Tribunal trava atletismo russo e abre portas a exclusão total

Recurso de 68 atletas foi rejeitado pelo Tribunal Arbitral do Desporto: atletismo russo está fora dos Jogos Olímpicos do Rio. COI decide no domingo sobre exclusão total da Rússia

"Obrigada a todos por enterrarem assim o atletismo. Isto é pura política." Rosto principal do atletismo russo, bicampeã olímpica, tricampeã mundial e recordista do salto com vara, Yelena Isinbayeva deu voz à revolta russa assim que o Tribunal Arbitral do Desporto (TAS) anunciou ontem, em Lausana, ter rejeitado o recurso apresentado pelo Comité Olímpico e por 68 atletas daquele país. Ou seja, o atletismo russo está fora dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro que começam no próximo dia 5 de agosto.

Pior ainda, para os russos, a decisão do TAS é um argumento mais a pressionar o Comité Olímpico Internacional (COI) no sentido de excluir toda a delegação da Rússia, numa decisão que deverá ser conhecida a partir do próximo domingo, dia em que o Comité Executivo do COI se reunirá em videoconferência para uma apreciação conclusiva às revelações do recente "relatório McLaren" - resultado de uma investigação independente pedida pela Agência Mundial Antidopagem (AMA) e publicado na última segunda-feira.

O relatório, a cargo do advogado canadiano Richard McLaren, revelou, recorde-se, a existência de um programa alargado de dopagem sistemática no desporto russo, sob o alto patrocínio do Estado e dos serviços secretos, levado a cabo entre 2011 e 2015, e que terá servido para adulterar mais de 300 casos de doping em cerca de 30 modalidades.

Ora, na terça-feira, após uma primeira reunião de emergência via telefone, o Comité Executivo do COI, presidido pelo alemão Thomas Bach, adiou uma decisão sobre a possível exclusão da Rússia dos Jogos do Rio por, entre outras coisas, ter dúvidas sobre a legalidade jurídica de uma sanção coletiva, afirmando então que iria esperar mais uns dias para levar também em conta a decisão do TAS sobre o recurso do atletismo russo. Pois bem, a decisão de ontem do tribunal arbitral de Lausana, a validar a suspensão do atletismo russo decretado pela federação internacional da modalidade (IAAF), vem reforçar os argumentos para uma exclusão total da Rússia.

"Lamentamos profundamente esta decisão claramente política e sem fundamentos legais", reagiu o ministro dos Desportos russo Vitaly Mutko, que o "relatório McLaren" acusa de ser o cérebro do megaesquema de dopagem. O dirigente, que é também presidente da federação russa de futebol, disse ainda que os atletas a quem o TAS negou a presença nos Jogos do Rio deverão "continuar a defender a sua honra e dignidade", pelo que, sugeriu, "talvez seja altura de levar a luta para os tribunais civis" - a Rússia pode apelar da decisão do TAS para o tribunal federal suíço no prazo de 30 dias.

Para já, as expectativas estão viradas então para a reunião do Comité Executivo do COI, no próximo domingo, para se saber se o organismo liderado pelo alemão Thomas Bach segue ou não as recomendações da Agência Mundial Antidopagem, e a pressão de várias potências ocidentais (dos EUA à Alemanha ou Reino Unido), para excluir todo o desporto russo do Rio 2016. Se isso acontecer, o presidente russo Vladimir Putin já avisou que se estará a criar uma grande "cisão" dentro do movimento olímpico, "manipulada pelos interesses políticos dos Estados Unidos".

"Regras são regras", diz Usain Bolt

Para já, o certo é que a Rússia está privada de competir com a sua modalidade mais bem-sucedida em Jogos Olímpicos. Das 397 medalhas conquistadas por esta superpotência do desporto mundial desde os Jogos de Atlanta 96, os primeiros em que a Rússia entrou como Estado independente, 77 delas foram ganhas no atletismo. A ginástica, com 53, é a segunda modalidade com mais pódios para os russos.

No Rio de Janeiro, além da veterana Isinbayeva, de 34 anos, o mundo não vai poder então assistir à atuação de outros grandes nomes do atletismo russo e candidatos fortes a medalhas, como o saltador em altura Ivan Ukhov, que se vê impedido de defender o seu título olímpico de 2012, o velocista Sergey Shubenkov, campeão mundial dos 110 metros barreiras em 2015, Mariya Kuchina, campeã mundial do salto em altura em 2015, Anna Chicherova, campeão olímpica de Londres 2012 também no salto em altura e entretanto suspensa por doping, Aleksandr Menkov, campeão mundial do salto em comprimento em 2013, entre outros.

De acordo com o medalheiro virtual atualizado no início de julho pela plataforma online Gracenote, de análise estatística ligada ao desporto, os atletas russos estavam cotados para conquistar seis medalhas no atletismo nos Jogos do Rio 2016 - quatro de prata e duas de bronze -, de um total de 63 em todas as modalidades.

A decisão ontem validada pelo TAS abre no entanto a porta à participação, sob bandeira neutral, de atletas russos que tenham vivido e sido controlados fora da Rússia nos últimos anos. O que, para já, beneficia apenas duas atletas: Daria Klishina, do salto em comprimento, há vários anos a viver nos EUA; e Yulia Stepanova, dos 800 metros, a atleta que ajudou a denunciar o esquema de dopagem estatal.

"É triste, mas regras são regras", comentou o jamaicano Usain Bolt, recordista mundial dos 100 e 200 metros. "É importante enviar uma mensagem forte contra o doping."

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