistou títulos, bateu recordes atrás de recordes, até sair no verão de 2018 para a Juventus. Pelos merengues conquistou 16 troféus, dos quais se destacam as quatro Ligas dos Campeões, os dois campeonatos espanhóis e três Supertaças Europeias. A nível individual, quatro das suas cinco Bolas de Ouro/The Best foram conquistadas quando representava os blancos. O legado que deixou no clube é insuperável. Tornou-se o melhor marcador da história do Real com 450 golos - superou Raúl (323 golos) e Di Stéfano (308 golos) -, conquistou três botas de ouro da UEFA, três troféus pichichis (melhor marcador da liga espanhola), três prémios de melhor jogador da Europa da UEFA, quatro de melhor jogador do mundo pela FIFPro, entre muitas outras marcas.

Candidatura ibérica ao Mundial de 2030

As federações de futebol de Portugal e Espanha uniram-se para apresentarem uma candidatura conjunta à organização do Mundial de 2030. Os presidentes das respetivas federações, aliás, estiveram reunidos recentemente na Cidade do Futebol, em Oeiras, para aperfeiçoar a proposta que será apresentada à FIFA. Será a única candidatura europeia a concorrer para organizar a competição, depois de o Reino Unido ter desistido, para se concentrar na organização do Europeu de 2028, em conjunto com a Irlanda. A candidatura ibérica terá a concorrência, pelo menos, de quatro países sul-americanos, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai, os quais já oficializaram a sua candidatura conjunta à organização da competição, que contará com o apoio já assumido dos respetivos governos. O presidente da UEFA, Aleksander Ceferin, numa recente visita a Portugal, deu praticamente a certeza que Portugal e Espanha vão receber o Mundial de 2030 e prometeu dar toda a ajuda necessária à candidatura ibérica. Portugal e Espanha já receberam, individualmente, grandes competições. Em 1982 a Espanha foi palco do Mundial, Portugal recebeu em 2004 o Europeu e em 2019 a Liga das Nações.

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